terça-feira, 21 de setembro de 2021

Marcas e suas estratégias - Atletismo 2020

Dando continuidade às análises sobre as marcas esportivas nos Jogos Olímpicos de Tokyo, focaremos aqui o atletismo, modalidade que, em função da expressiva quantidade de equipes e da grande audiência, nos concede uma boa noção acerca das estratégias das empresas. A base para o artigo foi um estudo realizado a Jambo Sport Business.
Considerado um dos esportes que mais atrai a atenção do público em geral, a edição de Tokyo contou com a presença de 197 países - três a menos do que no Rio – e 2.179 atletas, o que representou uma queda de 170 em relação a 2016. Já o número de marcas subiu de 27 para 32, enquanto a quantidade de equipes sem fornecedor caiu de 45 para 27.
Em relação aos Jogos do Rio, houve 120 alterações de marcas nos uniformes das equipes. Nessas incluem-se também as equipes que não tinham fornecedor e passaram a ter, e vice-versa, além das trocas propriamente ditas entre fornecedores. As principais mudanças ocorreram nas seguintes equipes: Austrália (de Adidas para Asics), Ucrânia (de Nike para Asics), África do Sul (de 361⁰ para Maxed), Irlanda (de New Balance para Adidas), India (que em 2016 era suprido pela Li Ning e em Tokyo ficou sem fornecedor). As marcas que mais conquistaram times foram: Nike (18), Adidas (18), Mizuno (11), Puma (8) e Asics (7), ao passo que as que mais perderam foram: Nike (28), Mizuno (10), Asics (9), Puma (8) e Adidas (6).
A Nike, embora permaneça na liderança, perdeu participação tanto em número de atletas (38,2% => 32,3%) como de equipes (30,0% => 24,9%). Diante dos números apresentados, tudo leva a crer que a marca norte-americana passou a adotar uma política mais seletiva de patrocínio, privilegiando a qualidade, mas sem abrir mão da presença globalizada, visto estar presente em equipes de todos os continentes.
Em número de equipes, a Adidas assumiu a 2ª posição com 11,2%, seguida pela Puma e Joma com 7,6% cada. Quando focamos o número de atletas, o qual é diretamente relacionado ao tamanho das equipes, a vice-liderança pertence à Asics com 18,7%, vindo a seguir Puma (10,3%) e Adidas (9,3%).
Podemos inferir que a Adidas tentou compensar as perdas mais significativas investindo em equipes menores, enquanto a Asics, voltou seus esforços para o patrocínio de poucos, mas bons times.
Para entender a participação das marcas em termos de performance, elaboramos um quadro de medalhas, onde a Nike é a líder, seguida por Puma e Asics.
O estudo da Jambo traz também um racional a respeito dos objetivos mercadológicos que podem ser buscados através do patrocínio no atletismo, o qual ajuda a entender melhor as estratégias das principais marcas.
A título de ilustração, identificamos que a Puma mantém seu posicionamento de associação à velocidade, porém carecendo de uma maior presença global, pois, além da América Central - berço de velocistas - onde é a marca mais presente, a marca só teve equipes na Europa e na África (apenas uma).
O reduzido espaço não nos permite explorar mais informações e análises, razão pela qual recomendamos fortemente a leitura do estudo em https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6845643552370802688/





