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terça-feira, 15 de julho de 2025

Enhanced Games...ou Ashamed

Alguém já ouviu falar dos Enhanced Games? Provavelmente poucos, mas em breve o evento se tornará mais popular e com direito a extensos debates calorosos.
Numa tradução livre, “enhanced” se refere a algo “aprimorado”, expressão que no meu modo de ver, seria descabida para o evento, uma competição, na qual se permite o uso de quaisquer substâncias que venham a melhorar a performance dos participantes, ou seja, além de eventuais equipamentos proibidos nas demais competições, o doping estará liberado.
Os defensores da iniciativa alegam se tratar de uma forma de valorizar a ciência e a tecnologia, afinal, trabalham, segundo eles, a melhoria humana. Alguns chegam a fazer uma analogia à Fórmula 1, alegando que os avanços automobilísticos têm parte de sua origem nessa competição.
Aqui, já poderíamos rechaçar o argumento ressaltando que estamos lidando com vidas humanas e não com máquinas, o que poderia receber como tréplica o discurso de que o esporte de alto rendimento também traz problemas.
Adiciona-se aos argumentos pró-dopagem, a tão propagada liberdade individual que, nesse caso, proporcionaria o direito à decisão sobre os recursos a serem utilizados nas competições. Ignoram que o caráter individual jamais pode se sobrepor ao da coletividade, a qual, por sua vez, é ditada por determinações regulatória.
Veladamente, também dão a entender que a possibilidade de falha nos controles antidopagem deixaria mais justa a “liberação” das substâncias e demais subterfúgios tecnológicos. Seria algo, guardando as devidas proporções, como liberar assaltos e assassinatos, já que a polícia não consegue pegar todos os criminosos.
E, tão grave quanto, não consideram que o acesso a tecnologias será sempre desigual.
Por mais que eu me esforce para tentar entender alguns argumentos dos defensores dessa iniciativa, não há como não se posicionar contra, visto que ela contraria os princípios éticos que fazem parte da essência do esporte.
Pelo ponto de vista do marketing, também encontramos posições antagônicas. Enquanto uns defenderão que se trata de uma excelente oportunidade para as marcas que desejam se associar à inovação e tecnologia, outros sustentarão, e com razão, que as marcas devem focar no ser humano para serem admiradas - vide Kotler em seu livro Marketing 3.0.
Embora a "boa performance" seja, de fato, um atributo de alto cunho aspiracional, a forma como ela é atingida pode trazer severos danos à imagem das marcas que venham a tolerar e/ou mesmo pactuar com práticas cristalizadas como maléficas no meio esportivo. Ilustra essa condição, os contratos de patrocínio, nos quais tais atitudes são passíveis de rescisões automáticas.
Ainda sob a ótica de marketing, vale destacar o aspecto da segmentação, salutar para processos de extensão de linhas e de marcas de produtos, pois passa a atender públicos com necessidades específicas e que poderia servir para justificar tais competições como alternativa ao convencional, afinal, no próprio esporte encontramos esse processo no que tange a gêneros e até em faixas etárias nas competições de cunho participativo. 
Todavia, há que se tomar cuidado para que uma grande quantidade de opções não venha causar incômodos ao potencial consumidor, dito isso, concluo que até sob o prisma de marketing, os Enhanced Games nada têm a agregar ao esporte, já repleto de conteúdo e, infelizmente, de pessoas que não o entendem em sua plenitude.



