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terça-feira, 22 de setembro de 2026

O esporte precisa das bets?


A possibilidade de novas restrições às bets e a reação dos clubes de futebol, preocupados com o impacto sobre suas receitas, nos fornecem um excelente tema para analisar o mercado sob duas óticas que caminham juntas: marketing e economia.
A discussão sobre os efeitos sociais das apostas é legítima e necessária. Mas há outro aspecto que merece atenção: o que acontece quando um setor entra com enorme capacidade de investimento em determinado mercado e, depois, reduz sua presença?
No marketing, isso está longe de ser novidade.
Os investimentos em comunicação não são estáticos. Empresas aumentam ou reduzem verbas, mudam canais e propriedades de acordo com seus objetivos, estágio de desenvolvimento, ambiente regulatório e retorno esperado.
A história do patrocínio esportivo está repleta desses ciclos. Já vimos marcas de eletroeletrônicos buscando awareness internacional, telecomunicações expandindo sua presença, criptomoedas procurando legitimidade e companhias aéreas asiáticas ampliando sua exposição global.
Agora são as bets.
No Brasil, sua entrada foi particularmente agressiva. Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A tinham empresas de apostas como patrocinadoras máster. Em pouco tempo, um setor com grande disponibilidade de recursos passou a disputar um número limitado de propriedades relevantes.
Aqui o marketing encontra a economia.
Mais dinheiro disputando ativos cuja oferta não cresce na mesma proporção provoca um choque de demanda e eleva os preços. Foi o que aconteceu com diversas propriedades de patrocínio.
Mas o efeito não parou por aí.
O dinheiro adicional aumentou a capacidade de investimento dos clubes. Como o número de jogadores capazes de fazer diferença é limitado, mais recursos disputando praticamente os mesmos talentos elevam salários e valores de transferências.
Financeiramente, seria defensável que o clube utilizasse as novas receitas para reduzir dívidas, melhorar sua infraestrutura ou investir na base.
O problema é que ele não compete sozinho. Se seus adversários utilizarem os recursos para contratar melhores jogadores, quem não os acompanhar corre o risco de perder competitividade, receitas e até ser rebaixado.
Por isso, é simplista afirmar que os clubes deveriam apenas ter poupado ou destinado de outra forma o dinheiro recebido das bets. Poderiam, no entanto, ter aproveitado esse ciclo para aumentar seu próprio valor, investindo em marca, estrutura e relacionamento com seus torcedores, tornando-se mais atraentes para os próximos patrocinadores.
Essa questão ganha relevância porque as receitas comerciais tendem a ocupar espaço crescente nas finanças dos clubes. Broadcasting encontra limites na quantidade de conteúdo e horários disponíveis; matchday, na capacidade dos estádios e no preço que o torcedor aceita pagar. Já o commercial oferece mais possibilidades de criação de novas propriedades e receitas.
O avanço das receitas comerciais é uma tendência nos dois mercados. 
Isso não significa, porém, que elas virão sempre dos mesmos setores. Vale observar que, mesmo antes da entrada mais agressiva das bets, a participação percentual das receitas comerciais no futebol brasileiro já se aproximava da observada na Premier League. As apostas aceleraram esse crescimento e elevaram os valores envolvidos, mas não criaram a relevância dessa fonte de receita.
O risco advindo de uma eventual proibição está na velocidade do ajuste: receitas podem diminuir rapidamente; contratos e salários, não.
Diante disso, não creio que a solução passe por uma proibição abrupta neste momento, tampouco por restrições igualmente abruptas. Ambas merecem ser estudadas e, caso implementadas, deveriam contemplar prazos razoáveis de transição.
O que não faz sentido é afirmar peremptoriamente que as bets são o “sustento do esporte”.
Elas não criaram sua audiência, sua paixão, seus ídolos ou sua capacidade de engajamento. Investiram porque encontraram no esporte uma poderosa plataforma para atingir seus objetivos de marketing.
Antes delas vieram outros setores. Depois delas, outros virão.



terça-feira, 15 de setembro de 2026

O outro US Open

Terminada mais uma edição do US Open, não faltam inspirações para a redação de artigos. Além das excelentes partidas, há uma série de imagens associadas ao torneio: as quadras azuis, o Arthur Ashe Stadium lotado, as grandes marcas e os principais tenistas do mundo.
Diante de tantas possibilidades, escolhi uma que permite explorar alguns conceitos interessantes de marketing: um copo com uma bebida rosada e três pequenas bolas verdes.
Trata-se do Honey Deuce, drink criado para a Grey Goose que se transformou em um dos símbolos do US Open.
A receita é relativamente simples: vodka Grey Goose, limonada, Chambord - um licor de framboesa - e três bolinhas de melão. O toque especial está justamente nelas. Cortadas com um boleador, lembram pequenas bolas de tênis.
Em 2007, primeiro ano do produto, foram vendidas cerca de 10 mil unidades. Em 2025, chegaram a 738 mil. Desde o lançamento, mais de 3,5 milhões de copos já foram comercializados. 
E o impacto ultrapassou os limites de Flushing Meadows: durante as duas semanas finais do US Open de 2025, as vendas de Grey Goose e Chambord em uma grande rede americana cresceram 243% em relação ao período imediatamente anterior.
Mais interessante do que os números é entender como um bem de consumo passou a fazer parte da experiência de um evento esportivo.
A Grey Goose poderia ter seguido o roteiro tradicional do patrocínio: exposição da marca, hospitalidade, publicidade e ações promocionais. Preferiu criar algo que o público deseja consumir, fotografar, compartilhar e até levar para casa, já que os copos também se tornaram itens colecionáveis.
Deixou, assim, de ser apenas uma marca presente no US Open para se tornar parte dele.
Nesse processo, as três bolinhas de melão têm papel fundamental. Elas criam uma conexão entre um produto sem relação natural com o tênis e a modalidade. E fazem isso sem precisar recorrer ao óbvio. A ligação é criativa, simples e imediatamente compreensível.
O caso também provoca uma reflexão sobre um conceito que ainda influencia muitas decisões de patrocínio: o de que uma marca deve investir prioritariamente em modalidades com as quais tenha associação natural.
Algumas conexões são evidentes. Material esportivo combina com esporte, isotônicos com atividade física e automóveis com automobilismo. 
Todavia, restringir o patrocínio a essas relações significa abrir mão de inúmeras oportunidades, especialmente para marcas de bens de consumo.
Afinal, bancos não jogam futebol. Empresas de tecnologia não disputam maratonas. Companhias aéreas não entram em campo. E bebidas alcoólicas não jogam tênis.
Mais importante do que perguntar qual esporte combina com determinada marca é descobrir como ela pode ganhar relevância em um universo frequentado por seu público-alvo.
É aí que o patrocínio deixa de ser apenas compra de exposição e passa a ser marketing de verdade: entender o público, criar experiências e construir associações que antes não existiam.
No marketing, boas conexões não precisam nascer prontas. Podem ser construídas.
Até mesmo com três bolinhas de melão.