terça-feira, 14 de setembro de 2021

O 7 de setembro sob o prisma de marketing

No presente artigo pretendemos mais uma vez demonstrar que todas as atividades, até as “não acostumadas” ao marketing, precisam de sua utilização, ressalvando o caráter científico da disciplina, ou seja, sem a visão distorcida de que marketing é apenas comunicação/divulgação.
Assim, usaremos a manifestação de 7 de setembro como ilustração do que iremos abordar.  Começaremos tentando decifrar os objetivos do evento, os quais, por mais que tenham encampado pautas altruístas ligadas ao “bem da nação”, buscavam certamente o aumento do número de eleitores, fãs e defensores do presidente, o que para grande parte dos participantes é realmente o bem da nação. Sem entrar no mérito de julgar a veracidade da relação de causa e efeito, temos que reconhecer a legitimidade do objetivo que, analogamente ao marketing de um produto/serviço, visa aumentar e manter clientes e defensores da marca de forma sustentável, além de fortalecer sua imagem.
Contudo, para a consolidação dessa defesa é fundamental que exista um argumento bem construído sobre os benefícios daquele produto ou, no caso, daquele candidato. Tal conjunto de atributos deve conter fatos verdadeiros que concedam reais vantagens competitivas à causa, além de predicados que sustentarão o posicionamento daquela “marca”, isto é, como será vista e percebida.
Evidentemente que, para esse processo ser o mais assertivo possível, é necessário definir qual público atingir. Alguns responderão prontamente: o público é toda população, o que não cabe discordância, mas como é impossível converter a totalidade desse universo, torna-se necessário identificar onde está o maior contingente de pessoas dispostas a ser “cliente da marca” e entender seus anseios.
Analisando o evento, é bem provável que a parte relativa ao público-alvo tenha sido executada a contento, vide a quantidade de pessoas que compareceram, todavia, não parece ter havido esforço suficiente na elaboração do discurso de posicionamento, embasa essa conclusão a incidência de respostas diferentes sobre a causa da manifestação: patriotismo, contra a corrupção, contra os desmandos dos demais poderes, contra alguns governadores, contra o preço dos combustíveis, pela intervenção militar, pelo impeachment de ministros, pelo apoio incondicional ao presidente, etc.
Geralmente quando se incute muitos benefícios a algo, se torna mais difícil defendê-los com a propriedade requerida, daí a importância de se escolher poucos, de forma a permitir o melhor equacionamento entre seu efetivo benefício/impacto e a construção de argumentações mais embasadas e menos contestáveis. Nas conversas com os manifestantes foi possível encontrar, por exemplo, pessoas culpando os governadores pelo aumento do combustível atrelando-o ao ICMS, sendo que esse não sofreu nenhum tipo de reajuste nos últimos tempos. Os próprios discursos contra a corrupção ficaram desguarnecidos em relação às réplicas envolvendo pessoas próximas do presidente.
Os aspectos relativos à comunicação tiveram dois grandes méritos: a utilização eficiente das redes sociais e a incorporação das cores brasileiras  à causa, o que a deixou bem associada ao orgulho da nação e ao patriotismo, ainda que muitos dos presentes tenham o amor pela pátria restrito à retórica. Por outro lado, pecou em não ter desenvolvido um posicionamento “claro” como já discorremos acima e também pelo fato de o presidente ter adotado um discurso “inflamado”, o qual deu margem a pressões que o fizeram voltar atrás.
Retroceder em discursos e promessas é sempre nocivo para qualquer “marca”, pois, por mais que se trate de uma correção à explanação original, ela implica na possibilidade de deixar decepcionados alguns fãs que “compraram”, acreditaram e reverberaram aqueles argumentos, além de dar margem a duvidas quanto à sua credibilidade. Tais fatos corroboram para fortalecer a mensagem que o artigo quer passar: a necessidade de se analisar e planejar de forma estratégica o que será realizado e comunicado.
Para completar a relação de atividades ligadas ao marketing, falemos um pouco sobre a distribuição, no caso em questão: a escolha dos pontos disponíveis para a reunião de pessoas, o que envolve o dimensionamento da capacidade para receber o público, o acesso, o conforto, a visibilidade perante a mídia e a segurança. Excetuando, os eventuais problemas sanitários que podem ter sido causados pela aglomeração, os demais pontos foram muito bem atendidos.
Para finalizar, vale a reflexão sobre os resultados: é certo que a manifestação mostrou um enorme poder de mobilização, porém se esse será capaz de engajar novos “consumidores/eleitores/defensores” é difícil afirmar, até porque as pesquisas anteriores mostraram um quadro desfavorável ao presidente.
De qualquer forma, fica evidente que a correta adoção de conceitos de marketing facilita o planejamento de ações para se obter sucesso na disputa pelo "mercado".


