terça-feira, 29 de maio de 2012

Faz isso, faz aquilo...

A maioria das pessoas, se não a totalidade, já se viu alguma vez tentando dar ideias sobre assuntos que não domina. 
Creio que muitas soluções surgiram graças a essas pessoas de boa vontade, que perderam, de alguma forma, seu tempo ao dedicarem pensamentos e raciocínios a assuntos que não lhe dissessem respeito diretamente. 
Não há como não valorizar tais atitudes, entretanto há que se ter cuidado para que essas ações não ganhem proporções que façam os autores das ideias serem mal interpretados, principalmente quando passam a se julgar geniais. 

Nos esportes coletivos isso se dá com enorme frequência, principalmente no futebol, quando um time é escalado ou quando as substituições são feitas. 
Todos têm um time ideal, porém certamente esse “ideal” varia de pessoa para pessoa, propiciando um enorme número de combinações, haja vista a quantidade de jogadores que compõem um elenco. 
Sendo assim, qual a escalação correta? A minha, a do leitor - qual delas - ou a do técnico? 
Provavelmente todas são coerentes e guiadas pelo famoso “bom senso”, que todos julgam ter. 
O que parece óbvio para um pode não ser para outro, além do que, creio que a pessoa mais preparada para uma decisão a esse respeito seja realmente o técnico que, em tese, deve ter mais conhecimento sobre o assunto, é remunerado para exercer o cargo e ainda tem ciência do que acontece nos bastidores.
Além de todos esses argumentos, há outro indiscutível: Se o resultado não for alcançado é o técnico que será cobrado, portanto nada mais coerente do que ele agir da forma que acredita. 
Contudo, mesmo diante dessa argumentação sempre existirão os  que preferirão se expor comentando o que não conhecem.

Sobre isso, tem uma passagem bastante engraçada ocorrida num jogo de voleibol. Um torcedor daqueles se julgam entendidos, começou a criticar o melhor técnico de voleibol do mundo, por ele posicionar uma jogadora que vestia a camisa # 7, na entrada de rede ( para quem não conhece voleibol, no lado esquerdo da quadra). 
O torcedor inflamado gritava: “Burro, como você escala a ponta direita na esquerda”!
E agora? Vai explicar para o sujeito que a numeração da camisa não guarda relação com a posição e que as modalidades são diferentes... 
Nesse caso uma frase de Abraham Lincoln cai com perfeição:
É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é tolo, do que falar e acabar com a dúvida.

Trazendo para o lado do marketing, práticas semelhantes também acontecem. 
Questionamentos sobre a razão de não se lançar um produto ou de que o preço está errado são corriqueiros, contudo devo admitir que excelentes ideias podem surgir desses questionamentos. 

Infelizmente, nenhuma das sugestões chega acompanhada de um projeto no qual se explicite a fonte de recursos para eventuais investimentos, como tal ideia seria integrada ao planejamento de marketing, qual o retorno financeiro esperado e em que ordem de prioridade essa ideia deveria ser colocada. 
Claro que a elaboração de um projeto com tal detalhamento é atribuição do marketing, porém essa área não tem como única atribuição ficar elaborando projetos e implementando sugestões de terceiros que não estão no dia a dia da operação, e desconhecem as prioridades e objetivos macros da instituição. 

Não restam dúvidas de que a intenção da maioria das sugestões e até das críticas é a melhor possível, sendo muito fácil diferenciar as que têm espírito construtivo das movidas por inveja, desconhecimento e interesses escusos... 
Por fim, vale deixar claro que tanto o esporte como o marketing não são ciências exatas e, portanto, torna-se impossível afirmar qual ação é a melhor, visto haver dependência de fatores exógenos e incontroláveis. 
Por outro lado, é fácil apontar qual a pior opção: a colocação feita sem embasamento, estudo e conhecimento sobre o assunto.


terça-feira, 22 de maio de 2012

São tantas variáveis...


Nunca é demais esclarecer que, ao contrário do que vem se popularizando, marketing é uma disciplina estratégica em sua essência

Eventos, publicidade, promoção e comunicação são ferramentas que uma gestão de marketing pode adotar, ou não, dependendo das necessidades identificadas e dos objetivos que se deseja alcançar. 
Nem sempre a solução de marketing para um problema está na comunicação, muitas vezes pode ser uma questão de precificação, distribuição ou até da formatação do produto. 
Portanto, qualquer decisão que se tome antes de uma análise minuciosa do cenário e da definição do que se objetiva será desperdício de esforço e recursos. 

Entender o processo de experiência de consumo é fundamental em todos os ramos de atividade, afinal são tantas variáveis...

A título de ilustração vamos fazer o exercício de analisar o comportamento do consumidor ao abastecer seu veículo. 
O nível de prazer nessa ação é baixíssimo, pois se trata de um bem intangível que faz o motorista perder tempo e gastar dinheiro sem ver o produto que está comprando, além de não detectar nenhum benefício naquele momento, ao contrário do que acontece, por exemplo, no consumo de um sorvete.
Diante dessa realidade, as distribuidoras tentam encontrar maneiras para minimizar os aspectos negativos dessa experiência.
Oferta de serviços alternativos, incorporação de lojas de conveniência e filtros transparentes nas mangueiras para que o combustível fique visível são algumas das iniciativas adotadas.
Claro que ninguém deixará de consumir combustível por ser desagradável abastecer, mas certamente as distribuidoras mais atentas às características do consumo conseguirão conquistar alguns clientes com boas iniciativas. 