terça-feira, 8 de setembro de 2026

Marcas esportivas no futebol - 2026-2027

Quando um clube anuncia um novo fornecedor de material esportivo, a discussão normalmente se concentra no desenho da camisa, no valor do contrato ou na expectativa de vendas. Mas existe uma disputa muito mais ampla por trás desses acordos.
Fornecer material esportivo é muito mais do que colocar uma logomarca sobre a camisa. Dependendo do contrato, a relação pode envolver royalties, luvas, verbas de marketing e bônus por desempenho. Por isso, esses acordos precisam ser vistos também como instrumentos de posicionamento, branding e construção de valor.
É sob essa perspectiva que a 13ª edição do estudo da Jambo Sport Business sobre as marcas esportivas nas 20 ligas mais valiosas do mundo traz alguns sinais interessantes.
Foram analisados 384 clubes e 71 marcas, sendo que 47 equipes mudaram de fornecedor em relação à temporada anterior.
A principal constatação é a consolidação da liderança da Adidas. A marca alemã chegou a 90 clubes, contra 60 da Nike. A diferença, que era de apenas um time em 2022-23, alcançou 32 na temporada passada e agora recuou ligeiramente para 30. A Nike, portanto, dá sinais de reação, já que ganhou cinco equipes, contra três da Adidas.
Quantidade, porém, não conta toda a história.
Nos Estados Unidos e na China, os contratos são negociados pelas próprias ligas. Quando MLS (Major League Soccer) e CSL (Chinese Super League) são retiradas da análise, a vantagem da Adidas cai substancialmente, embora a marca permaneça na liderança. Nesse recorte, a Puma se aproxima da Nike.
Outro dado relevante aparece quando observamos os clubes de maior poder econômico.
Adidas, Nike e Puma representam juntas 48,7% dos clubes da amostra, mas, entre os 30 times de maior faturamento, essa participação chega a 76,7%. A Adidas veste 12 desses clubes, a Nike sete e a Puma quatro.
Os números revelam um mercado de duas velocidades: bastante concentrado no topo e muito mais pulverizado no restante da indústria.
Nesse segundo grupo, marcas menos globais encontram espaço para avançar. A Hummel, por exemplo, atingiu nesta temporada seu melhor resultado histórico e, considerando apenas as cinco principais ligas europeias, passou de cinco para nove equipes, alcançando a quarta posição.
Na América do Sul, o cenário é ainda mais fragmentado. Apenas 28,6% dos clubes são vestidos por Adidas, Nike ou Puma. Argentina, Brasil e Colômbia reúnem 70 equipes atendidas por 33 marcas diferentes.
No Brasil, chama atenção o reduzido protagonismo das marcas nacionais: 18 clubes utilizam fornecedores estrangeiros e apenas dois vestem uma marca brasileira, ambos atendidos pela Volt.
Merece atenção o recuo das marcas próprias. Entre as 20 ligas pesquisadas, apenas o Estudiantes de La Plata mantém atualmente esse modelo.
Mais do que indicar quem ganhou ou perdeu clubes, os números no estudo ajudam a entender as diferentes estratégias adotadas pelas marcas, pois, por trás dessa disputa existem decisões sobre segmentação, posicionamento, distribuição, rentabilidade e construção de marca.
Por isso, acompanhar quem veste quem é tão interessante. Quando olhamos para os uniformes, estamos observando também como elas escolhem competir no futebol.




terça-feira, 1 de setembro de 2026

Juros: o vilão preferido

Frequentemente, o noticiário tem nos brindado com matérias, para muitos surpreendentes, sobre novos pedidos de recuperação judicial no Brasil.
Em 2024 foram 2.273 pedidos, recorde da série histórica da Serasa Experian e crescimento de 61,8% em relação ao ano anterior. Em 2025, considerando a nova metodologia da instituição, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em processos de recuperação.
Em boa parte dos casos, sobretudo no varejo, um personagem aparece invariavelmente entre os responsáveis pela crise: a elevada taxa de juros.
Não há dúvida de que os juros têm peso relevante. Dinheiro caro aumenta as despesas financeiras, dificulta a rolagem das dívidas, encarece o capital de giro e ainda afeta o consumo, especialmente em categorias dependentes de crédito.
Mas será que explicam tudo?
Se a taxa de juros fosse a principal responsável pelas recuperações judiciais, seria razoável esperar que empresas submetidas às mesmas condições econômicas apresentassem desempenhos relativamente semelhantes. Não é o que acontece.
Em 2024, justamente quando o país registrou recorde de pedidos de recuperação judicial, as vendas do varejo brasileiro cresceram 4,7%. No ano seguinte, avançaram mais 1,6%, completando nove anos consecutivos de crescimento.
Até segmentos particularmente sensíveis ao crédito apresentaram expansão. Móveis e eletrodomésticos, por exemplo, registraram alta de 4,5% em 2025.
As diferenças aparecem também quando observamos as empresas individualmente. O Magazine Luiza, evidentemente impactado pela Selic, conseguiu atravessar o período recuperando rentabilidade e fortalecendo sua posição de caixa. A Renner encerrou 2025 com crescimento de 9,2% na receita líquida do varejo e melhora de margem. 
Enquanto isso, outras companhias chegaram à recuperação judicial.
Mesma Selic. Resultados opostos.
Empresas raramente chegam a essa situação de uma hora para outra. Em muitos casos existe uma combinação anterior de elevada alavancagem, expansão mal planejada, margens comprimidas, estoques inadequados, problemas de capital de giro, aquisições malsucedidas, governança deficiente ou estratégias que simplesmente deixaram de funcionar.
Quando o dinheiro está barato, essas fragilidades podem permanecer escondidas. Quando os juros sobem, tornam-se evidentes.
Uma empresa com dívida incompatível com sua geração de caixa ou com uma operação incapaz de sustentar o negócio vai se fragilizando ao longo do tempo. 
Nesse cenário, a elevação dos juros não necessariamente cria o problema, mas o agrava, reduzindo ainda mais a capacidade de refinanciamento.
Isso não diminui o impacto real de juros elevados sobre as empresas brasileiras. O equívoco está em transformá-los em explicação universal para situações que começaram bem antes do aperto monetário.
Juros altos não atingem todas as empresas da mesma forma porque elas não chegam ao período de juros altos nas mesmas condições. Algumas carregam balanços mais sólidos, operações eficientes e maior capacidade de adaptação. Outras entram no ciclo já fragilizadas.
No fim, os juros podem ser o gatilho que torna a crise visível. Mas, em muitos casos, a pólvora já estava armazenada dentro da empresa havia bastante tempo.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O escudo vende. E a marca?

