terça-feira, 26 de março de 2013

Cidade dos corredores

Dinheiro não traz felicidade...Mas será que traz resultados esportivos?

A história do esporte está repleta de exemplos nos quais investimentos se traduzem em boa performance. 

Evidentemente, essa assertiva deve considerar o investimento relativo, caso contrário incorrerá no mesmo erro que críticos pouco preparados, ou mal intencionados, caem ao tentar correlacionar o investimento no esporte olímpico brasileiro com o número de medalhas, esquecendo-se de que outros países investem ou investiram mais ao longo do tempo. 

E se mudarmos a pergunta para: Falta de dinheiro traz resultados esportivos? 
Creio que grande parte dos leitores, se não a totalidade, afirmará categoricamente que não, resposta que também seria a minha, caso não tivesse ouvido falar em Bekoji. 
Uma pequena cidade na Etiópia com cerca de 30 mil habitantes, a 5 horas de carro da capital Addis Abeba, sendo que três horas desse percurso é realizado em estrada de terra. 
Todavia, o que leva a cidade a ser conhecida não é seu alto índice de pobreza e sim o fato de ter produzido magistrais corredores de longa distância, os quais já conquistaram oito medalhas de ouro em Jogos Olímpicos, 32 campeonatos mundiais e 10 recordes mundiais. 
Vale ainda citar que a própria estrutura de treinamento é bastante precária, com pistas improvisadas e nenhum tipo de equipamento como monitores de frequência, por exemplo.
O documentário Town of Runners, o qual recomendo a quem gosta de esporte assistir, mostra com detalhes como o Atletismo está enraizado na sociedade de Bekoji . 

As razões apontadas pelos especialistas em treinamento desportivo para tão expressivo desempenho são: 
  • A altitude da cidade, que está situada a cerca de 3.000 metros acima do nível do mar, o que acarreta no organismo uma produção maior de glóbulos vermelhos, células fundamentais para corredores de longa distância. 
  • O transporte urbano quase que inexistente, que obriga as crianças a percorrem distâncias de até 20 km para ir e voltar do colégio. 
O estilo de correr do lendário etíope Haile Gebrselassie, um dos melhores atletas de longa distância, ilustra de forma curiosa essa razão, mesmo não tendo nascido em Bekoji.
Sua mecânica de corrida com o braço esquerdo levemente dobrado é creditada ao fato de, quando criança, transportar os livros com o braço esquerdo em sua locomoção diária para a escola.
  • A melhor maneira, se não a única, de “ser alguém” em Bekoji é sair de lá e a forma mais viável para isso acontecer é se tornar um bom corredor. 
Assim chegamos a um paradoxo bastante interessante, que permite, nesse caso, concluir que: 

A falta de recursos é responsável pela boa performance. 

Naturalmente, o que ocorre em Bekoji é uma exceção, porém pode servir de exemplo tanto no esporte, como no mundo corporativo e na vida, de que esforço, dignidade, criatividade e talento podem compensar, de alguma forma, a falta de recursos financeiros.

terça-feira, 19 de março de 2013

A indústria da beleza

No artigo “A sensualidade e o marketing” http://halfen-mktsport.blogspot.com.br/2011/08/sexualidade-e-o-marketing.html procurei mostrar algumas situações onde o esporte e atletas se aproveitavam da sensualidade para se destacarem. 

Dessa vez, a análise também versará sobre esporte, marketing e sensualidade, porém com uma ótica inversa, ou seja, pessoas e instituições que têm como negócio fim a exploração da sensualidade e que se aproveitam do esporte para obterem o destaque objetivado. 

São inúmeras as capas de revistas masculinas - tanto no Brasil como em outros países - que usam como tema dos ensaios, atletas das mais variadas modalidades esportivas.
Frequentam essas capas desde atletas com pouco reconhecimento no meio esportivo até atletas de renome internacional, entre essas podem ser citadas: No Voleibol, Francesca Piccinini, seleção italiana e Milena Radecka, seleção polonesa; no Tênis Ashley Harkcleroad, americana que chegou a duas finais de Grand Slam, na Natação, Franziska van Almsick, ex-recordista mundial alemã dos 200 livre e Amanda Beard, medalhista olímpica americana. 

Outra ação que também se aproveita da sensualidade para o mesmo fim é a criação de concurso de musas dos times de futebol e de cheerleaders das franquias que disputam as principais ligas esportivas americanas. 

Por fim, existem as modelos que ao se intitularem como musas da Copa, das Olimpíadas e/ou dos demais eventos esportivos também conseguem projeção na mídia. 

Debater a decisão das atletas e musas que optam por esse tipo de trabalho fugiria do contexto do blog, porém, creio que, desde que não venha trazer prejuízos aos valores do esporte, essa é uma questão totalmente de foro íntimo. 
Já a exploração do esporte pela indústria da beleza e sensualidade deve ser analisada num âmbito mais abrangente. 
  • O que será que leva o atleta a ser tão requisitado para esse fim?
  • Por que uma disputa de beleza deve ter candidatas representando times?
  • Qual a razão de modelos quererem se associar a marcas esportivas? 
Responder isoladamente a cada uma dessas questões exigiria muito espaço e fatalmente implicaria em explicações redundantes.
A resposta básica que explica esse movimento é que o esporte é um ramo de atividade de grande apelo, baixa rejeição, extrema plasticidade e com capacidade de mexer com o lado aspiracional de grande parte da população, ou seja, quase todos já desejaram ser atletas ou frequentar o ambiente esportivo.