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Adeus Amigo Lucky, o cachorrinho mais bondoso e alegre que eu conheci. Sua falta é e sempre será enorme.
Serve de consolo acreditar que lá em cima, agora efetivado como o anjo que sempre foi, você estará novamente brincando com todos aqueles que sabem o quão especial você é.
Que Papai e Maria cuidem bem do Luckynho e você deles.
Fiquem com Deus!





terça-feira, 7 de setembro de 2021

Esportes coletivos e as marcas - Tokyo 2020

O último estudo publicado pela Jambo Sport Business analisou a participação das marcas esportivas das equipes que disputaram as competições de esportes coletivos nos Jogos Olímpicos de Tokyo: basquetebol, basquetebol 3x3, futebol, handebol, hockey, rugby e voleibol de quadra, todas estas nos dois gêneros, além de softbal no feminino e beisebol no masculino. Apenas o vôlei de praia ficou de fora pelo fato de uma mesma equipe abrigar atletas trajando marcas diferentes.
Antes de passarmos às informações que julgamos interessantes, vale destacar que a maior parte das equipes vestiu uniforme da marca que tem contrato com a respectiva federação, vide o caso das seleções brasileiras de futebol que jogaram com Nike, patrocinadora da Confederação Brasileira de Futebol. Todavia, também encontramos seleções que usaram as marcas dos comitês olímpicos locais, situação que pode ser ilustrada pelo time de futebol do México, que vestiu Li Ning, apesar de a Federação Mexicana de Futebol ter o patrocínio da Adidas.
Outra particularidade digna de relato, diz respeito aos países que disputaram a mesma modalidade nos dois gêneros, mas vestiram uniformes de fornecedores diferentes. Exemplifica essa situação o voleibol japonês, cujo time feminino vestiu Mizuno e o masculino trajou Asics.
O universo do estudo compreendeu: 176 equipes, 52 países, 16 competições e 38 marcas. 
A Asics foi a marca que esteve presente em mais modalidades, quatorze competições, só não tendo equipes com seus uniformes no basquete 3x3 em ambos os gêneros. Em segundo, sob essa ótica, está a Adidas com onze, seguida pela Nike com nove. Esses números ajudam a identificar a penetração das marcas nas modalidades esportivas, ou seja, diante dos números apurados, é possível supor que a Asics esteja focando um espectro maior do que as demais, as quais, podem estar mais seletivas nos seus investimentos. Ainda que tais hipóteses sejam factíveis, não pode ser descartada a possibilidade de as marcas, não aparecerem em dada modalidade em função das equipes por elas patrocinadas não terem se qualificado para os Jogos.
Quando voltamos nossa análise para a quantidade de equipes supridas, a liderança fica com a Nike ao vestir 31 times, seguida pela Adidas com 27 e Asics com 18. Aqui a explicação pode estar relacionada à “intensividade” da Nike, isto é, ainda que esteja presente em menos modalidades, os investimentos nessas são maiores.
O estudo analisa ainda as três últimas edições olímpicas, de forma a avaliar eventuais correlações com os resultados esportivos, No voleibol, a Asics sempre vestiu seleções apontadas como favoritas, no entanto, nenhuma delas ganhou medalha de ouro e só em Tokyo subiu ao pódio.
A parametrização com os cenários passados também permite entender a movimentação das marcas, assim como sua “continuidade” ou não nas respectivas modalidades. No handebol, por exemplo, a marca Kempa, que foi a mais presente nos Jogos do Rio, não vestiu nenhuma equipe em 2020. Fato similar aconteceu com a Adidas que em 2012, na mesma modalidade, supriu doze times e em 2016 apenas três.
O estudo mostra também como é a relação dos países com as marcas, no que tange à modalidade. Vemos a Austrália, presente em nove modalidades, mas em todas tendo um único fornecedor, por outro lado, encontramos a Coréia do Sul com equipes em seis competições e cinco marcas diferentes.
Enfim, trata-se de um estudo bastante rico em informações, o qual pode ser acessado através do link:https://www.linkedin.com/posts/halfen_marcas-esportivas-nos-esportes-coletivos-activity-6840743590809935872-ZE4B