A Nike, fornecedora de material esportivo do Corinthians, notificou recentemente o clube em busca de esclarecimentos sobre o patrocínio da Fatal Fans, plataforma de conteúdo adulto que havia estampado sua marca no uniforme da equipe.
O episódio pode ser interpretado apenas como uma questão contratual, já que o acordo prevê a possibilidade de veto a patrocinadores de determinadas categorias. Mas revela algo mais interessante: para a Nike, importa quem está ao seu lado na camisa.
É uma constatação positiva, pois reforça a ideia de que os uniformes não são meros suportes de mídia, nos quais empresas compram espaços publicitários de forma independente. Existe ali um ecossistema de marcas. A fornecedora observa quem aparece ao seu lado, o patrocinador avalia as demais empresas associadas ao clube e todas, de alguma forma, emprestam reputação umas às outras.
Essa questão leva a outra discussão: qual é a importância da marca da fornecedora para o torcedor?
Quando alguém compra a camisa do seu clube, o  que ele está comprando? As cores, o modelo, o orgulho pelo momento do time, a demonstração de pertencimento, a grife esportiva ou um pouco de tudo isso?
Estudos sobre comportamento do consumidor mostram que marcas fortes aumentam a percepção de valor e a disposição a pagar. 
Isso, porém, está longe de significar que trocar uma fornecedora por outra necessariamente aumentará as vendas.
O elemento central da camisa continua sendo o clube. E outros fatores podem ser ainda mais determinantes: performance esportiva, títulos, grandes contratações e, sobretudo, disponibilidade. Uma camisa desejada que não está disponível no tamanho, no momento e no lugar em que o torcedor quer comprá-la simplesmente não vira venda.
Comprovar essa relação de causalidade é ainda mais difícil. Os contratos entre clubes e fornecedores costumam ser confidenciais e os números divulgados, quando existem, se referem ao sell-in, a venda para os canais de distribuição, e não ao sell-out, a compra pelo consumidor final. Uma grande remessa ao varejo pode gerar um ótimo sell-in e terminar em estoques elevados e giro ruim.
Nike, Adidas e Puma, por exemplo, carregam reputação, alcance internacional e associações construídas ao longo de décadas. Vestir uma dessas marcas pode contribuir para o posicionamento do clube e até torná-lo mais atraente para potenciais patrocinadores. Não chega a ser co-branding no sentido tradicional, mas a lógica se aproxima: as marcas passam a compartilhar o mesmo espaço e, consequentemente, parte de suas reputações.
O caso Corinthians é revelador justamente por isso. A Nike se manifestou porque tinha algo a preservar.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Lakers, SAFs e o preço do risco

O controle do Los Angeles Lakers acaba de mudar novamente de mãos. Pouco mais de um ano depois de ter sido negociado por uma avaliação próxima a US$ 10 bilhões, um novo acordo avalia a franquia em cerca  US$ 12,5 bilhões.
O número provoca uma pergunta: por que investidores aceitam pagar múltiplos tão elevados por franquias esportivas americanas enquanto SAFs brasileiras são negociadas por valores proporcionalmente muito menores?
A resposta diz mais sobre como o mercado define valor do que sobre o tamanho do cheque. 
Imagine três organizações esportivas: uma franquia americana, um grande clube europeu e uma SAF brasileira com exatamente o mesmo faturamento. Ainda assim, seus valuations tendem a ser radicalmente diferentes.
Isso porque o mercado não precifica apenas a receita existente. Precifica também previsibilidade, escassez, risco e liquidez.
Quem compra uma franquia da NBA adquire participação em um sistema econômico bastante protegido. Não há rebaixamento, o faturamento com broadcasting têm maior previsibilidade, existem mecanismos de compartilhamento de receitas, controle de custos e o número de franquias disponíveis é extremamente limitado.
O investidor, portanto, não compra apenas um time. Compra uma vaga em um sistema econômico fechado e deliberadamente escasso,
Isso não significa ausência de risco operacional, visto que uma franquia pode ser mal administrada. A diferença é que uma temporada esportivamente ruim dificilmente ameaça a própria plataforma econômica do negócio.
Já no futebol europeu, a relação entre desempenho esportivo e resultado financeiro é mais conectada. Classificar ou não para a Champions League pode alterar significativamente as receitas advindas de matchday, broadcasting e patrocínios. Para clubes menores, então, um rebaixamento pode modificar completamente a estrutura econômica da operação.
No Brasil, esse risco se multiplica.
Além da enorme pressão pelo desempenho dentro de campo, o investidor de uma SAF convive com receitas menores, maior dependência da negociação de atletas, volatilidade cambial, endividamento histórico, deficiências de infraestrutura e modelos de governança ainda não muito maduros.
Por isso, muitas SAFs se parecem mais com investimentos de private equity focados em turnaround do que com ativos cuja valorização decorre principalmente da melhoria contínua da operação.
E aqui surge uma diferença fundamental: o comprador de uma franquia americana paga caro por uma previsibilidade que já existe. O comprador de uma SAF paga menos porque boa parte do valor futuro ainda precisa ser criada por ele próprio.
Há ainda outro fator raramente mencionado nessa comparação: a tributação.
Nos Estados Unidos, dependendo da estrutura da aquisição, uma parcela do valor pago por uma franquia esportiva pode ser atribuída a diferentes ativos, como direitos relacionados aos jogadores, marca e outros intangíveis. Essa alocação pode permitir amortizações para fins fiscais, em alguns casos ao longo de 15 anos.
O resultado é uma situação interessante: a franquia pode continuar se valorizando enquanto parte do investimento feito em sua aquisição gera deduções fiscais ao longo dos anos, reduzindo os impostos pagos pelo investidor.
Esse benefício não encontra equivalente na aquisição de um clube europeu ou de uma SAF brasileira.
Considerados todos esses fatores, chegamos a uma conclusão que pode parecer paradoxal: um ativo esportivo mais caro não é, necessariamente, um ativo mais arriscado.
Da mesma forma, o múltiplo menor de uma SAF não significa que ela esteja barata. Pode simplesmente refletir o desconto exigido pelo mercado diante dos riscos envolvidos.
Previsibilidade, no fim das contas, também tem preço.