terça-feira, 3 de abril de 2018

Analisando o patrocínio

O atletismo nacional sofrerá um forte baque com o fim da equipe B3 -  ex-BM&F Bovespa -  por onde competiram grandes nomes da modalidade no Brasil. Esse patrocínio foi responsável por dar condições para vários atletas treinarem, competirem em altíssimo nível e até conquistarem medalhas olímpicas. A situação traz consequências ainda mais graves pelo fato de não existirem muitas equipes estruturadas nesse esporte.
Fazendo uma analogia com o futebol brasileiro, seria algo mais ou menos como a decretação do fim da quase totalidade dos times que jogam a Série A, diminuindo assim a oferta de vagas, sendo que nesse caso ainda haveria a possibilidade de alguns jogadores se transferirem para o exterior. Situação que seria mais difícil no atletismo tanto em função das características dos campeonatos – não costuma haver competições importantes entre clubes – quanto pelo nível técnico dos atletas dessa modalidade, afinal o Brasil não chega a ser uma potência nesse esporte.
A empresa B3 em sua nota oficial relatou que o fim se deveu a uma mudança na estratégia de investimentos, pois pretende dar um foco maior à educação. Nada a contestar, é um direito e uma razão bastante nobre.
Contudo, valem ser abordados alguns pontos que auxiliam a reflexão sobre o fato.
O primeiro diz respeito ao argumento “direcionar recursos para atividades vinculadas à educação”, o qual pode denotar que o esporte de alto rendimento não atende a essas expectativas. Pode até ser que realmente não atenda, mas seria importante entender quais foram as expectativas geradas e avaliar o que deveria ser feito para atendê-las, de preferência antes do fim da relação. 
Ainda concernente à consolidação do esporte como um agente de educação, vemos que as empresas ainda pouco exploram a possibilidade de o patrocínio servir como um meio de posicionamento da organização, de forma que ela possa ser  percebida como uma instituição atenta à promoção da sustentabilidade do planeta e à melhoria de vida dos mais pobres, condições essas inerentes ao esporte e que vão ao encontro dos conceitos do marketing 3.0 preconizado por Kotler e já abordado aqui.
Por fim, não podemos deixar de considerar as especulações a respeito de que a troca do presidente da B3 teve forte influência na decisão tomada, o que é bem factível, afinal de contas muitos dos patrocínios que existem ou existiram no Brasil aconteceram em função da predileção dos principais gestores pela atividade patrocinada, o que não significa que os aspectos relacionados ao marketing tenham sido desprezados.
Exemplifica bem esse tipo de relação os investimentos que a Brasil Telecom e o Pão de Açúcar fizeram no esporte, os quais foram facilitados pela visão e  proximidade de seus gestores com a atividade, valendo ressaltar que independentemente disso as iniciativas implementadas eram totalmente fundamentadas nos mais rígidos princípios de marketing.
Todavia, o grande problema desse tipo de “motivação” para investir é que o risco de rompimento aumenta com a troca de comando, pois por mais embasados que sejam os projetos de patrocínio, sempre haverá internamente contestações advindas de outras áreas, seja por uma questão de crença na maior efetividade de outros investimentos, seja por miopia.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Debate sobre os atletas transgêneros

A Superliga de vôlei feminino 2017/18 apresentou uma novidade que pode fazer com que a modalidade assuma uma posição de protagonismo na história do esporte brasileiro. Refiro-me à inclusão da atleta Tiffany Abreu, que nasceu sob o gênero masculino, mas que através de tratamentos se transformou numa mulher e como tal disputa a competição. Apesar de o seu caso ser o mais comentado, vale citar que no vôlei de praia no Brasil há outra jogadora nas mesmas condições, assim como em outras modalidades ao redor do mundo.
Como era de se esperar, os debates sobre o tema vão se tornando cada vez mais frequentes e interessantes, pois envolvem estudos científicos, opiniões de esportistas e, de nossa parte, reflexões que envolvam os aspectos mercadológicos e operacionais.
Pelo lado dos que defendem a permanência da atleta no esporte de alto de rendimento, temos o endosso da medicina através dos critérios aceitos pelas entidades que regem o esporte.
Deve ser descartada também qualquer tipo de suspeição em relação à intenção de a jogadora ter feito a transformação com o intuito de auferir vantagem no esporte, afinal não parece ser razoável supor que alguém esteja disposto a sofrer os mais diversos tipos de discriminação, exposição e riscos para tão pouco.
Quero também dizer que, apesar do bom nível técnico da atleta, não vejo uma situação de desequilíbrio inconteste por sua presença nas quadras.
Todavia, ainda diante dos argumentos discorridos a favor da jogadora, tendo a ser contra a sua participação, o que se deve a uma única razão: o fato de a atleta ter chegado à estrutura e à altura que tem por ter nascido e crescido sob a influência de hormônios masculinos. Claro que existem mulheres até mais altas e mais fortes, essas, porém, chegaram à estrutura que têm de forma, digamos, natural.
O problema nesse caso é a possibilidade de no futuro haver toda uma preparação para o surgimento de atletas trans com tamanha vantagem em relação às mulheres, que essas venham a desaparecer das competições.
Ressalve-se aqui que tal raciocínio se aplica ao voleibol e demais modalidades nas quais uma estrutura maior auxilia no desempenho.
Como solução para o imbróglio foi ventilada a hipótese da adoção de cotas nos times, só não entendi se nesse caso a proposta contempla a extinção das competições segmentadas por gêneros ou se trata da simples inclusão de um número definido de pessoas nessa condição em uma equipe. De antemão acho bem complicada a operacionalização desse regime, além do que, pode abrir espaço para pleitos de inclusão através de cotas para outros tipos de minorias além das relacionadas ao gênero.
A possibilidade de inclusão de mais categorias segmentadas por gênero - não nos esqueçamos das pessoas que nasceram sob o gênero feminino e se transformaram em homens – pode até ser avaliada, mas não acredito que haja espaço, tampouco um número significativo de atletas nessas condições, para que no curto prazo sejam organizadas competições capazes de despertar o interesse do público, dos patrocinadores e da mídia, até porque está cada vez mais difícil atrair um grau razoável de atenção do público, em função de o mercado vir disponibilizando cada vez mais conteúdos - não apenas de cunho esportivo - enquanto o dia permanece com 24 horas.
Sei que pode parecer duro proibir alguém de atuar em esportes de alto rendimento pelo simples fato de ter buscado uma forma de se sentir feliz. Contudo, a abertura do precedente nesse caso deixaria o esporte  vulnerável a novos tipos de artifícios para se auferir vantagens, o que aumentaria o risco de descaracterizar essa atividade já tão infestada por subterfúgios relacionados ao doping e à corrupção.
Por fim cabem dois esclarecimentos: (i) independentemente de a minha opinião divergir do regulamento atual, defendo o cumprimento do mesmo enquanto estiver em vigor; (ii) minhas desculpas por eventuais erros de nomenclatura sobre gêneros, eles são frutos de minha ignorância.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O amador e o doping


