terça-feira, 7 de julho de 2015

Os idiotas da criatividade

A escolha do título teve como objetivo adaptar uma frase de um dos maiores escritores brasileiros – o tricolor Nelson Rodrigues – para um assunto que julgo bastante pertinente: a distorção do uso da palavra "criatividade".
Antes de seguirmos com o  texto, quero deixar claro que sou defensor ferrenho da “criatividade”, que considero fascinante a  análise dos processos criativos e que tal característica tem um peso considerável nas minhas escolhas, inclusive nas de colaboradores e fornecedores.
No entanto, existem alguns dogmas acerca da criatividade que precisam ser esclarecidos:
  • O primeiro é aquele que coloca a criatividade como substituta de todo e qualquer fator importante para a gestão de uma organização.
Perdi a conta do número de vezes que ouvi alguém replicar alguma explicação sobre falta de recursos – sejam humanos, financeiros, econômicos ou temporais – com a expressão “use a criatividade”.
Falam com uma autoridade, tal qual a de um idiota da objetividade.
Passam, assim, o atestado de que se houver recursos, a criatividade é dispensável.
Ora bolas, a criatividade é sempre necessária, independentemente dos recursos. Ou será que acham que a criatividade pode ser economizada, dosada ou desperdiçada?
  • O segundo dogma é achar que todas as soluções advêm de ideias criativas.
Como escrevi acima, não se deve jamais abrir mão da criatividade, porém, não se pode esquecer ou desprezar que a solução de grande parte dos problemas, se não a totalidade, passa inicialmente pela definição da estratégia que será adotada.
Essa envolve o conhecimento sobre a percepção do cliente para daí se chegar a um posicionamento que fará da empresa / produto / serviço algo único na mente do consumidor.
Nada adiantará ter uma ideia criativa para um problema, se essa não estiver em consonância com a estratégia, e mais, existe grande risco de adotá-la, resolver um problema imediato e criar no longo prazo uma condição que nem o mais criativo dos gestores conseguirá sanar.
O argumento de que a criatividade auxilia na elaboração das estratégias até pode fazer algum sentido, mas deixando bem claro que se trata de uma mera contribuição, visto que o processo de planejamento envolve ferramentas e conceitos científicos de gestão, que a criatividade, para decepção de seus defensores, não consegue substituir.

Chegamos ao final do texto e nada sobre esporte foi mencionado.
É verdade, porém, o desenvolvimento do tema foi inspirado naqueles que, motivados por interesses políticos, pela ignorância acerca de gestão, pelo desconhecimento da própria estrutura das organizações esportivas e desprovidos de coerência de raciocínio citam a “criatividade” como argumento para suas críticas.
Dentro desse contexto, até poderia mudar o título - que tanto gostei - para "Padre de passeata" (aquele que troca a batina pela política) ou até para "Palhares, o canalha" (oportunista sem nenhum escrúpulo), ambos tipos criados por Nelson Rodrigues, o qual, aliás, já dá o cunho esportivo que faltava, por se tratar de um torcedor fanático pelo Fluminense.



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