terça-feira, 11 de agosto de 2026

A Caixa é POP. O marketing, ausente

Com toda a pompa e circunstância, o Comitê Olímpico do Brasil anunciou a Caixa Econômica Federal como a primeira empresa do seu Programa Olímpico de Patrocínio.
Na essência, trata-se de um contrato clássico de patrocínio: exposição do Time Brasil, ativações em eventos, uso de atletas e propriedades do COB e presença em mídia.
A “inovação”? Parte relevante do investimento será redistribuída às confederações.
Em termos comerciais, o que resumidamente se volta à captação de recursos, podemos considerar a iniciativa como boa, já no que tange ao marketing, nem tanto.
O primeiro problema é conceitual. Falta clareza sobre o mais básico: por que essa marca?
Quais atributos da Caixa justificam a associação? Como isso se conecta ao posicionamento do COB? E, principalmente, como essa relação constrói valor simbólico alinhado a propósito, imagem e valores ao longo do tempo?
Sem respostas a esses questionamentos, a iniciativa afasta-se da essência do marketing e se consolida como mera angariação de fundos.
A redistribuição de recursos resolve o caixa no curto prazo, mas flerta perigosamente com o assistencialismo. E assistencialismo, em marketing, costuma ser o oposto de estratégia.
Embora o COB defina quem pode receber, a decisão final sobre onde investir é da Caixa. Do ponto de vista do investidor, faz sentido. Do ponto de vista das confederações, é um contrassenso, afinal, até que ponto há sinergia estratégica entre as partes?
Onde está a lógica de posicionamento nessa escolha?
Patrocínio não pode ser apenas dinheiro entrando. Deve ser construção conjunta de valor.
Claro que verbas maiores, se bem utilizadas, têm o poder de melhorar as modalidades, reforçando atributos ligados ao desempenho e, consequentemente, aumentando a atratividade das respectivas confederações, porém, basear posicionamento em performance é mais um erro primário, porque performance não se controla. Depender de medalha, ou de qualquer outra variável objetiva incontrolável para gerar valor de marca é tão frágil quanto sustentar posicionamento em liderança de mercado.
No fim, o que se vê com frequência é o esporte sendo tratado como mídia.
Exposição. Ativação. Presença digital. E pronto.
O COB e as confederações parecem satisfeitos em trocar a construção de um legado simbólico por entregas quantitativas de curto prazo.
Confederações viram plataformas de entrega. Marcas viram compradoras de espaço. E o marketing… segue sem ser entendido.
E talvez esse seja o ponto central.
O problema está longe de ser exclusivo do esporte. Em muitas organizações, marketing ainda é confundido com comunicação, exposição, ativação ou, simplesmente, geração de receitas.
Esse tipo de iniciativa não nasce de estratégia, nasce da ausência de uma liderança que compreenda o que marketing realmente é.
Sem essa visão, decisões passam a ser guiadas por métricas de exposição, volume de investimento e pressão comercial. 
Para a Caixa, há um ganho potencial relevante: posicionar-se como apoiadora do sistema olímpico, e não apenas como patrocinadora pontual.
Mas o risco é claro, transformar uma oportunidade estratégica em uma simples operação de compra de mídia disfarçada.
É o triunfo do comercial sobre a estratégia, do tático sobre o propósito. É, resumidamente, o marketing feito por quem acredita que o sucesso de uma marca se mede apenas pelas receitas de curto prazo, e não pela força da sua identidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Torcer ou pertencer?


Enquanto grande parte do futebol moderno parece obcecada por títulos, cifras e resultados imediatos, o SC Freiburg mostra que talvez exista algo mais valioso do que vencer: pertencer.
Sem grandes conquistas internacionais e distante do poder econômico dos gigantes europeus, o clube alemão tornou-se um raro exemplo de coerência. 
E talvez, ainda que de maneira quase inconsciente, o Freiburg nos ofereça uma das melhores reflexões possíveis sobre o que o marketing realmente pode proporcionar.
Porque marketing, em sua essência, nunca deveria ser apenas geração de receita, exposição ou crescimento comercial. Seu papel mais poderoso é construir significado. Fazer com que pessoas sintam que pertencem a algo maior do que uma simples relação de consumo.
Numa versão moderna da famosa frase de Pierre de Coubertin, para o torcedor do Freiburg o importante não é vencer, é pertencer. O clube representa valores locais, ambientais e comunitários que ultrapassam o campo.
Essa cultura se reflete até na estabilidade dos jogadores e comissão técnica. O atual técnico Julian Schuster passou mais de uma década como jogador do clube. Durante toda sua trajetória em campo, trabalhou com apenas dois treinadores. Do time titular, apenas dois jogadores não têm pelo menos cinco anos de clube. 
Claro que o contexto ajuda. A cidade de Freiburg é conhecida pela qualidade de vida, pelo clima ensolarado, pela beleza natural da Floresta Negra e por um ambiente mais humano e menos caótico do que os grandes centros urbanos.
Mas reduzir o fenômeno apenas à cidade seria simplista.
O que diferencia o Freiburg é a capacidade de transformar valores em identidade coletiva. O clube não vende apenas seu futebol, mas também a possibilidade de pertencimento.
E isso leva inevitavelmente a uma reflexão sobre o Brasil.
Os torcedores brasileiros amam seus clubes ou os amam desde que eles vençam?
Não é raro vermos torcedores cancelando planos de associação, camisas sendo queimadas e serviços de pay-per-view suspensos após derrotas importantes. Sim, a paixão produz excessos. Mas talvez aí exista uma diferença importante entre paixão e amor/pertencimento.
Porque pertencimento não depende exclusivamente do placar.
Voltemos ao marketing: por que esse comportamento não se repete por aqui?
As cidades são maiores? As cidades costumam ter mais do que um time. Sim, mas, independentemente dessas características, é fato que faltam identidades claras.
Poucos clubes conseguem traduzir valores sólidos, coerentes e reconhecíveis a ponto de fazer o torcedor sentir orgulho não apenas da vitória, mas daquilo que o clube representa.
Aqui entramos novamente no conceito de posicionamento, palavra amplamente utilizada por profissionais de marketing que, muitas vezes, pouco entendem seu significado real.
Claro que vencer importa. Sempre importará.
Mas a vitória incontestável e perene, é ser torcedor de uma instituição cujos valores privilegiem a ética e o respeito independentemente da posição na tabela de classificação.