Uma pena que poucas empresas, principalmente em nosso país, atentaram para essas características e conseguem explorar de maneira inteligente o potencial que essa atividade pode proporcionar às suas marcas.

terça-feira, 12 de março de 2013

Você está demitido

Frequentemente somos expostos a notícias sobre rompimentos de contratos de patrocínios a eventos, clubes e atletas, sendo que no caso desses últimos a comoção e o destaque na mídia costumam ser maiores.

Não há como negar que se trata de um fato bastante impactante, visto que o patrocínio significa o emprego do atleta e, consequentemente, sua principal fonte de renda.

No entanto, poucos param para pensar que em pouquíssimos casos essa decisão tem caráter pessoal, estando muito mais ligada a expectativas não satisfeitas ou a cortes de orçamento.

Mesmo assim, a sensação de quem sofre, é a de injustiça e, muitas vezes, de revolta.
Reações naturais, as quais costumam ocorrer na maioria dos rompimentos unilaterais tais como perdas e separações.
Porém, a postura nesse momento pode fazer toda a diferença, principalmente no que tange ao patrocínio esportivo.
Alguns atletas emitem declarações bastante infelizes, que repercutem e podem trazer consequências em futuros patrocínios tanto para eles próprios como para outros atletas.
Afinal, qual empresa gostaria de ver seu nome "arranhado" na mídia por ter tomado uma decisão meramente corporativa.
Os atletas parecem esquecer que o departamento de marketing de uma empresa costuma ser submetido diariamente a dezenas de propostas e que a decisão sobre onde investir, leva em consideração uma série de fatores, inclusive as consequências de uma eventual rescisão no futuro.
Por outro lado, existem atletas que poderiam servir de modelo para muitos executivos, pois nas vezes que são procurados pela mídia para comentarem sobre uma rescisão, simplesmente agradecem ao ex-patrocinador e lembram com gratidão do momento em que foram contratados.
Ou seja, têm claro em suas mentes que para ser desligado, existe uma fundamental condicionante: ter sido um dia contratado.

Não quero com essas reflexões defender patrocinadores/empregadores e/ou minimizar a sensação de atletas/empregados que são demitidos.
O que pretendo nesse artigo é enaltecer que a postura pós-rompimento tem uma enorme importância.

Vale ainda ressaltar que, apesar da forte dor de quem recebe o anúncio do fim, é bastante doloroso fazer tal anúncio.
Obviamente, cabe ao porta-voz da má notícia ser hábil e humano o suficiente para tentar fazer com que tal momento seja o menos traumático possível.

Na verdade, falar ou escrever “você está demitido” só é fácil quando essa frase serve como título de algum artigo...

terça-feira, 5 de março de 2013

Fusões e aquisições

O recente anúncio da fusão entre American Airlines e US Airways trouxe, por mais estranho que possa parecer, reflexos no ambiente esportivo.
Tal fato não se deveu ao temor de um eventual aumento de preços das passagens aéreas, mas de como será o nome da arena em Phoenix, onde o Suns (NBA) e o Mercury (WNBA) sediam seus jogos e a US Airways é detentora dos naming rights.
Essa arena começou sua operação em 1992, na época os naming rights pertenciam à America West Airlines e foi denominada de West Arena America até 2005, quando houve a fusão dessa empresa com a US Airways.

O mercado prevê que num primeiro momento nenhuma mudança ocorrerá, porém a tendência é que em breve a arena passe a adotar um nome associado à American Airlines.
Se isso de fato ocorrer, a arena de Phoenix será a terceira com essa marca, visto a existência do American Airlines Center em Dallas, onde Stars (NHL) e Mavericks (NBA) mandam seus jogos e da American Airlines Arena, sede dos jogos do Miami Heat.
Apesar da US Airways ter sua sede em Phoenix, não creio que uma eventual alteração traga maiores problemas à nova marca "titular".

Contudo, o objetivo da exposição desse fato é trazer a reflexão acerca das consequências que o esporte pode sofrer num processo de M&A (Mergers & acquisitions – Fusões e aquisições).

Existem para o segmento, três diferentes situações desse processo:
  • A empresa que é a adquirente ou que ficará à frente da gestão tem a cultura do patrocínio esportivo.
Nesse caso o esporte não sofre maiores consequências, pois a tendência é a de que os patrocínios sejam mantidos.
  • A adquirente não ter como política a utilização do esporte como ferramenta de marketing.
Aqui a situação é mais preocupante e as chances dos patrocínios serem rescindidos ou não renovados são muito grandes. 
  • Por fim existe a situação em que ambas as empresas compartilham da mesma visão em relação ao esporte.
Se não costumam patrocinar, provavelmente assim se manterão.
Se já patrocinam, como é o caso do tema que deu origem ao texto, a situação é mais favorável ao esporte, a menos que esses patrocínios sejam referentes a equipes da mesma modalidade esportiva e as empresas deem seus nomes aos respectivos times.
Exemplificando, a Oi e a Brasil Telecom tiveram  equipes de voleibol feminino, a primeira em Campos e Macaé e a segunda em Brasília.
Algum tempo depois, a Brasil Telecom se fundiu com a Oi, que na época já não tinha mais o time de voleibol.
Porém, caso a equipe ainda estivesse ativa haveria um sério problema, cuja solução, certamente, passaria pelo fim de um dos times com o possível aproveitamento das melhores jogadoras e a dispensa das demais.
O que, aliás, é o quadro que ocorre nas fusões no mundo corporativo, onde os profissionais passam a disputar com seus pares da empresa adquirida ou adquirente, as posições do novo organograma.

Ao que tudo indica, o cenário de consolidação de empresas irá perdurar por um longo período, sendo assim, resta torcer para que as organizações que ficarão à frente dos novos conglomerados acreditem na força do esporte para seus respectivos mercados.