terça-feira, 28 de outubro de 2014

O legado dos Jogos

Quando se discute sobre o legado que os Jogos Olímpicos deixam para um país, abordam-se na maioria das vezes as melhorias que a cidade-sede recebe em termos de infraestrutura, o que, sem dúvida, é de extrema importância. 
A oportunidade de passar a ser um destino turístico mais atrativo, graças ao fortalecimento do perfil internacional adquirido pelo evento, também é uma realidade. 
No entanto, muito pouco é citado sobre a transformação da cultura esportiva do país devido à atmosfera que passa a imperar na nação.
Pouco se discute, também, sobre as instalações esportivas que, em tese, ao serem construídas facilitariam a prática de algumas modalidades que, até então, não faziam parte das potenciais opções esportivas da nação.
É sabido ou inferido, entretanto, que muitas modalidades não “pegam” em certos países, razão que leva os Comitês Organizadores Locais a optarem por instalações temporárias.

O estádio onde foram disputadas as competições de basquetebol nos Jogos de Londres é um exemplo disso, com capacidade para 12 mil espectadores e custo de R$ 110 milhões, a instalação foi totalmente desmontada, tendo sido inclusive cogitada a possibilidade de ser transferida para os Jogos do Rio 2016 ou para Glasgow 2014 (Commonwealth Games).
Aqui vale uma pausa para reflexão: Será que a Grã-Bretanha tem desempenho ruim no basquetebol por falta de instalações de bom nível ou a falta de instalações de bom nível é reflexo da performance ruim dos britânicos nessa modalidade?Obviamente o questionamento acima é exagerado e tem como único objetivo provocar a reflexão de que, talvez, seja necessário insistir na existência de espaços para todas as modalidades, mesmo que as performances não sejam satisfatórias nos curto e médio prazos.


Na verdade, o que se pretende com o artigo é avaliar a melhor forma de oferecer instalações adequadas às competições, sem que essas fiquem subutilizadas posteriormente e que a modalidade ali praticada não seja relegada ao ostracismo.



Vejamos o caso do estádio olímpico Ninho do Pássaro em Pequim, que teve um investimento superior a US$ 500 milhões e raríssimas vezes consegue colocar um público que chegue perto dos 80 mil lugares.
Em Londres, das quatro grandes edificações: Velódromo, Centro Aquático, Pavilhão de Handball e o Estádio Olímpico, apenas o primeiro não terá seu uso reduzido para atender à demanda pós-Jogos. O Centro Aquático que foi projetado para acomodar 18 mil espectadores, dificilmente receberá mais de 6 mil numa competição regional.

Diante desses exemplos e de muitos outros que não teriam espaço suficiente no artigo, podemos concluir que a solução mais razoável para esse impasse seria a construção de instalações definitivas, porém com a parte relativa aos assentos sendo temporárias.
Há ainda a possibilidade de aproveitamento dos espaços dos assentos desmontáveis em construções que possam ser dirigidas tanto ao segmento esportivo - centros de treinamento e ginásios, como também a instalações de cunho social - como colégios, creches e bibliotecas.

Creio que dessa forma, seja possível não apenas ter locais apropriados para receber os megaeventos dentro dos parâmetros estabelecidos pelas autoridades, como também deixar um legado social e esportivo ao país.
Por fim, não custa reforçar que tais soluções terão validade reduzida, caso o legado relativo à infraestrutura e revitalização das áreas não se efetive.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Liderança é nata, caráter também...


Aproveitando a proximidade das eleições, achei pertinente escrever um texto sobre liderança, o qual, em linhas gerais, pode ser aplicado para instituições esportivas, corporativas e governamentais.

Engana-se quem acha que exercer alguma função de liderança significa ser líder. Essa afirmação ganha ainda mais força quando observamos o elevado número de pessoas que chegam a posições de destaque, mas vivem solitárias, e o mais triste, sem despertar a mais tímida admiração por parte de seus comandados, de seus pares e até da família.
São pessoas mentirosas, que não preservam suas equipes publicamente e, quando confrontados pessoalmente são incapazes de sustentar o que falam por trás. 
O resultado dessa combinação é trágico, pode variar da ridicularização, do isolamento e do desprezo por parte dos que com eles convivem até humilhantes tapas na cara que, obviamente, não são revidados, tamanha a covardia.
Vendem-se por elogios, fazem “amizades” por interesses, “afinam” para seus agressores e guardam rancores que não permitem passar por cima de desavenças e desentendimentos nem em momentos nos quais os “opositores” perdem entes queridos.
“Lealdade”, então, é verbete que falta em seus dicionários, já “falsidade” aparece em todas as páginas.
Citar exemplos de indivíduos com esse perfil seria deselegante, mas tenho certeza de que todos os leitores conhecem ou já conviveram com alguém assim.
Por outro lado, existem pessoas que não precisam efetivamente estar em cargos de liderança para serem seguidas e reconhecidas como tal.
Aqui vale mencionar exemplos públicos, gostem os leitores ou não das pessoas que serão citadas, afinal, o tema do artigo é liderança e não simpatia.