terça-feira, 28 de julho de 2026

O Varejo além do Marketing

Poucas frases traduzem tão bem minha visão quanto a de Philip Kotler: "O marketing não só deve fazer parte da estratégia de qualquer empresa, como deve ser o seu centro."
Continuo acreditando nisso, porém, o varejo me ensinou uma das maiores lições sobre marketing: existem momentos em que ele não é a área mais importante da empresa.
Pode parecer contraditório. No entanto, é exatamente essa aparente contradição que ajuda a explicar por que algumas organizações conseguem construir vantagens competitivas tão difíceis de copiar.
Ao contrário da indústria, onde o marketing participa da concepção do produto, da embalagem e muitas vezes até da definição do portfólio, no varejo o produto já chega pronto. Nesse ambiente, duas áreas passam a exercer um papel decisivo: Compras e Operações.
Compras é responsável por definir o sortimento, negociar preços, prazos e volumes. É ali que boa parte das margens é construída e que o posicionamento comercial começa a ganhar forma. Uma estrutura eficiente garante disponibilidade de produtos, reduz rupturas e melhora significativamente a rentabilidade do negócio.
Operações, por sua vez, transforma estratégia em realidade. É quem faz a reposição acontecer, organiza o layout, executa o merchandising, lidera as equipes e garante que a experiência prometida ao consumidor efetivamente aconteça. Da limpeza da loja à agilidade no checkout e quase tudo aquilo que o cliente percebe passa, direta ou indiretamente, pela qualidade da execução.
Em outras palavras, Compras molda grande parte da estratégia comercial, enquanto Operações entrega a promessa.
Nesse contexto, o Marketing assume um papel diferente daquele que normalmente exerce na indústria. Muitas vezes deixa de liderar o desenvolvimento da oferta para concentrar-se em comunicação, ativação, programas de fidelidade, mídias digitais e construção de marca.
Embora redes voltadas ao segmento mais premium utilizem o Marketing como um pilar de diferenciação, grande parte do setor vive uma batalha diária de preços. E, como sabemos, competir apenas por preço é um jogo muito perigoso, que raramente gera fidelidade genuína. Daí a importância de trabalhar outros atributos de valor que sejam mais difíceis de replicar pela concorrência.
Para ilustrar esse raciocínio, vale observar o caso da rede norte-americana Publix. 
Fundada em 1930 e com forte presença no sudeste dos Estados Unidos, a empresa nunca buscou ser a maior, a mais barata ou a mais tecnológica. Seu objetivo sempre foi ser a mais confiável. Sob o slogan “Where Shopping is a Pleasure” (“Onde fazer compras é um prazer”), a Publix dedica atenção quase obsessiva à limpeza das lojas, ao atendimento e à eficiência da reposição.
Essa excelência operacional, contudo, não nasce apenas de manuais ou processos. Ela é sustentada por um modelo de gestão raro: o Employee Ownership, no qual os funcionários são também acionistas.
Hoje, cerca de 80% das ações da Publix pertencem aos colaboradores, enquanto os 20% restantes permanecem com a família fundadora.
Com executivos formados internamente, esse modelo fortalece a cultura organizacional, amplia o comprometimento das equipes e cria um padrão de hospitalidade extremamente difícil de ser reproduzido. 
A combinação entre cultura, disciplina operacional e crescimento consistente transformou a Publix na quinta maior rede de supermercados dos Estados Unidos com mais de 1.400 lojas e cerca de 260 mil colaboradores-acionistas. 
A empresa mantém participação de mercado entre 4% e 5,5%, faturamento anual próximo de US$ 60 bilhões e uma margem EBITDA de 9,7% - mais que o dobro da registrada pelo Walmart, que gira em torno de 4,4%.
O sucesso da Publix nos mostra que, no varejo, o Marketing de sucesso não é aquele que apenas comunica bem, mas aquele capaz de traduzir a excelência de Compras e Operações em uma promessa de valor autêntica, onde o 'prazer em comprar' deixa de ser um slogan publicitário e se transforma em um ativo difícil de ser superado.
O mais interessante, porém, é que a principal vantagem competitiva da Publix não está em um programa de Marketing. Ela está em um modelo de gestão que permite ao Marketing comunicar uma promessa de valor autêntica que Compras e Operações conseguem cumprir.
Campanhas criam expectativa. Marcas constroem percepção. Mas nenhuma comunicação é capaz de sustentar, por muito tempo, uma promessa que a organização não consiga entregar.


terça-feira, 21 de julho de 2026

Passaporte esportivo

A Copa do Mundo de 2026, além do ineditismo no número de seleções participantes, trouxe um fenômeno cada vez mais presente no esporte internacional: atletas defendendo países diferentes daqueles onde nasceram. Seja por herança familiar, processos migratórios, colonização histórica ou naturalização, as fronteiras esportivas tornaram-se mais fluidas. Curaçao, por exemplo, contou com apenas um jogador nascido em seu próprio território.
Mas esse movimento está longe de ser exclusivo do futebol. Diversas modalidades convivem com situações semelhantes.
No caso brasileiro, um exemplo recente ocorreu nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano-Cortina 2026, quando o país conquistou uma inédita medalha de ouro com Lucas Pinheiro Braathen. Nascido em Oslo, filho de mãe brasileira e pai norueguês, Lucas representou a Noruega até 2024, quando decidiu se afastar das competições em função da política referente a patrocínio adotada em seu país de origem.
O modelo norueguês, reconhecidamente rígido, limita a exploração de patrocínios individuais para evitar conflitos com os parceiros institucionais do comitê nacional. O episódio abre espaço para uma discussão relevante sobre dois temas centrais do esporte contemporâneo: 
  1. O conflito entre patrocínios individuais e modelos coletivos de financiamento; 
  2. Os limites éticos, técnicos e simbólicos das mudanças de nacionalidade no alto rendimento.
À primeira vista, pode parecer injusto restringir a capacidade de um atleta gerar receitas próprias. No entanto, é importante reconhecer que o sucesso esportivo raramente é fruto apenas do talento individual. Ele resulta de uma estrutura complexa de formação, governança, ciência e infraestrutura que exige investimentos contínuos e de longo prazo.
É inegável que um marketing bem estruturado propicia às marcas associarem-se aos valores intrínsecos das modalidades que apoiam, ainda que as vitórias representem a face mais visível das métricas de Retorno sobre Investimento (ROI). Todavia, quando os recursos se concentram apenas nos vencedores, negligenciando a base e o desenvolvimento estrutural das modalidades, cria-se um desequilíbrio que compromete a sustentabilidade do sistema. Sob esse ponto de vista, a postura restritiva de determinadas entidades passa a ser até compreensível.
Já no campo da nacionalidade esportiva, os desafios são ainda mais delicados. Além de enfraquecer o princípio da representatividade nacional, amplia-se o peso do poder financeiro sobre os resultados esportivos.
Embora a presença dos melhores atletas eleve o nível técnico das competições, a identidade esportiva nacional perde força quando processos de naturalização ocorrem sem critérios claros de identidade, pertencimento, vínculo cultural ou formação esportiva local.
Casos envolvendo mesatenistas chineses, fundistas quenianos e atletas oriundos de outras potências esportivas competindo por países com os quais mantêm vínculos limitados tornaram-se cada vez mais frequentes. É verdade que essa importação de talentos pode acelerar o desenvolvimento de determinadas modalidades nos países de destino. Por outro lado, também reduz oportunidades para atletas locais e pode comprometer a construção de uma identidade esportiva genuína.
A situação se torna ainda mais delicada quando um mesmo atleta representa diferentes nações ao longo da carreira guiado por conveniências regulatórias ou financeiras.
Mesmo que a gestão de patrocínios e critérios de elegibilidade seja prerrogativa soberana de cada país, a excessiva liberalidade de alguns pode transformá-los em meros destinos financeiros para atletas de alto nível, esvaziando o conceito de desenvolvimento esportivo nacional.
Diante disso, torna-se fundamental estabelecer limites claros para essas “transferências” internacionais. O caminho mais coerente passa pela definição de uma espécie de Fair Play Financeiro, no qual indicadores referentes ao investimento efetivo em suas estruturas de base, formação, e governança sejam variáveis que regulem a “importação” de talentos, principalmente, os já consolidados.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Da Levi's às listras: Histórias dos uniformes