terça-feira, 31 de agosto de 2021

Conflitos internos

 
A queda para a série B do campeonato brasileiro de futebol e a consequente redução nas receitas, tem feito com que os clubes rebaixados readequem seus orçamentos, o que redunda fatalmente em cortes de custos para que os resultados operacionais sejam menos impactados.
Alguns clubes decidiram, entre outras medidas, a extinção de algumas modalidades olímpicas, o que foi alvo de críticas.
Embora eu seja um defensor ferrenho dos esportes olímpicos, seria um pouco irresponsável julgar tal decisão sem estar a par da real situação financeira dos clubes e dos seus objetivos estratégicos.
Além do que, é preciso conhecer a estrutura das instituições para entender seus conflitos internos. Os clubes de futebol, por terem um percentual extremamente significativo de suas receitas advindo desta modalidade, a qual também é responsável pela maior, se não totalidade, da torcida (potenciais consumidores), sofrem com a forte pressão por melhores desempenhos esportivos. Tal cenário faz com que os esportes olímpicos e a parte social fiquem em notória inferioridade nas decisões orçamentárias, principalmente quando faltam recursos e performance.
Esses “conflitos internos” não são exclusividade dos clubes de futebol, ainda que a exposição e a pressão sejam maiores em função do tamanho desse mercado. Os clubes ditos sociais, pegando aqui a título de ilustração o Esporte Clube Pinheiros de São Paulo e o Minas Tênis Clube do estado homônimo, também padecem com as reclamações dos sócios em relação à “divisão” de espaço com as atividades relacionadas aos esportes olímpicos.
Assim como os torcedores de futebol não conseguem entender que os esportes olímpicos são importantes para o fortalecimento da marca e até na atração de simpatizantes, os sócios dos clubes citados acima não enxergam que a valorização da marca e do título patrimonial do clube pode ser aditivada pelos esportes olímpicos.
Ressalte-se que no caso dos clubes de futebol, em função das difíceis situações financeiras, as necessidades de caixa no curto prazo exigem soluções radicais mais rápidas.
Por outro lado, uma possível saída dos clubes das modalidades olímpicas pode ser de extrema gravidade para o Brasil, que tem seu sistema esportivo fortemente baseado nessas organizações. 
Mas como mantê-las em um cenário onde as organizações precisam de dinheiro para sobreviver? A solução de dedicar uma parte das receitas aos olímpicos é fácil no discurso, mas podem comprometer a estrutura e fazer com que ela toda acabe, prejudicando as três unidades: futebol, esportes olímpicos e social.
Dessa forma, creio que devam ser buscadas saídas que incluam mandatoriamente a modelagem do sistema esportivo brasileiro, não deixando-o tão dependente dos clubes, mas também criando recursos para que esses continuem contemplando-os em suas estruturas.








terça-feira, 24 de agosto de 2021

A Nike e os 5 A's de Marketing


Ao analisarmos as marcas dos calçados de corrida utilizados pelos 110 triathletas que disputaram os Jogos Olímpicos de Tokyo (55 em cada gênero), iremos constatar que a Nike lidera com expressiva folga ao ter uma participação de 50,9% contra 24,5% da Asics, a segunda colocada. Tais números  ganham maior representatividade quando comparados aos Jogos de 2016 no Rio, onde a marca norte-americana calçava apenas 12,7% e ocupava a 3ª colocação atrás da Asics com 29,1% e da Adidas com 14,5%, sendo que no feminino era apenas a 4ª marca.
Antes de discorremos sobre as causas desse crescimento, vale explicar que, ao contrário do atletismo e de outras modalidades mais populares, no triathlon não se vê uma forte ação das marcas de calçados esportivos no que tange ao patrocínio, o que nos permite concluir que a escolha de certos equipamentos tem um cunho bastante voltado à convicção do atleta a respeito do produto mais adequado para sua performance.
Partindo dessa premissa, podemos inferir que a “revolução” causada pelos novos modelos de tênis, confirmada pelos recordes batidos pelos usuários de tais calçados e que teve a Nike como pioneira, foi responsável por esse movimento que galgou a marca à liderança entre os triathletas olímpicos. Salientamos que esse percentual poderia ser até maior, o que só não aconteceu porque parte da concorrência, que desenvolveu produtos com tecnologia similar, enviou calçados para alguns atletas utilizarem na própria competição.
Feitas as devidas considerações, podemos passar para um conceito relativamente novo em termos de marketing: os 5 A’s de Marketing, preconizado por Kotler que, ainda que mais voltado ao digital, propõe um novo padrão de comunicação e conteúdo, o qual passa pelas seguintes etapas:
  • Assimilação – quando os consumidores são passivamente expostos a uma longa lista de marcas. Nessa fase, os citados calçados surgem na cabeça do consumidor com seus designs diferentes e algum espaço na mídia, inclusive nas redes sociais. 
  • Atração – aqui os consumidores passam a processar as mensagens a que são expostos e são atraídos para uma lista pequena de marcas. No caso descrito, o pioneirismo da Nike deixou-lhe durante um bom tempo como quase que exclusiva nessa, digamos, nova categoria de produtos.
  • Arguição – nessa etapa, os consumidores passam a pesquisar fortemente sobre o produto para entender as razões de sua eficácia.
  • Ação – trata-se da efetivação do processo de compra/aquisição.
  • Apologia – é quando os consumidores desenvolvem a sensação de fidelidade, passando a recomprar e recomendar, o que, no nosso caso, explica o efeito multiplicador de uso do produto entre os triathletas.
Embora tenhamos usado o exemplo dos calçados de corrida, o conceito é aplicável a qualquer bem, ressalvando-se, no entanto, que podem haver variações no tempo de duração de cada fase em fusão das eventuais diferenças dos ciclos de compras, dos valores e da quantidade de concorrentes.