Como já foi abordada no artigo “Esporte de participação” - http://halfen-mktsport.blogspot.com.br/2011/08/esporte-de-participacao.html - essa manifestação do esporte se caracteriza pela prática voluntária e "compreende as modalidades esportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente". 
A definição por si só é bem clara e não deveria dar margem a interpretações diversas, principalmente no que tange aos aspectos relacionados à promoção da saúde e da educação, entretanto, infelizmente, não é o que vem acontecendo.
O que temos visto é um número cada vez maior de pessoas que, ao praticarem de forma frequente uma dada modalidade, não se conformam com os resultados obtidos e apelam para o uso de substancias proibidas nocivas à saúde e benéficas às performances no curto prazo.
Agindo dessa forma, esses participantes amadores – me recuso a considerá-los atletas – fazem um desserviço ao esporte, pois, além de descaracterizar os  valores da atividade - saúde, educação, superação, integridade, etc. -, vão aos poucos afastando das competições os potenciais patrocinadores que têm por objetivo a associação de suas marcas aos princípios nobres do esporte.
Fato que pode num horizonte não muito distante fazer com que a quantidade de competições diminua, afinal o patrocínio é fundamental para a viabilização dos eventos. 
E o mais grave disso tudo é que a busca pelo "destaque" não se resume às competições, mas também aos treinamentos, pois, através de aplicativos é facultada a possibilidade de se comparar desempenhos.
Vale notar aqui um fato curioso: enquanto os bons atletas costumam esconder seus bons tempos para surpreender os adversários nas competições, os mais limitados fazem questão de divulgá-los. Vai entender...
Difícil realmente entender, visto que tais sujeitos nem podem dar como explicação a busca de uma qualificação para os Jogos Olímpicos, tampouco algum retorno financeiro, mesmo porque tais motivações não justificam práticas desonestas.
Assim, a explicação mais razoável para tal fenômeno está ligada à falta de princípios dos usuários dessas drogas para aumento de performance, o que nos permite supor que  não restrinjam essas ações apenas à esfera esportiva, ainda que sejam críticos dos políticos pegos em operações desonestas.
O esporte amador é na verdade apenas o terreno mais oportuno para colocarem em prática seus desvios de personalidade graças a certeza da impunidade e à facilidade para a utilização das "substâncias",
Pena que tenham descoberto o esporte para extravasar seus recalques mas que não tenham descoberto que as vitórias e os resultados saborosos são aqueles obtidos através de disciplina, treinamento e honestidade.
Finalizando fica a dúvida do que pode ser feito para a extinção do uso do doping por amadores. Não sei responder e aceito sugestões, ressaltando que muitas das vezes uma boa educação é incapaz de corrigir ou incutir caráter e ética a quem não possui.

Caráter firme é aquele que pode prescindir de êxitos - RALPH WANDO EMERSON


terça-feira, 2 de maio de 2017

A anistia compensa?