Ao observarmos os uniformes das seleções da Copa do Mundo de 2026, é difícil imaginar que, até a edição de 1970, nenhuma equipe exibia a logo de seu fornecedor de material esportivo.
Foi apenas em 1974 que as marcas começaram a aparecer nos uniformes, ainda de forma tímida e cercadas de situações que hoje seriam impensáveis. A campeã Alemanha Ocidental, por exemplo, utilizou uniformes produzidos pela Erima sem exibir sua marca, enquanto os agasalhos estampavam a logo da Adidas. Já a Austrália vestiu uniformes fabricados pela Adidas, mas com a marca da Umbro, patrocinadora da federação.
Na mesma Copa surgiu outro episódio histórico. A Holanda, patrocinada pela Adidas, entrou em conflito com Johan Cruyff, que possuía contrato individual com a Puma. Como solução, sua camisa foi produzida com apenas duas listras nas mangas, em vez das três tradicionais da Adidas, tornando-se um dos casos mais icônicos de conflito entre patrocinadores na história do esporte.
A Copa de 1978 também reservou uma curiosidade histórica: a presença da Levi's, mundialmente associada ao mercado de jeans, como fornecedora da seleção mexicana, evidenciando um cenário ainda pouco estruturado sob a ótica do fornecimento esportivo.
Em 1982, a brasileira Penalty forneceu material esportivo para a seleção peruana. Em 1986, foi a vez da Rainha estrear com o Paraguai.
Na Copa de 1990, chamou atenção a participação da Rapido, marca sul-coreana pertencente à divisão esportiva da Samsung. Curiosamente, até a edição anterior, a empresa ainda operava sob o nome Weekend.
A década de 1990 também marcou a chegada de novos protagonistas. Em 1994, a Umbro estreou vestindo o Brasil campeão do mundo, enquanto a Reebok fez sua primeira aparição com a seleção da Rússia. Quatro anos depois, a Nike debutou no torneio e já igualou a Adidas em número de seleções patrocinadas.
Em 2002, a espanhola Joma fez sua estreia. A edição também ficou marcada pela primeira vez em que a Itália exibiu a marca de seu fornecedor, a Kappa, ainda de forma discreta, posicionada apenas na manga. Já em 2006, a Puma alcançou um feito inédito ao superar Adidas e Nike em quantidade de seleções patrocinadas. Na mesma edição, conquistou seu único título mundial até hoje com a Itália.
As Copas seguintes continuaram ampliando a diversidade de fornecedores. A Legea e a Brooks estrearam em 2010, a New Balance em 2018 e, em 2022, foi a vez da One All Sports, de Singapura, e da iraniana Majid. Vale relatar que em 2014, a Nike alcançou pela primeira vez a liderança isolada em número de seleções patrocinadas, consolidando seu crescimento dentro do principal evento do futebol mundial.
Ao longo de pouco mais de cinco décadas, os fornecedores deixaram de ser meros fabricantes para se tornarem protagonistas de uma disputa global por visibilidade, posicionamento e valor de marca. A evolução dos uniformes das Copas ajuda a contar também a história da transformação do marketing esportivo.




terça-feira, 7 de julho de 2026

A Copa na Era do Trade Marketing

 
A Copa do Mundo tem proporcionado diversas situações que evidenciam o grau de desenvolvimento alcançado pela indústria do esporte. Uma das mais interessantes é a evolução da comercialização das placas publicitárias que circundam o gramado. Trata-se de um excelente exemplo de como o marketing no esporte vem incorporando conceitos e métricas que já transformaram outros setores da economia.
Ao observarmos que a marca Aramco costuma ser a que aparece nas placas de LED no momento em que as partidas se iniciam, é possível inferir que o valor desse ativo não está relacionado apenas à frequência de exposição ou à localização física da publicidade ao redor do campo. O momento em que a marca aparece também parece ter adquirido relevância comercial.
Esse nível de sofisticação contrasta com o que ocorria no passado. Durante décadas, a avaliação do retorno de uma propriedade publicitária baseava-se quase exclusivamente no tempo de exposição. Quanto mais segundos uma marca permanecesse visível, maior seria o seu valor. Hoje, porém, a tecnologia permite uma análise muito mais detalhada.
É possível medir, por exemplo, se a marca apareceu integralmente ou apenas parcialmente, se estava em foco ou desfocada, quantos pixels ocupou na tela, quanto tempo permaneceu visível, se apareceu durante um replay, comemorações de gol ou em momentos decisivos da partida. Também se consegue identificar se marcas concorrentes estavam simultaneamente presentes na imagem.
O conceito por trás dessa evolução não é exclusivo do esporte. Na verdade, ele já é amplamente utilizado no varejo há décadas.
Fabricantes de bens de consumo frequentemente pagam valores adicionais para conquistar espaços privilegiados dentro dos supermercados. A altura dos olhos do consumidor costuma ser considerada a posição mais valiosa da gôndola. Da mesma forma, a quantidade de frentes, ou seja, o número de produtos visíveis simultaneamente, influencia diretamente as vendas. Há ainda ativos premium como pontas de gôndola, ilhas promocionais, espaços próximos aos caixas e destaque em encartes, aplicativos e programas de relacionamento.
A lógica econômica nos direciona à conclusão de que quem controla um canal valioso de acesso ao consumidor consegue monetizar a atenção.
Sob essa perspectiva, uma gôndola de supermercado, uma plataforma digital, um aeroporto, um estádio ou uma transmissão esportiva possuem algo em comum: todos funcionam como canais de distribuição de atenção, um dos ativos mais valiosos da economia.
Diversos estudos de varejo mostram que uma simples mudança de posicionamento pode aumentar significativamente o giro de um produto. Não por acaso, os supermercados combinam diferentes fontes de receita relacionadas à exposição, incluindo margens comerciais sobre os produtos, verbas promocionais, bonificações por volume e pagamentos específicos por espaços privilegiados.
O que estamos vendo nas placas da Copa do Mundo é, em essência, a aplicação desse mesmo raciocínio no ambiente esportivo. 
Mais do que vender espaço, a indústria do esporte passou a vender atenção qualificada. E, como ocorre em qualquer mercado maduro, quanto maior a capacidade de medir esse ativo, maior tende a ser sua monetização. Afinal, no marketing, a disputa não acontece apenas por espaço, mas pela capacidade de ser visto, lembrado e, principalmente, escolhido.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Conspiração ou inspiração?