PS: O estudo que identificou a participação dos tênis entre os triathletas avaliou também as bicicletas usadas por eles, e pode ser visto através do link: https://www.linkedin.com/posts/halfen_equipamentos-dos-triathletas-tokyo-2020-activity-6827978363748057088-zFzW/


terça-feira, 17 de agosto de 2021

O Brasil em Tokyo

Discorrer aqui sobre o desempenho das modalidades nos Jogos Olímpicos de Tokyo soaria repetitivo, visto o tema ter sido muito bem explorado por renomados especialistas no assunto, aliás, deve ser registrado que, com raras exceções, o nível dos comentaristas sobre esportes olímpicos vem melhorando significativamente, o mesmo não pode se dizer de alguns que se intitulam “especialistas” em gestão esportiva...
Estes, ao invés de buscarem métricas inteligentes para entender o ambiente dos esportes olímpicos e inseri-los dentro de um contexto político-econômico, preferiram criticar o desempenho tratando-o como um fiasco para ganharem audiência, apelando para comparações isoladas entre o número de medalhas vs. montante investido, além de tentarem diminuir as conquistas sob as alegações de que novas modalidades foram incluídas, como se só os brasileiros as praticassem. A propósito, nessa parametrização risível utilizaram os Jogos do Rio, mas se esqueceram que tivemos mais atletas em 2016 pelo fato de o Brasil ser sede e assim ter direito a vagas em todos os esportes coletivos, fora o fator torcida.
Não que a análise sobre o montante de investimentos seja infundada, o erro em sua utilização consiste fazê-la simplesmente como referencial de um único ciclo olímpico, desprezando as heranças e legados de investimentos anteriores que influenciam a necessidade de verbas, ou seja, sair da inércia requer mais esforço do que algo em movimento.
E mais, ainda que conseguíssemos “carregar” e diluir o valor ao longo dos ciclos, não é possível se extrair uma correlação perfeita, visto que fatores exógenos como investimentos maiores dos concorrentes exigem a relativização das cifras, ou seja, mesmo que o Brasil dobrasse seus  investimentos, eles poderiam nada acrescentar se outros países aportassem valores muito superiores aos nossos.
Claro que o desempenho brasileiro poderia ser melhor, mas há também uma série de variáveis internas de difícil controle, entre as quais está a heterogeneidade das confederações, o que contempla não apenas a capacidade financeira, mas também, e principalmente, a gestão.
Contar com a sorte de encontrar talentos é desenvolvê-los é muito pouco diante da possibilidade de planejar a massificação, formação e captação.
Partindo dessa necessidade, fica fácil deduzir a importância de se ter bons gestores e exigir das organizações melhores governanças não apenas pelo prisma estrutural de gestão e compliance, mas também das demais disciplinas fundamentais em qualquer instituição, tais como marketing, planejamento estratégico, finanças e recursos humanos, administrativo, entre outras.
Nesse ponto o Comitê Olímpico Brasileiro, mais precisamente o Instituto Olímpico Brasileiro, é digno dos mais efusivos aplausos, pois, através de seus cursos, capacita profissionais para a área de gestão esportiva.
Não obstante, seria simplório demais colocar toda a responsabilidade dos resultados nas organizações que regem os esportes, se assim fizéssemos estaríamos desprezando a importância do governo em estabelecer uma política esportiva adequada à realidade brasileira trazendo como inspiração modelos que deram certo pelo mundo afora.
Se quisermos realmente ficar no rol das dez principais potências olímpicas é fundamental que sejam corretamente definidos os papéis da iniciativa privada, dos órgãos públicos, das forças armadas, dos clubes, das escolas e das universidades em todas as manifestações do esporte: iniciação, participação e alto rendimento, sem jamais perder de vista que os resultados esportivos não podem jamais se sobrepor à vida, ou seja, qualquer política a ser adotada precisa considerar a educação e consequente futuro do atleta ao final da carreira.