No esporte, penso que o melhor exemplo de liderança nata é a do técnico de voleibol Bernardinho que, desde cedo, tanto como jogador nas divisões de base como em seu círculo de amizades, sempre foi visto como uma pessoa confiável, leal, amiga e diferenciada.
Não é à toa que, mesmo com sua forma exigente e algumas vezes explosiva, é adorado por seus liderados e convidado frequentemente para assumir cargos de liderança seja na vida esportiva ou até na política.

Falando em política, é impossível não trazer exemplos de líderes, independentemente de serem de esquerda ou de direita, que mesmo fora dos holofotes do poder têm seus títulos preservados tamanha a reverência que causavam. O governador Leonel Brizola foi um exemplo disso, valendo recordar nesse texto sua presença no velório de um de seus maiores, se não o maior, desafeto, o Sr. Roberto Marinho, opositor eterno, onde proferiu elegantemente a frase: “Roberto Marinho foi um adversário cortês. É do confronto de ideias que surge a verdade. Embora existissem grandes diferenças entre nós, ele nunca me negou espaço”.
Não cabe aqui concordância ou discordância em relação aos envolvidos no episódio, mas é impossível não reconhecer a demonstração de respeito e aproveitar uma frase do eterno governador que muita relação tem com liderança:”Venho e volto do campo e os bois são os mesmos: não mudam de caráter. Já os homens...”

Na verdade, peço licença ao grande engenheiro para divergir um pouco da frase, pois caráter não se muda, é nato.
Sendo assim, finalizo o texto com uma frase do escritor francês Henri-Marie Beyle, também conhecido como Stendhal:"Pode-se adquirir tudo na sociedade, exceto caráter."



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Avis, a número 2

  
A Avis, apesar de ter uma trajetória interessante em termos de pioneirismo no lançamento de alguns serviços como gerenciamento de reservas em tempo real e oferta de carros adaptados a pessoas com necessidades especiais, não será analisada nesse artigo sob esse aspecto.
Também não exploraremos a ligação da empresa com o esporte, a qual é bem tímida, se resumindo basicamente a golfe, hipismo e ações pontuais.
Preferimos aqui, abordar o posicionamento que a empresa adotou para combater sua principal concorrente, a Hertz, que detinha 75% do mercado americano e uma verba de publicidade 5 vezes maior, o que fez com que a Avis resolvesse, assim, assumir a condição de vice-líder de mercado.


O anúncio ao lado traduz bem como foi a linha adotada pela empresa.
“Avis é apenas a número 2 em locação. Então, por que vir conosco? Nós trabalhamos mais duro, nós nos esforçamos mais”.

O slogan utilizado “We try harder” é considerado até os dias de hoje como um dos melhores de todos os tempos.

Tal conceito foi de fato um sucesso e fez com que a empresa se tornasse um gigante no ramo, com presença em mais de 160 países e uma frota de cerca de 400 mil veículos.

Essa estratégia, além de interessante pelo inusitado, já que todos buscam algum tipo de liderança, também pode servir conceitualmente como inspiração para clubes que não tenham a maior torcida e modalidades esportivas cujo número de praticantes e fãs seja inferior a outras em suas disputas pelo mercado.
Ter mais torcedores não é garantia de melhores resultados, sejam esses esportivos ou econômicos, assim como melhores resultados esportivos não necessariamente refletem maiores lucros, ou seja, de nada adianta quantidade se essa não vier acompanhada de uma identidade que a proteja de eventuais ataques indiretos a sua eficácia.
Evidentemente, o fato de se ter uma maior quantidade pode se transformar numa identidade, porém essa, de forma isolada, corre o risco de ser confrontada pela concorrência com posicionamentos calcados na qualidade, conforme vimos no case da Avis ou, voltando no tempo, à Atlantic com o consagradíssimo “Quem não é o maior tem que ser o melhor”.