No passado, era comum a comparação entre transpiração e inspiração para diferenciar aqueles que alcançavam resultados principalmente pelo esforço daqueles que se destacavam pelo talento. Evidentemente, as duas características não são excludentes. Pelo contrário, quando caminham juntas, costumam produzir os melhores resultados.
Hoje, porém, parece que a inspiração ganhou uma nova concorrente: a conspiração.
Impulsionadas pelas redes sociais e, muitas vezes, pela preguiça, ou incapacidade, de pesquisar antes de emitir opiniões, teorias conspiratórias passaram a ocupar um espaço cada vez maior no debate público.
A Covid foi criada por interesses econômicos. A vacina faz mal. A Terra é plana. E a lista segue.
Com a Copa do Mundo dominando o noticiário e as redes sociais, milhares de conteúdos são produzidos diariamente e, entre eles, encontramos bons exemplos das duas situações descritas no título.
Talvez o caso mais emblemático da categoria "conspiração" seja a de que o jogador Endrick não seria titular da Seleção Brasileira por não ser patrocinado pela mesma marca esportiva da CBF, a Nike.
Os fatos, porém, contam uma história diferente. Dos 26 convocados para a Copa, treze são patrocinados pela Nike, nove pela Adidas, três pela Puma e apenas um pela New Balance, o Endrick.
Mais interessante ainda é observar que a equipe que iniciou a partida de estreia contra Marrocos tinha seis jogadores patrocinados pela Adidas e cinco pela Nike. Pela lógica dos adeptos da teoria, o time titular deveria ser composto integralmente por atletas da Nike. E isso sem mencionar Neymar, patrocinado pela Puma, cuja convocação foi amplamente debatida.
É claro que as marcas preferem ver seus atletas em evidência. Todavia entre ter uma seleção campeã utilizando seus uniformes e ter alguns jogadores titulares em uma equipe derrotada, não há espaço para dúvidas.
Mas se a Copa oferece exemplos de conspiração, ela também proporciona excelentes casos de inspiração.
Recentemente recebi um vídeo brilhante sobre a situação do estádio que possui naming rights da Levi's, mas teve diversas sinalizações da marca temporariamente cobertas para evitar caracterização de marketing de emboscada durante a competição.
A autora, de maneira didática e extremamente clara, apresentou três conceitos que ajudam muito mais a entender o fato do que qualquer teoria conspiratória.
  • O primeiro é a Gestalt, teoria da psicologia segundo a qual nossa mente não precisa receber todas as informações para reconhecer um padrão. Com base em experiências e memórias já armazenadas, conseguimos identificar objetos, marcas e símbolos mesmo quando aparecem parcialmente ocultos.
  • O segundo é o conceito de ativos distintivos de marca (distinctive brand assets). São elementos que permitem o reconhecimento imediato de uma marca mesmo quando seu nome ou logotipo não estão presentes. O swoosh da Nike e as três listras da Adidas são exemplos clássicos.
  • O terceiro é o chamado Efeito Streisand. O fenômeno ocorre quando uma tentativa de esconder uma informação acaba produzindo exatamente o efeito contrário: o aumento de sua visibilidade. O termo surgiu em 2003, quando a atriz Barbra Streisand tentou impedir a divulgação de uma fotografia aérea de sua residência. A ação judicial atraiu enorme atenção da mídia e fez com que milhões de pessoas passassem a ver justamente a imagem que antes quase ninguém conhecia.
Enquanto as teorias conspiratórias costumam oferecer respostas simples para fenômenos complexos, a inspiração nos convida a fazer algo mais difícil e mais valioso: compreender os mecanismos que realmente explicam o comportamento das pessoas, das marcas e dos mercados.




terça-feira, 23 de junho de 2026

Pausa para...Reflexão

Uma das novidades da Copa do Mundo de 2026 foi a introdução da pausa para hidratação, o chamado cooling break, justificada pela necessidade de amenizar os efeitos do calor sobre os atletas.
É verdade que nem todas as partidas são disputadas sob temperaturas extremas. Ainda assim, em nome da isonomia competitiva, parece razoável que a regra seja aplicada de forma uniforme.
Não há dúvida de que a preservação da saúde dos atletas deve prevalecer sobre qualquer outro argumento. A propósito, vale a reflexão sobre competições disputadas em condições de altitude severa, que colocam em risco a integridade física dos atletas das equipes visitantes e criam desequilíbrios técnicos.
A evolução do esporte, seja em termos de segurança, desempenho ou espetáculo, é parte fundamental do desenvolvimento da indústria esportiva. Mas ela não acontece isoladamente. Para financiar estruturas cada vez mais complexas e remunerações crescentes, o esporte precisa gerar receitas. E essas receitas dependem, em grande medida, de audiência, transmissão, patrocínios e marketing.
Ao longo da história, diversas modalidades promoveram mudanças relevantes sem alterar sua essência.
Até o fim dos anos 1990, por exemplo, uma partida de voleibol tinha duração altamente imprevisível. A adoção do sistema de pontuação por rally point tornou os jogos mais compreensíveis para o público e mais adequados à programação televisiva.
O tênis de mesa reduziu a quantidade de pontos por game em busca de maior dinamismo. O tênis incorporou o tie-break até mesmo nos Grand Slams. O judô simplificou sua estrutura de pontuação para facilitar o entendimento dos espectadores.
Todas essas mudanças tinham justificativas esportivas legítimas. Mas seria ingenuidade acreditar que os interesses comerciais não exerceram influência sobre elas.
E não se trata apenas de tornar o produto mais atraente. Trata-se também de criar oportunidades de exposição para patrocinadores e emissoras.
A NBA talvez seja o exemplo mais evidente. Além dos pedidos de tempo das equipes, a transmissão aproveita faltas, lances livres e outras interrupções naturais para inserir publicidade. O resultado é um produto altamente adaptado à televisão: uma partida com 48 minutos de tempo regulamentar frequentemente ultrapassa duas horas de duração.
A NFL segue lógica semelhante. Timeouts, revisões de vídeo e o two-minute warning, uma interrupção automática nos dois minutos finais do segundo e do quarto períodos, funcionam não apenas como elementos estratégicos, mas também como valiosas janelas comerciais. Um jogo com 60 minutos de tempo oficial costuma durar mais de três horas.
É nesse contexto que surge a discussão sobre a pausa para hidratação no futebol.
Os críticos argumentam que ela altera a dinâmica do jogo ao permitir que os treinadores transmitam instruções aos atletas. Particularmente, vejo esse aspecto como uma virtude e não como um problema. A pausa cria espaço para ajustes táticos e valoriza uma dimensão estratégica já presente em outras modalidades esportivas.
Além disso, é difícil ignorar a necessidade crescente de geração de receitas no futebol. Os custos aumentam, os salários atingem patamares cada vez mais elevados e a pressão por investimentos é permanente. Entretanto, diferentemente de outras modalidades, o futebol continua operando com um inventário comercial relativamente limitado.
Talvez por isso tantas discussões sobre mudanças de regras acabem surgindo. Nem sempre por razões exclusivamente esportivas, mas também pela busca de novas formas de monetização.
A questão central é que nenhuma modalidade permanece estática. O esporte evolui, adapta-se e responde às transformações da sociedade e do mercado.