terça-feira, 10 de agosto de 2021

O futebol é olímpico?

O título do artigo, ainda que contenha certo grau de sarcasmo, tem como intuito provocar uma reflexão sobre os pontos que fazem o futebol se diferir das demais modalidades.
O fato de haver restrições sobre a idade máxima – cada seleção pode levar no máximo três jogadores com idade acima de 23 anos - já deixa o futebol masculino diferente dos outros esportes olímpicos. Tal situação tem como justificativa o receio por parte da FIFA de que o torneio se transforme numa espécie de Copa do Mundo, receio esse que não exite em nenhuma outra federação internacional.
Além dessa “diferença”, há o poderio financeiro da modalidade, o qual tem sido responsável por acontecimentos que extrapolam o razoável, e aqui trazemos como ilustração a cerimônia de premiação, onde a seleção brasileira, vencedora da competição nos Jogos de Tokyo, subiu ao pódio com a camisa de jogo que trazia a logo da Nike, patrocinadora da Confederação Brasileira de Futebol, contrariando a determinação do Comitê Olímpico Brasileiro de usar o uniforme da Peak, fornecedora da entidade.
A hipótese de a Nike estar por trás da iniciativa não parece crível, contudo, mesmo sem a participação da marca é clara a situação de ambush marketing – marketing de emboscada – afinal, obteve exposição em um espaço que não pagou para estar. A alegação de que ela é patrocinadora da CBF, e como tal investe verbas altíssimas, não se sustenta, pois as marcas têm plena consciência dos seus direitos e deveres, não se cogitando sequer eventuais negligências ou esquecimentos sobre os Jogos Olímpicos. Nesse caso é até provável que a marca norte-americana esteja incomodada com a situação, visto que as suspeitas de estar por trás da vergonhosa atitude pode se refletir em rejeição à marca e impactar negativamente as vendas das camisas da seleção brasileira. Para piorar, qualquer declaração que venha a fazer sobre o caso trará constrangimento à CBF, uma das suas principais patrocinadas.
A CBF, por sua vez, se coloca perante o mercado – aqui consideramos patrocinadores atuais e potenciais – como uma organização pouco confiável, o que, aliás, é péssimo para uma instituição já desgastada com escândalos. Não surpreenderia saber que alguns patrocinadores estejam avaliando o quão saudável é estar associado a quem se sobrepõe à ética e acordos.
Já a Peak, apesar de ter reagido ao incidente de forma irônica e bem-humorada comunicando nas redes sociais que a Nike não faz parte do seu portfólio de marcas e ter aumentado seu awareness (reconhecimento), foi bastante prejudicada, pois, além de perder exposição, corre o risco de ter sua imagem arranhada no que tange à qualidade de seus produtos, afinal, em tese, esses foram rejeitados pelos campeões.
Todavia, nada se compara ao prejuízo que o esporte sofreu ao ser submetido a uma situação que nada tem a ver com os princípios que os regem, dentre os quais está o respeito às regras.