A volta da tenista Maria Sharapova às quadras no torneio de Stuttgart provocou uma série de críticas por parte de algumas rivais, inconformadas com o fato de a russa não possuir a pontuação necessária para participar de um torneio daquela expressão.
O convite a atletas para participar de torneios (wild card) costuma ser uma prática usual, no entanto, os convidado geralmente iniciam suas participações nos primeiros dias da competição. No caso de Sharapova, sua estreia ocorreu mais tarde para que não conflitasse com o período da suspensão que lhe foi imposta por doping.
Discutir esse assunto é um exercício enriquecedor para os que gostam de gestão e de esporte, pois, tanto o organizador do torneio como as jogadoras insatisfeitas possuem razão, dependendo, é claro, do ângulo com que o tema é analisado.
Se olharmos pelo prisma meramente esportivo, teremos as jogadoras cobertas de razão, afinal de contas, uma rival obteve um benefício após cometer uma falta gravíssima, ainda que tenha pago por ela.
Já se focarmos os aspectos relacionados ao business, a decisão tomada parece acertada, visto ter aumentado o nível técnico e a atratividade do torneio. Para corroborar na argumentação em relação à importância do retorno do investimento nesse tipo de iniciativa, vale lembrar que o detentor do title sponsor da competição, a Porsche, é uma das patrocinadoras de Sharapova.
Se quisermos ser mais abrangentes na análise, iremos deduzir que as próprias jogadoras que “reclamaram” são também de alguma forma beneficiadas. 
Explico: para ser compensador dedicar uma vida ao esporte é fundamental que existam competições que lhe tragam visibilidade – o que rende patrocínios - e boas premiações. Tais condições são satisfeitas na medida em que haja patrocinadores e assim se instaure um círculo virtuoso, que inclui mídia, empresas, e fãs, entre outros, como partes.
Dessa forma, a presença da tenista russa, mesmo contemplando a hipótese de ela vencer e ficar com a maior parte da premiação, é interessante para as demais, por mais paradoxal que possa parecer num primeiro momento.
Em outras palavras, sua força em termos de atratividade para as empresas investirem na modalidade é tão grande que, de todo o montante que ela arrecadou em sua carreira até o momento, cerca de apenas 10% é advindo de premiação, enquanto que o restante é obtido através de contratos de patrocínio.
Indo numa vertente mais extrema, cabe argumentar que a ausência dela abriria espaço para que outras tenistas “herdassem” seus patrocínios. Um cenário até possível, mas com grandes chances de não se concretizar, pois as empresas bem estruturadas em termos de marketing escolhem seus patrocinados em função da sinergia que esses apresentam em relação aos valores que pretendem associar as suas marcas, ou seja, uma eventual substituição pode dirigir a verba para outras modalidades esportivas, tipos de patrocínio ou até para outros setores da economia.
Que fique claro que os valores acima citados não podem ser resumidos à plástica da jogadora, aos seus resultados ou qualquer outra característica de forma isolada. A escolha, quando feita de forma responsável, leva em conta um conjunto de atributos.
Continuando na busca por justificativas para se tentar condenar a volta da tenista, resta apelar para os aspectos relativos à isonomia de condições entre competidores, o que, em tese, confere mais seriedade às disputas. 
Creio que não haja discordância nesse aspecto, o que nos permite fazer mais uma provocação: será que eventuais benevolências em relação aos princípios esportivos não podem vir a afastar patrocinadores e fãs da atividade?
A resposta para esse questionamento passa mandatoriamente pela definição do percentual que representa o entretenimento/negócios no composto que rege uma competição esportiva, pois quanto maior esse for, menor será a preocupação com o esporte propriamente dito.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A punição aos inocentes