Esse tipo de análise deveria ser feita em todos os segmentos econômicos, assim aproveitamos para focar o futebol. 

Muitos analistas preconizam que para aumentar o público nos estádios é necessário ter um espetáculo com bons jogadores, segurança, conforto, preços adequados e divulgação de aspectos que tragam motivação, tais como rivalidade, tabus, recordes, etc. 
Estão certíssimos, essas variáveis são fundamentais.
No entanto, existe outra que se não for resolvida urgentemente, principalmente no Rio de Janeiro, pode fazer com que o público troque a emoção da ida ao estádio pela conveniência de assistir ao jogo pela televisão. 
Refiro-me ao acesso e tempo para se chegar ao estádio
Tem sido cada vez mais constante o número de reclamações de torcedores que gastam mais de duas horas para percorrer distâncias inferiores a 20 km para chegarem às arenas onde ocorrem as partidas de futebol. 

Nesse caso, clubes e administradores do estádio pouco têm a fazer, visto que transporte e trânsito são atribuições do poder público, que se não tomar medidas cabíveis para a solução desse problema, potencializará o risco de afastar torcedores dos estádios e, consequentemente, criará um desequilíbrio na composição de receitas dos clubes, visto que dessa forma o faturamento com o chamado “match day” terá um percentual muito inferior ao das demais receitas. 
Essa situação, além de deixar as finanças dos clubes mais vulneráveis e dependentes dos direitos de transmissão e patrocínios, ainda pode, em longo prazo, afastar o torcedor do esporte, pois é sabido que a experiência de ir ao estádio é vital não só para motivação dos jogadores como também para o crescimento do esporte. 

Esperar que o mercado se autorregule pode até ser uma solução para a Economia, mas considerar essa hipótese para resolver problemas de transporte é inadmissível, ainda mais com a proximidade dos megaeventos.


terça-feira, 15 de maio de 2012

O poder das cores

O tema acima propicia a possibilidade de se escrever uma infinidade de artigos sob a ótica de marketing, afinal de contas, as cores têm o poder de gerar fortes efeitos psicológicos sobre o organismo humano, os quais por sua vez geram juízos, percepções e emoções. 
As características das cores, seus efeitos, suas combinações e aplicações às diversas categorias de produtos são alguns dos temas que poderiam ser desenvolvidos, no entanto fugiria um pouco da proposta do blog, razão pela qual vou me ater às iniciativas das empresas em fortalecerem suas marcas associando-as às cores.

Fora do âmbito esportivo, o Banco Itaú talvez seja o caso que mais chame atenção, pois conseguiu apoderar-se da cor laranja, chegando ao ponto de fazer um comercial inteiro sem falar seu nome.

Outro exemplo bem interessante é o do Banco do Brasil, no qual a cor amarela virou quase que sinônimo da marca. 
Nesse caso o esporte teve forte influência, pois ao patrocinar a Confederação Brasileira de Voleibol a cor ganhou grande destaque nos uniformes e nas ativações feitas junto à torcida, a qual recebe camisas amarelas com a logo do banco para serem utilizadas nos jogos, gerando assim um efeito visual bem interessante, tanto ao vivo quanto nas transmissões pela TV. 
Essa associação é tão valorizada, que uma tentativa de alterar as cores dos uniformes da seleção brasileira de voleibol em 2005 - a da equipe masculina para preto e da feminina para rosa – se viu frustrada por influência do patrocinador. 

Por fim, um caso bastante emblemático ocorreu no Mutua Madrid Open de Tênis, disputado tradicionalmente em quadras de saibro, uma espécie de pó de tijolo que deixa a quadra num tom avermelhado, mas que nesse torneio teve a cor alterada para azul através de processo químico. 
Essa mudança sofreu inúmeras críticas dos jogadores, que julgaram o terreno inapropriado por ser muito escorregadio, já o organizador defendeu a medida argumentando que melhora a visibilidade da bola amarela graças ao  contraste produzido, o que também é verdade. 
Entretanto, comenta-se que a principal causa dessa mudança foi reforçar a associação do torneio ao patrocinador, a Mutua Madrileña, empresa espanhola de seguros, cuja marca é azul. 
Talvez nunca seja possível ter certeza acerca dessa suspeita, entretanto a exposição gerada pelo fato certamente trouxe um retorno de imagem à Mutua bem superior à expectativa.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Os fins justificam os meios?

A revelação de um esquema ocorrido na NFL (National Football League) em 2009 veio à tona recentemente e, além de causar perplexidade no mundo esportivo, também serviu para refletirmos sobre quais os limites aceitáveis das iniciativas para se sair vencedor. 