terça-feira, 3 de agosto de 2021

Superação com responsabilidade


Negar que o esporte brasileiro passa por um processo de evolução em termos de gestão seria injusto, basta comparar o passado não muito distante e o cenário atual.
Eventuais julgamentos contrários estão ligados à ansiedade causada pela expectativa de mudanças mais velozes, aditivada pelos críticos que, por não serem convidados para “implantar suas fórmulas mágicas”, acabam ganhando espaço nas redes sociais e até em veículos, digamos, pouco responsáveis com seu conteúdo.
É certo também que o caminho a ser percorrido é bastante longo, principalmente quando usamos como parâmetros os países mais avançados e o mercado corporativo, ilustra essa afirmação a estagnação em certas áreas da gestão esportiva, como o marketing, por exemplo. A distorção acerca de sua utilidade é uma das responsáveis por sua não evolução, ainda que tenha começado a fazer parte da maioria dos organogramas das organizações.
Exemplifica bem esta realidade, a pouca importância que se dá ao posicionamento das suas marcas. Sim, parece meio sem sentido para os que conhecem marketing ver clubes e confederações presentes em mídias sociais, vendendo propriedades de mídia, fazendo eventos, etc., sem ter uma linha estratégica que venha embasar e estabelecer algumas características que ajudariam a fortalecer a imagem de como gostariam de ser percebidos. 
Na verdade, não ligam para isso, acham que conquistas, fãs, seguidores e “bom relacionamento” já são suficientes para se obter patrocínios.
Esquecem, infelizmente, que dessa forma estão se equiparando a meros vendedores de espaços publicitários, fato que os colocam num oceano vermelho ao disputarem mercado com grandes veículos de comunicação ou com organizações que sejam maiores em termos de fãs, isso sem falar que conquistas são efêmeras.
Mas, assim como toda unanimidade é burra, como já dizia o grande tricolor Nelson Rodrigues, toda generalização também é. Reforça essa conclusão a iniciativa da Confederação Brasileira de Triathlon que, atenta à forte competição por patrocínio, fãs, praticantes, espaço na mídia e atenção, se conscientizou acerca da necessidade de se posicionar e, mesmo sem grandes recursos, conseguiu desenvolver internamente esse processo, chegando ao “SUPERAÇÃO COM RESPONSABILIDADE”.
Superação advém da percepção de que a modalidade talvez seja a que mais traduza essa característica, pois, além da necessidade de administrar o tempo para organizar os treinamentos das três modalidades, a competição requer um esforço sobre humano em todas as etapas de forma contínua, além de estratégias para que não haja desequilíbrio.
Já a responsabilidade se traduz no aspecto democrático no que tange a praticantes, visto que pessoas dos mais variados perfis demográficos podem vir a treinar e competir. Somado a isso, as opções de distâncias permitem que níveis diferentes de objetivos sejam adequados às características de treinamento dos praticantes, isto é, quem disputa uma competição do chamado Sprint Triathlon (750 metros de natação, 20 km de ciclismo e 5 km de corrida) é tão triathleta quanto o que faz o Long Distance (3,8 km / 180 km / 42 km) e ainda pode, ao longo do tempo, se planejar para novos desafios.
O posicionamento neste caso foi uma excelente forma de enaltecer os valores do triathlon, os quais são desejados por qualquer corporação preocupada com resultados e sustentabilidade.
Os elogios ao Triathlon Brasil, no entanto, não devem ficar restritos a essa iniciativa, visto ser ela fruto de uma governança que foca todos os aspectos fundamentais para uma boa gestão, sendo a atenção ao marketing em sua essência apenas uma pequena amostra disso.






terça-feira, 27 de julho de 2021

Rei morto, rei posto?