Mais uma vez o doping servirá como tema para o artigo, agora em função da punição imposta à equipe russa de atletismo, suspensa das competições por prazo indeterminado, o que coloca em risco sua participação nos Jogos Olímpicos de 2016.
Não creio que haja espaço aqui para a discussão sobre a culpa da federação e das autoridades do estado russo no episódio. Digo isso por desconhecer os autos do processo, o que deixaria minha opinião sob esse prisma, digamos, irresponsável, já que viria sem o embasamento adequado.
Entretanto, não me furtarei a comentar o peso da punição, que colocou no mesmo “barco” os atletas inocentes e os desleais.
Apesar de ser contra qualquer espécie de generalização, entendo que muitas vezes essa pode ser necessária, tanto pela dificuldade em se aplicar medidas individuais, como também pela complexidade que é segmentar determinada amostra.
O que não é o caso da situação que estamos analisando, já que o atletismo, por ser um esporte individual, permite que a punição seja na mesma ordem. Acho que até as provas de revezamento poderiam obedecer esse raciocínio, pois no caso de um atleta cometer algum ato ilegal, esse receberia não só a punição da desclassificação do revezamento como também as sanções individuais pela infração cometida.
Punir inocentes quando se tem a possibilidade de pegar apenas os culpados não é justo.
Se ponham no lugar de um atleta russo, que se dedica a vida inteira a treinar, que não usa substâncias ilícitas e que, de uma hora para outra, vê seu sonho de uma medalha olímpica terminar porque outros se dopam com a suposta conivência da sua federação.
Alguns poderão argumentar que isso aconteceu com muitos atletas na época dos boicotes aos Jogos de Moscou e Los Angeles. É verdade, porém naquelas situações não era possível a “individualização da decisão”.
O argumento de que a suspensão tem como objetivo ser uma medida exemplar também não me convence, mesmo sendo eu um contumaz crítico do doping. Penso que mais exemplar – e justo – seria a eliminação pura e simples de quem for pego, sem espaço para compaixão, atenuantes e demais artifícios de defesa.
Infelizmente não é o que tem acontecido. Peguemos o caso do velocista norte-americano Justin Gatlin, medalhista de ouro olímpico nos 100 rasos em Atenas, que por duas vezes foi pego no doping, e ainda hoje corre – nesse ano conquistou a medalha de prata no Mundial de Tokyo. 
Ainda sobre velocistas, não custa lembrar que nos Jogos de 2000 em Sydney, um dos integrantes do time dos EUA no revezamento 4x100, Tim Montgomey, foi flagrado e punido pelo uso esteroides anabolizantes, porém a equipe que ficou em 2º lugar, o Brasil, não herdou a medalha.
Penso que a federação russa ou qualquer outra que tenha sua responsabilidade provada nos casos de doping, deveria ser punida com pesadas multas, além de ser obrigada a promover medidas educativas mostrando que resultados obtidos sob a influência do doping não têm nada de meritório, muito pelo contrário, trata-se de um ato criminoso, que ganha ainda maior gravidade quando respinga em inocentes.
Pelo ponto de vista do marketing, também considero a punição extremamente severa, pois os patrocinadores de atletas russos “limpos” não terão como rescindir seus contratos, já que provavelmente não existem cláusulas de rescisão por doping de terceiros. Ou seja, terão que continuar arcando com a remuneração dos atletas, sem que estes participem de competições e, o pior, fazendo parte uma lista de "suspeitos criminosos”.
Diante disso fica a dúvida: Será que vão continuar acreditando no esporte ou nessa modalidade como ferramenta de marketing?

PS: O título desse artigo bem poderia ser aplicado às vítimas do covarde atentado ocorrido em Paris...



terça-feira, 18 de agosto de 2015

Quem sabe no carnaval?


O noticiário na época de carnaval costuma repercutir extensas discussões sobre os corpos das musas e rainhas das escolas de samba. 
Além do quesito beleza, polêmicas sobre a maneira com que os corpos chegam naquele padrão geram conteúdo para extensas reportagens com as próprias protagonistas e com os "especialistas" afins ao tema.
Nas últimas edições as polêmicas giraram em torno da aplicação de silicone e outras substâncias sintéticas nas nádegas e pernas das modelos, as quais negaram veementemente mesmo diante do parecer dos cirurgiões plásticos consultados e das críticas.
Nos anos anteriores, os corpos “definidos” também receberam críticas, porém com alegações mais ligadas à masculinização e/ou ao suposto uso de esteróides anabolizantes, prática que, pelo que parece, está sendo até mais tolerada por parte da opinião pública.
Ah, como sempre, a grande maioria também negou tal artifício.

Todas essas observações servem de introdução para discutirmos um problema gravíssimo no esporte, o uso do doping.
Isso porque, a postura dos que se dopam costuma ser bem similar à das musas, aproveitam a repercussão do sucesso e negam todas as acusações, ou pior, citam que usaram o "produto" sem intenção ou sem saber que continha substâncias proibidas.
A diferença se dá em relação aos exames, já que as "modelos" não são submetidas a testes, ao contrário dos atletas, se é que assim podem ser chamados.
Mesmo assim alguns conseguem se esquivar dos mecanismos de detecção e passam incólumes aos controles, graças a "sorte", sofisticação das drogas ou pouco rigor nos testes.
Ou seja, é possível se dopar, ser vencedor, usufruir dos benefícios e nada acontecer, assim como as musas dos anabolizantes, cujos prêmios surgem na forma de contratos em função da maior popularidade e espaço na mídia.


Diante desses fatos, tenho refletido bastante sobre como ficaria o esporte se o doping fosse liberado e fizesse com que o "atleta" passasse a ser uma espécie de cobaia ou protótipo para, digamos, o desenvolvimento e aprimoramento da raça humano.
Se ele, mesmo consciente dos riscos que corre, optar pelo caminho do doping, pelo menos não o estaria fazendo de forma oculta.
Creio que dessa forma as competições poderiam ser mais justas e talvez até mais atrativas, pois o público não se sentiria enganado ao acompanhar, torcer e consumir aquele esporte, tampouco o patrocinador ficaria receoso de associar sua marca a modalidades com “fama ruim”, nem a competidores que enganem seus fãs e usufruam de premiações de forma desonesta.