Foi descoberto que os jogadores do New Orleans Saints recebiam compensações financeiras, caso conseguissem machucar os jogadores adversários. 
Segundo as investigações, tirar um adversário do jogo rendia US$ 1 mil ao autor da façanha, sendo que na fase dos playoffs esse valor era três vezes maior. 
Cumpre informar que em 2009 a equipe conquistou o SuperBowl. 
Será que os fins justificam os meios?

Querer que o esporte seja exercido sem “pecados”  e só por "mocinhos" é algo utópico, visto que o ser humano é falho e sob emoção, consequentemente mais suscetível ao erro, fato bem comum no esporte.
Porém, existem condutas inaceitáveis sob qualquer ótica, entre elas estão o doping, a violência premeditada tal qual aconteceu com a equipe dos Saints e perder jogos de forma proposital
Sobre esse último vale também refletir, visto que muitos comentaristas confundem "poupar recursos" com "perder de forma proposital".

Em 2010 tentaram manchar a conquista brasileira do campeonato mundial de voleibol masculino.
Parte da imprensa alegou que o Brasil perdeu intencionalmente da Bulgária na fase inicial da competição para poder enfrentar adversários mais fracos na fase seguinte. 
Certamente esses críticos nunca praticaram esportes de forma competitiva e desconhecem os desgastes de um campeonato, se assim não fosse, entenderiam que os técnicos precisam administrar seus recursos, de forma que alguns jogadores necessitam ser poupados para estarem menos desagastados nas partidas decisivas. 
Curiosamente não aparece nenhum comentarista criticando nadadores e corredores por imprimirem ritmos mais lentos nas séries preliminares das competições, parece que nessas modalidades não é "errado" estar mais "descansado" na final.

Existe uma frase de um psicoterapeuta norte-americano Wayne Dyer muito apropriada para a situação:
“Quando você julga os outros, não os define, define a si mesmo”. 

Mas voltando ao título do artigo, a resposta é não.
Vencer é ótimo, seja no esporte, na profissão e na vida, porém sem ética e moral, nenhuma vitória vale a pena.
Na verdade, vencer de forma ilícita é perder.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Os esportes olímpicos e suas federações

Excetuando a FIFA, que teve o tricolor Dr. João Havelange como presidente, nenhuma das federações internacionais que regem as modalidades esportivas presentes nos Jogos Olímpicos, teve um brasileiro como presidente. 
Esse fato poderia ser explicado em razão do futebol ser um esporte em que o Brasil tem ótimas performances e, consequentemente, deveria ter dirigentes mais capacitados para a gestão do futebol.
No entanto, se analisarmos as demais federações iremos concluir que a performance esportiva da nação não guarda relação direta com a escolha do presidente da federação, vide, por exemplo, a FINA (Federation Internationale de Natation) cujo dirigente máximo é do Uruguai, país sem tradição nessa modalidade. 
Informações como essa em relação aos presidentes, assim como a localização das sedes estão contidas em mais um estudo da Jambo Sport Business http://www.slideshare.net/jambosb/federaes-internacionais-de-esportes.
Esse estudo teve como objetivo mostrar quem são os patrocinadores das 28 Federações analisadas, seus ramos de atividade e respectivas nacionalidades.
Vale esclarecer que em função dos valores dos patrocínios não serem divulgados na maioria das vezes, essa análise não pode contemplar o montante de investimentos recebidos por cada Federação.
Além disso, é importante ter em mente que quantidade de patrocinadores não significa necessariamente mais verba, visto que alguns patrocínios chegam a acontecer na base de permuta.

Entre os números dignos de destaque valem ser citados: 
  • Nenhuma sede de Federação está na América do Sul e só há um presidente desse continente, um uruguaio na FINA - Natação.
  • 25 sedes estão na Europa e 19 presidentes são europeus.
  • 17 sedes (60,7%) estão na Suíça, provavelmente influenciada pela proximidade do Comitê Olímpico Internacional.
  • Espanha e Suíça são os países com mais presidentes de federações (3 cada um).
  • A ITTF (Tênis de Mesa) é a Federação com maior número de parceiros - 15 -, porém tudo indica que grande parte se dê através de permuta.
  • O patrocinador ou fornecedor mais presente é a adidas (6 federações).
  • Ao todo identificamos 102 patrocinadores oriundos de 17 ramos de atividades.
  • O país com mais empresas patrocinadoras é o Japão com 15, seguido pela Alemanha com 12.
  • Nenhuma empresa de capital sul-americano é patrocinador de Federação.
  • Empresas do ramo de bens de consumo são as mais presentes como patrocinadoras (38), seguido pelas do segmento de serviços (12).
Além das diversas informações coletadas nesse estudo, o mesmo permite concluir que a predominância política das Federações europeias nos esportes olímpicos com quase 90% das sedes mundiais e 75% dos presidentes se reflete de alguma forma na presença majoritária de patrocinadores europeus nestes esportes. 
Por outro lado a presença de patrocinadores norte-americanos é claramente desproporcional ao tamanho de sua economia e à posição de seus atletas nos quadros de visibilidade e audiência que os esportes olímpicos têm no país.