No futebol isso pode ser bem observado através dos valores de patrocínios masters, os quais muitas vezes são mais altos para equipes cujas bases de torcedores são menores.
Na verdade, até no caso de patrocínio de fornecedores de material esportivo, onde os valores deveriam ser proporcionais à quantidade de torcedores, essa relação proporcional não acontece.
Também é possível constatar tais “fenômenos” se analisarmos as verbas que circulam entre as modalidades esportivas. Muitos esportes cujo número de praticantes, cobertura da imprensa e “torcedores” não é tão expressivo possuem patrocínios superiores a outros de maior representatividade quantitativa.

Em resumo, o fato de não se ter a maior quantidade não é justificativa para acomodação, ao contrário, é uma excelente oportunidade para utilizar o marketing e encontrar conceitos que posicionarão o clube, a empresa ou o esporte como "único" no mercado em que atuam.





terça-feira, 7 de outubro de 2014

Nenhuma mentira interessa


A utilização de mentiras e propagandas enganosas para valorizar um produto ou serviço é uma das causas do marketing ser visto de forma distorcida.
Para evitar mais distorções, convém ressaltar, de novo, que marketing e propaganda são coisas diferentes e que a primeira pode usar, ou não, a propaganda como parte da estratégia.
Voltando ao tema do artigo, reiteramos que tal prática, além de ilegal, pois engana o consumidor, ainda faz com que o marketing seja muitas vezes chamado de a “arte de iludir” e, por mais que os órgãos reguladores tentem coibir esse tipo de ação, elas continuam acontecendo, até porque muitas das vezes nem é possível a retratação.
Um anúncio publicado em jornal é um bom exemplo disso, pois mesmo que alguma denúncia seja acatada, o prazo necessário para julgamento e eventual retirada do veículo de circulação não permite que isso aconteça, já que com sua periodicidade diária fica impossível o recolhimento.

Sendo assim, uma das formas de minimizar a incidência dessas práticas é a aplicação de multas de valores aparentemente desproporcionais, para assim servir de exemplo e prevenção.

Nos EUA isso já é feito, ou melhor, multas são aplicadas aos que se valem de propaganda enganosa, mas não há como precisar se os valores são suficientemente altos para evitar reincidência ou mesmo se afetam significativamente os resultados do infrator.
Um case que ilustra bem essa situação é o do tênis FiveFingers, aquele com espaço separado para os dedos e que, segundo o fabricante, a Vibram, fortalecia os músculos dos pés e prevenia lesões.
A falta de uma comprovação científica desses benefícios levou uma consumidora a processar o fabricante, ato seguido por outras, até que se formou uma ação coletiva.
A empresa perdeu o processo e concordou em pagar US$ 3,75 milhões - o que equivaleria a US$ 94 por tênis comprado - e parar de veicular os benefícios alegados nas campanhas sobre o produto.
Curiosamente, o CEO da empresa alegou que o acordo foi feito com a intenção de evitar os custos que envolvem um litígio prolongado, mas que nega terminantemente as acusações da ação.
Nesse caso, creio que o mais prudente para a Vibram seja mudar o posicionamento da empresa, até porque o mercado dos tênis minimalistas, aqueles reproduzem com mais fidedignidade a pisada descalça, já começa a dar sinais de saturação com a entrada de inúmeras marcas concorrentes, sendo que estas não sofreram acusações com a divulgação de processos judiciais.

Vale ainda acrescentar que esse não foi a primeira condenação de uma marca de tênis, visto que em 2012, a Skechers também foi condenada por divulgar que seus calçados tinham a propriedade de tonificar a musculatura e fazer com que se perdesse peso.
Guardadas as devidas proporções, vejo alguns equipamentos para a prática de exercício quase como um medicamento que, como tal, deveria ser ministrado através da recomendação de um especialista.
Obviamente, o endosso feito subliminarmente pelos atletas que usam efetivamente alguns equipamentos em seus treinos e competições é aceitável, já o testemunhal é discutível, até porque, no caso do tênis, por exemplo, existem individualidades que se não forem respeitadas podem comprometer a saúde do indivíduo.
Realmente é lamentável que fabricantes de produtos voltados à atividade física usem dessas artimanhas para conquistar clientes e mais ainda que chamem isso de marketing.