terça-feira, 16 de junho de 2026

Iguais em rosa

O colorido dos uniformes das seleções na Copa do Mundo ganhou a companhia de um item que, no passado, era marcado pela sobriedade: as chuteiras.
O que mais chama a atenção, porém, não é a explosão de cores em si, mas a coincidência das escolhas feitas pelas principais marcas esportivas. Adidas, Nike, Puma, Skechers e New Balance decidiram lançar suas principais coleções para o torneio tendo a cor rosa como o elemento em comum.
A situação chama atenção porque contraria um dos princípios mais básicos do marketing: a diferenciação. É ela que orienta o posicionamento das marcas, justifica investimentos em produtos e direciona decisões estratégicas. 
A escolha do rosa, evidentemente, não foi aleatória. Nos estádios, nas transmissões televisivas e, principalmente, nos vídeos curtos que dominam o consumo de conteúdo digital, uma chuteira dessa cor captura o olhar de forma quase instantânea. Numa sociedade em que atenção se tornou o ativo mais escasso, essa competência de gerar destaque tem expressivo valor. 
Naturalmente, cada empresa procurou construir sua própria narrativa. A Adidas apresentou a coleção “Road to Glory”, associando o produto à jornada rumo ao maior evento do futebol. A Nike lançou a campanha “Quebrar o Roteiro”, conectando inovação técnica e referências culturais.
As histórias são diferentes. As tecnologias podem variar. Mas, quando o jogo começa, é a semelhança que salta aos olhos.
Em marketing, existe um fenômeno chamado isomorfismo competitivo, que vem a ser a tendência de organizações de um mesmo setor convergirem para práticas, formatos e até escolhas estéticas semelhantes.
O mecanismo é relativamente simples. As empresas se apoiam em pesquisas de mercado, estudos de comportamento do consumidor e ferramentas de monitoramento de tendências. Diante dos mesmos dados e dos mesmos sinais de mercado, identificam as mesmas oportunidades. Neste caso, a potência visual do rosa.
Não surpreende, portanto, que cheguem às mesmas conclusões.
Mais do que uma coincidência estética, o fenômeno revela algo estrutural sobre o marketing. Se por um lado os recursos analíticos estão  cada vez mais sofisticados e disponíveis, por outro, estão também mais semelhantes. Quando todos observam os mesmos dados, aumenta a probabilidade de que todos encontrem as mesmas respostas.
O resultado é que o torcedor que acompanha uma partida da Copa do Mundo não vê uma única marca ousando apostar no rosa. Ele vê um gramado repleto de chuteiras rosas.
É exatamente o paradoxo que a teoria do posicionamento já antecipava: diferenciação só existe em relação a algo. Quando todos adotam o mesmo atributo diferenciador, ele simplesmente deixa de diferenciar.
Em marketing, a competição não se restringe às gôndolas, ou no caso, ao campo. Ela acontece na mente do consumidor.
A questão, portanto, vai além de se destacar visualmente durante a Copa do Mundo. É sobre construir uma razão genuína para ser escolhido num cenário em que todos entregam qualidade, todos investem em tecnologia e todos contam histórias inspiradoras. Quando tudo se equivale, o que decide a escolha raramente é racional.
Por isso, diferenciação não é ser diferente. É ser percebido como diferente e essa percepção se constrói muito antes do momento da compra. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

Uniformes da Copa - 2026

O estudo produzido pela Jambo Sport Business sobre as marcas de material esportivo que vestirão as seleções participantes da Copa do Mundo de 2026 oferece uma leitura particularmente rica sob a ótica do marketing. Mais do que um retrato do momento atual, o material resgata a evolução dessas relações desde 1974, quando os uniformes passaram a exibir as logos dos fornecedores, permitindo uma análise consistente de como essas parcerias se desenvolveram ao longo do tempo.
Na Copa do Mundo existe uma disputa paralela e altamente estratégica, travada pelas marcas de material esportivo. E, ao observar o comportamento dessas empresas ao longo das edições, um ponto se torna evidente: fornecer uniformes vai muito além de visibilidade. Trata-se de uma poderosa alavanca de posicionamento, distribuição e construção de valor de marca em escala global.
Olhando para o cenário atual, a edição de 2026 marca um novo patamar. Serão 48 seleções e 13 marcas fornecedoras, um recorde que reflete a expansão do torneio e, ao mesmo tempo, a maior fragmentação do mercado. Ainda assim, o protagonismo permanece concentrado. A Adidas segue como a marca mais presente, com forte capilaridade global e liderança em regiões estratégicas. A Nike aparece logo atrás, consolidada como principal concorrente, especialmente no futebol europeu. Já a Puma mantém sua relevância, com destaque para o continente africano, onde lidera em número de seleções patrocinadas.
Essa concentração não é aleatória. O estudo evidencia que o valor de um contrato não está apenas na quantidade de seleções atendidas, mas principalmente na qualidade desses ativos. Seleções com alcance global, histórico vencedor e forte apelo comercial são as mais disputadas e, consequentemente, as que entregam maior retorno em termos de marca. É esse fator que ajuda a explicar por que Adidas e Nike continuam dominando tanto em presença como em percepção.
Ao mesmo tempo, a natureza dessa disputa evoluiu. Se antes o jogo era majoritariamente sobre exposição, hoje ele é também sobre narrativa. A Nike, por exemplo, vem conectando o futebol à cultura e ao lifestyle, como no uso da Jordan Brand nos uniformes da seleção brasileira. Já a Adidas aposta no resgate de elementos históricos, como o Trefoil, ativando memória afetiva e ampliando o apelo de moda. Em outras palavras, não se trata mais apenas de vestir seleções, mas de ocupar territórios culturais.
Quando olhamos pelo retrovisor, o contraste é significativo e, em certa medida, curioso. Até 1970, nenhuma marca aparecia nos uniformes. Em 1974, os logos começam a surgir de forma mais consistente. E apenas em 2006 todas as seleções passaram a exibir seus fornecedores. Nesse intervalo, o mercado ainda pouco estruturado produziu situações hoje impensáveis: seleções campeãs sem marca visível, empresas fora do universo esportivo fornecendo uniformes e até jogadores recusando o design oficial.
Talvez o dado mais relevante, no entanto, seja a consistência. Ao longo de todo o período analisado, a Adidas construiu uma liderança sólida, mesmo após a entrada da Nike em 1998. Até hoje, a marca alemã segue como referência quando o tema é presença e tradição em Copas do Mundo.
Isso não significa estabilidade. Pelo contrário. O mercado se tornou mais competitivo, mais fragmentado e, sobretudo, mais estratégico. Movimentos recentes, como a troca de fornecedores por seleções historicamente associadas a determinadas marcas, reforçam que essa disputa está longe de se acomodar.
Para quem quiser se aprofundar, o estudo completo traz uma série de análises e insights adicionais que valem a leitura. Basta acessar pelo link: https://www.linkedin.com/posts/halfen_as-sele%C3%A7%C3%B5es-e-suas-marcas-esportivas-nas-activity-7457783735778856960-7skb?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAACD-eABK0DvJGc4PVDfwKxXTT_RQjZkKo4