Evidentemente, discordo veementemente de toda essa argumentação, visto que a mesma não contempla os princípios básicos do esporte nem os riscos de sua continuidade, afinal de contas, poucos pais se sentirão encorajados a colocar seus filhos para praticar atividades desportivas sabendo que essas, evoluindo para o alto rendimento, poderão levá-los ao mundo das drogas, mesmo que não sejam as sociais.
Acho, no entanto, que o paralelo abordado serve para reforçar que o esporte não é uma atividade apenas de celebração, pois envolve valores nobres e que qualquer ato de desonestidade fere os princípios que fazem da atividade uma ferramenta de fomento social e educacional.

Dessa forma, sugiro aos que não se importam com os meios que usarão para serem destaques em alguma atividade que atraia holofotes, mídia e dinheiro, que direcionem sua carreira para algo em que o uso de qualquer substância “discutível” não traga maiores transtornos ao público, patrocinadores e organizadores. Quem sabe o carnaval?










terça-feira, 28 de abril de 2015

Diga não ao doping


Os leitores mais assíduos já devem ter percebido que o blog nunca teve artigos que colocassem o MMA como foco, porém dessa vez será aberta uma exceção para refletirmos sobre o suposto doping do lutador Anderson Silva, um tema que tem tomado bastante espaço na imprensa.
Trata-se da possibilidade do lutador disputar as classificatórias brasileiras de tae-kwon-do em busca de uma vaga na seleção olímpica da modalidade.
Uma intenção, sem dúvida, inquestionável, porém não sei até que ponto dentro da legalidade.

Levanto esse ponto, pois penso que, caso ele efetivamente tenha usado substâncias ilícitas em dada modalidade esportiva e punido pelo ato, essa punição deveria se estender para as demais.
Sei que é uma medida que num primeiro momento pode parecer muito severa e antipática, mas não podemos deixar que o uso do doping seja minimizado por questões relacionadas a patriotismo ou coisas do gênero. 
O doping deve ser sempre combatido da forma mais rígida possível, sob o risco do esporte perder sua identidade e se afastar dos princípios nobres que o norteiam.

Imaginem um atleta que dispute mais de uma modalidade olímpica e que tenha sido pego numa delas. Isso lhe daria o direito de competir na outra?
Penso que não!
E antes que achem que ser atleta olímpico de mais de uma modalidade é uma situação hipotética, esclareço que, apesar de rara, é uma situação real, entre as quais valem ser citados:

  • O australiano Peter Macken que competiu no pentatlo moderno nas edições de 1960, 1964, 1968, 1972 e 1976, sendo que em 1968 também representou seu país na esgrima.
  • Outro caso interessante é o da americana Sheila Taormina, que nos Jogos de 1996 integrou a equipe de natação de seu país, nos de 2000 e 2004 disputou as provas de triathlon e em 2008 foi atleta de pentatlo moderno.
  • No Brasil, João Gonçalves Filho representou o Brasil na natação em 1952 e 1956, enquanto que em 1960, 1964 e 1968 foi da equipe de polo aquático.
Eventuais argumentos de que o MMA não é uma modalidade olímpica ou que o controle de dopagem é feito por uma comissão não signatária da WADA (Agência Mundial de Antidoping) não se sustentam no meu modo de ver, a menos que não almeje se tornar um esporte olímpico, ou mais, que não se trata de um esporte
Aí talvez haja negociação, mas não creio que tal classificação seja benéfica para a modalidade.

Já pelo lado do marketing, acho que o movimento da Confederação Brasileira de Tae-kwon-do é interessante, pois consegue atrair a atenção da mídia num momento crucial para a obtenção de recursos.
No entanto, se for muito mais adiante nesse “projeto”, estará dando um tiro no próprio pé ao permitir que associem a modalidade com permissividade ao doping.
Quanto ao lutador, creio que a associação ao Olimpismo seja uma estratégia inteligente, pois assim consegue capitalizar um pouco dos valores olímpicos - Amizade, Excelência e Respeito - num momento em que sua imagem está arranhada.
Não quero afirmar com isso, que os movimentos do lutador e da Confederação tenham sido planejados, mas se forem, espero que encontrem uma boa solução para o final do processo, ou seja, que nem a Confederação nem os princípios olímpicos sejam maculados.




terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Mal necessário?

