terça-feira, 1 de setembro de 2015

O ingresso está caro? E o valor?

O que me levou a escrever esse artigo foi a matéria publicada pelo jornalista Rodrigo Capelo  uma das raríssimas exceções positivas na imprensa que escreve sobre gestão esportiva – em sua seção Época Esporte Clube http://epoca.globo.com/vida/esporte/noticia/2015/08/elitizacao-do-futebol-ingresso-brasileiro-e-o-mais-inacessivel-do-mundo.html sobre a elitização do futebol brasileiro.

Seu texto, baseado no estudo de Oliver Seitz acerca da relação preço do ingresso vs. salário mínimo, discorre sobre a quantidade de horas de trabalho necessárias para se comprar um ingresso nos principais campeonatos nacionais do mundo.
Ponderações bem-feitas, levantamentos idem, porém creio que haja espaço para duas colocações que implicitamente estão lá, mas que valem ser realçadas.

Na primeira, volto mais uma vez ao termo Belíndia, cunhado pelo Professor Edmar Bacha, ao fazer referência a um país fictício, que resulta na conjunção de uma nação rica com leis e impostos de primeiro mundo, tal como a Bélgica, com outro de realidade social pobre como a Índia.
Esse termo, apesar de ter se popularizado há cerca de 40 anos, continua bem atual, inclusive no futebol.
Na verdade, é muito difícil fechar a conta da precificação do ingresso num ambiente em que jogadores recebem um salário similar aos de primeiro mundo, enquanto que o poder aquisitivo dos torcedores fica muito abaixo. O estudo mostrado ficaria ainda mais completo se o autor fizesse um levantamento da média salarial dos jogadores dos clubes que disputam os campeonatos nacionais de primeira divisão em relação ao salário mínimo nos países pesquisados.
Mas, independentemente dos resultados apurados, as contas dos clubes precisam ser pagas, aliás, grande parte destas é constituída de juros e execuções sobre não pagamentos das obrigações anteriores. Acrescente-se a isso, o fato de os torcedores exigirem equipes competitivas, o que implica, muitas das vezes, em folhas salariais maiores.
A hipótese de se colocar um teto salarial, proposta por muitos, não faz sentido num mundo globalizado, pois o mercado externo absorveria mais ferozmente nossos jogadores.
Dentro dessas condições, fica complicado encontrar o preço ótimo do ingresso tomando como parâmetro o salário mínimo do brasileiro ou mesmo os custos do clube.
Até porque, aí entro no segundo ponto que gostaria de realçar, acho que a discussão talvez passe mais pelo valor do que propriamente pelo preço do ingresso.
Explico, preço é a expressão quantitativa de um bem ou serviço, enquanto que o valor é quanto aquele bem ou serviço trará de benefício e/ou satisfação ao consumidor.
Assim, para uma precificação mais perto do “ponto ótimo” haveria a necessidade de estudos e pesquisas mercadológicas, nas quais se avaliassem as percepções, anseios e a composição da cesta de consumo dos torcedores, além das atividades de lazer que concorrem com o futebol.
A análise da cesta de consumo, então, é um fator fundamental, pois se os gastos com lazer correspondem a um percentual irrisório, de pouco adiantará um preço mais baixo, visto que as despesas com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene e transporte já comprometem toda a renda do cidadão.
Evidentemente, o próprio preço do ingresso, se alto, pode fazer com que os gastos com lazer sejam baixos na "cesta", já que nessa situação o consumidor pode preferir direcionar tal quantia para as demais necessidades ou mesmo para outra atividade de lazer mais em conta.

Enfim, existe uma série de variáveis que deve ser considerada no processo de precificação, muitas delas difíceis de serem apuradas, outras de complexa análise e grande parte sem a possibilidade de interferência direta dos responsáveis pela definição do preço.
De qualquer forma, a preocupação sobre o tema é bem-vinda e as discussões a respeito só têm a somar para o desenvolvimento do assunto.


2 comentários:

  1. A realidade é dura, mas precisa ser digerida de alguma forma. Este "arranjo" vem do próprio mercado. Enquanto as pessoas estiverem pagando seus ingressos, ainda que à custa de muito sacrifício, que sejam cobrados,
    Quando o valor atingir o valor máximo suportado, que se estabeleça o tal "teto" salarial.
    Se o mercado globalizado absorver mais ferozmente nossos jogadores, que absorva...
    Cada país tem a política e os jogadores que merece.

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  2. Obrigado pelo comentário, Julio!
    Não gosto muito de "tetos" salariais, penso de dessa forma acaba se limitando o talento e a competência,
    Abs

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