Apesar de reconhecer a existência de situações em que a expressão que serve como título do artigo é perfeitamente aplicável, tendo a me frustrar com a mesma, principalmente quando o esporte é pano de fundo deste cenário. 
Volto assim a um tema que, mesmo intensamente abordado pela mídia está longe de se esgotar, ainda mais quando analisado pelo prisma de marketing: O doping de Lance Armstrong.
Primeiramente vale a reflexão sobre a evolução do ciclismo no âmbito dos negócios, ou seja, qual a abrangência desse esporte em escala mundial? 
Pesquisando sobre o tema iremos constatar que até o surgimento do produto “Lance Armstrong”, esse esporte estava restrito ao continente europeu, não tendo a devida penetração no cobiçado mercado dos EUA.
Este fato assume maior representatividade se considerarmos que, na década de 80, outro ciclista norte-americano, Greg Lemond, obteve expressivos resultados, chegando a vencer o Tour de France em 1986.
Na verdade, mesmo com bons resultados, antes da sequencia de vitórias no Tour de France, Lance Armstrong também não foi capaz de impactar o mercado americano.


Chegamos então ao divisor de águas de sua carreira, a metamorfose que transformou um bom ciclista num atleta invencível.
Um herói forjado, um câncer vencido bem explorado e todo o mercado de ciclismo satisfeito.


Aqui se incluem patrocinadores, organizadores, detentores dos direitos de transmissão, fabricantes, varejistas e, pasmem, até outros ciclistas que, mesmo derrotados, conseguiam melhores contratos em função da maior popularidade do esporte. 
Será que sob o ponto de vista mercadológico seria interessante uma apuração detalhada da suspeita de doping naquela época?

O que mudou, então?
Vários fatores, entre eles: o amadurecimento e a expansão do mercado de ciclismo, o maior rigor e a consciência da opinião pública e, consequentemente, o temor das empresas em estarem associadas ao doping.
O banco holandês Rabobank abandonou a modalidade, os patrocinadores de Lance como Nike, Oakley, Trek e outros rescindiram seus contratos.
Vários outros exemplos poderiam ser explicitados, porém, pouco acrescentariam para o ponto que julgo importante refletir:

“Foram enganados ou não tomaram as devidas medidas preventivas?”

Afinal, não se pode descartar a hipótese, mesmo que vergonhosa, de que a existência de um "herói" pode ser vital para o crescimento de uma modalidade ou evento.
Mal necessário...triste expressão.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A difícil arte de decidir


Aproveitando ainda a punição do ciclista Lance Armostrong, vamos aqui analisar a decisão da Nike em rescindir o contrato do ex-atleta.
O que mais chamou a atenção nesse caso foi que nos escândalos ocorridos com o golfista Tiger Woods, com a corredora Marion Jones, com o jogador de basquete Kobe Bryant e com o jogador de baseball Alex Rodriguez, os contratos continuaram em vigor.
Não cabe aqui discutir o grau de coerência da empresa, pois, além de não ser essa a proposta do blog, cada situação por mais semelhante que possa parecer, abriga diferenças que só quem conhece os contratos e os bastidores das conversas entre as partes têm respaldo suficiente para julgar.
Raciocínio semelhante pode ser aplicado às diversas decisões que são tomadas ao longo da vida.
Foi certo rescindir? Por que não antes? Por que não depois? Por que não rescindiram com os outros? Por que não o investigaram de forma eficaz previamente?
Todos esses questionamentos servirão como argumentação para os que pretendem criticar a decisão tomada.
Aliás, muitos desses questionamentos, se não a totalidade, devem ter sido exaustivamente discutidos pelos executivos da Nike e das empresas por eles contratadas para a gestão de crises.

De qualquer forma, penso que a decisão tomada deva ser aproveitada para mostrar a todos que o doping não compensa, porém com o devido cuidado para que o atleta, mesmo julgado e culpado, não receba sozinho toda a carga do imperdoável erro que cometeu.
Afinal de contas, ele fazia parte de um esquema no qual muitos auferiram vantagens com suas vitórias.

Já para o público em geral vale a reflexão do quão difícil é decidir, pois além das justificativas de defesa e ataque para os atos, ainda há a pressão da opinião pública.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

A casa caiu

Após anos vencendo e sendo questionado pelos resultados obtidos, o “fenômeno” Lance Armstrong chegou ao fim. 
Patrocinadores rescindiram os contratos, títulos foram cassados e processos estão sendo movidos para que os prêmios que recebeu em dinheiro sejam devolvidos. 


Uma das decisões mais interessantes nesse caso partiu da organização do Tour de France, que cassou os 7 títulos do americano mas não os passou para os segundos colocados por entender que o doping nessa época estava tão disseminado, que ficaria difícil garantir que os demais competidores estavam “limpos”. 
Sorte do esporte não ter magistrados para alegarem “falta de provas” diante de tantas evidências. 
Aliás, a meu ver, o ambiente esportivo está dando um belo exemplo de combate à impunidade. 

Por mais admiração que um atleta possa causar em função de seus resultados, devemos ter em mente que a utilização de meios escusos é roubo. 
Quantos atletas deixaram de ser patrocinados porque as empresas preferiram investir no “vencedor”, quantos prêmios pararam nas mãos erradas, quantas modalidades foram ofuscadas por outras que produziram “ídolos forjados”. 

E o mais grave disso tudo, o tempo passou e os que sofreram prejuízos técnicos não terão a chance de serem ressarcidos.
Punem-se os criminosos, mas é impossível consertar todo o estrago causado na cadeia que cerca o objeto do dolo. 
Raciocínio similar pode ser aplicado a outros setores da sociedade, onde ministros, governadores e donos de empreiteiras desviam verbas que poderiam estar indo para a educação da população, combatendo a fome de crianças, dando dignidade e cuidando da saúde dos necessitados.
Na verdade não é tão similar assim, no esporte há mais rigor. 

Voltando ao tema do blog, vejo como bastante positiva a punição ao ciclista, pois além de passar segurança para os patrocinadores quanto ao zelo pelo cumprimento das leis, a medida também serve para referendar que o esporte é um dos principais agentes educativos de formação ao expor situações exemplares para mostrar que o crime não compensa.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Doping e o Marketing

Inicialmente, vale esclarecer que esse artigo não tem a pretensão de discutir os efeitos do doping sobre a saúde dos atletas ou mesmo os aspectos éticos envolvidos na questão, porém, motivado pela recente punição preventiva ao tricampeão do Tour de France, Alberto Contador, imposta pela federação espanhola de ciclismo, resolvi abordar o assunto com o intuito de suscitar a discussão sobre a influência do doping sobre o marketing esportivo.
O questionamento sobre até que ponto o público perde o interesse numa determinada modalidade esportiva com casos de doping, talvez seja a dúvida que mais preocupe os gestores das confederações.
Contudo, a razão da preocupação com o doping parece estar mais ligada ao receio da perda de patrocinadores do que propriamente ao zelo pela boa imagem do esporte.
Alguns desses gestores tentam ao máximo evitar que esse triste tema seja associado a sua modalidade, o que é perfeitamente aceitável, porém a forma para que tal associação não ocorra deve vir através da prevenção, ou seja, ocultar notícias e não aplicar testes são posturas totalmente dispensáveis.

Em busca de algumas respostas, o International Journal of Sports Marketing & Sponsorship publicou uma pesquisa na qual a grande maioria dos entrevistados não relaciona nenhuma espécie de cumplicidade dos patrocinadores e meios de comunicação com os esportes e eventos que tenham casos de doping, sendo veementemente contra a proposta dos veículos deixarem de transmitir competições como o Tour de France, onde a incidência de acusações e casos a esse respeito é significativa.

Nessa mesma pesquisa, os entrevistados citaram ciclismo, atletismo e boxe como os esportes em que mais desconfiavam da existência de doping.
Outro resultado interessante indicou que 80% dos entrevistados acham que o patrocinador deve retirar seu apoio aos atletas e eventos que incorram nesse erro, enquanto 58% apoiam a ideia de que atletas e confederações devolvam o valor recebido dos patrocinadores, quando flagrados e expostos por situação de doping.
Entretanto, apesar de todos os indícios que apontam o doping como um “ofensor”, foi apurado também que os mais jovens e os fãs de esportes são mais tolerantes a ele do que os mais idosos e dos que pouco acompanham o esporte.
Por ter se tratado de uma pesquisa quantitativa não houve a possibilidade de se explorar as causas dessa diferença entre grupos demográficos, talvez o anseio por competições mais fortes ou mesmo a crença – ou descrença – de que seja impossível ter competições de alto nível sem doping tenham levado a esses resultados, o que não deixa de ser temerário, pois pode indicar uma tendência de se considerar normal tal tipo de conduta.
Ainda na pesquisa foi constatado que os entrevistados não têm a tendência de reduzirem o consumo de produtos/serviços de empresas que patrocinem atletas flagrados com doping.

Como podemos ver, segundo a pesquisa, os patrocinadores não precisam temer eventuais casos de atletas dopados sob o ponto de vista de desgaste de imagem ou mesmo mercadológico, entretanto, seria extremamente importante para o esporte em sua essência, que as empresas colocassem cláusulas punitivas severíssimas em relação ao doping nos contratos de patrocínio.