 
Este texto certamente não é o primeiro em que se busca fazer analogias da vida corporativa com o esporte e, consequentemente, com a vida de forma geral.
Nesta linha, o tema versará sobre um assunto que costuma, pelo menos em um primeiro momento, incomodar àqueles que perdem alguma posição de liderança e/ou prestígio. 
Executivos que hoje são responsáveis por decisões importantes e, devido a essa condição, “bajulados” e procurados constantemente, podem no futuro perderem esse status. A partir daí se depararão com um menor número de contatos, seja de colegas, fornecedores e até de jornalistas que os tinham como fonte. Fato perfeitamente normal, já que todas estas pessoas continuam a ter uma infinidade de atribuições, as quais precisam ser priorizadas. 
O que não vem a ser razoável, é a maior dificuldade de se falar com estas pessoas que outrora eram bastante disponíveis e, por que não dizer, até chatas de no que tange à frequência com que mantinham contatos.
Com o atleta, o processo é bem parecido, ainda que a idolatria permita um período maior de “respeito” pós-aposentadoria, porém, este irá se perder na medida em que as novas gerações ganhem espaço.
No caso do esporte, a situação é até mais fácil de compreender, afinal faz parte do ciclo de vida, que leva à substituição de fãs e até de jornalistas. O problema aqui se dá quando o atleta ainda está em atividade, mas, por variadas questões, tem o desempenho comprometido.
Responsabilizar as pessoas que os desprezam é uma atitude pouco madura, visto que o erro é exclusivamente do “desprezado” que, nos momentos de “glórias”, não soube avaliar quem era quem, embora devamos admitir que identificar um “puxa-saco” quando se está sendo bajulado não é tarefa das mais fáceis. 
A boa notícia é que tais erros são corrigíveis e numa próxima ocasião – elas sempre aparecem de alguma forma -, o ex-bajulador já terá sido mapeado e o bajulado estará mais consciente quanto ao fato de que seu sobrenome corporativo vale nesse meio muito mais do que seu verdadeiro sobrenome. Sim, o Fulano da empresa X é mais importante do que o Fulano de Tal, ainda que sejam as mesmas pessoas.
Já os “ex-bajuladores”, esses são incorrigíveis, trata-se de uma questão de caráter, restando a eles a opção de torcer para que os “desprezados” não venham novamente a ter algum tipo de relação com ele ou que não tenham uma memória muito boa. Caso essas condições não sejam satisfeitas, precisarão se reinventar para adquirirem algum tipo de respeito. 




terça-feira, 20 de julho de 2021

Esqueceram os atletas

 

Ao analisarmos a política de patrocínios de algumas marcas ligadas ao esporte iremos constatar a presença de “pessoas” com pouca ou nenhuma relação com o segmento esportivo. No meio são chamados de “influenciadores” que, como o próprio nome já diz, têm a suposta capacidade de interferir no fortalecimento da marca e até no consumo dela.
Um quadro bastante diferente do que se via no passado, quando os atletas eram os ativos desejados por estas marcas, que apostavam no endosso diferenciado por parte destes e no lado “aspiracional” dos praticantes/espectadores do esporte para atingir seus objetivos mercadológicos. Um racional coerente que vinha dando resultado, até que as redes sociais ganharam um espaço significativo na vida das pessoas, fizeram com que a busca por “seguidores” ganhasse uma importância muito grande e novos públicos passassem a ser contemplados como alvos. Diante dessa conjuntura, as marcas passaram a ir atrás dos “influenciadores”, independentemente se eles representam fielmente o posicionamento institucional objetivado.
Mesmo ciente dessa possibilidade de diversificação de “público”, não se pode descartar a variável “modismo”, responsável, inclusive, pelo movimento de alguns clubes de futebol que trouxeram “influenciadores” para integrarem seus times, entre os quais estão o São Bento de Sorocaba que contratou um youtuber e o Resende que incorporou uma subcelebridade advinda de reality show. Lembrando aqui que fora do meio esportivo, a situação também acontece, vide a contratação da cantora Anitta como head de criação e inovação da Skol Beats, posição que não exerce da mesma forma que os demais executivos que ocupam posições correlatas.
Voltando ao esporte, é possível perceber que entre os atletas essa prática não é muito bem vista, o que se deve, provavelmente, ao consolidado conceito de meritocracia incutido neste ramo de atividade, o qual correlaciona o desempenho à recompensa e de que a performance esportiva deve ser prioridade neste ambiente.
Contudo, negar a eficácia desta estratégia no momento atual é um risco muito grande para qualquer marca assumir, visto que em certas situações é mais seguro “copiar a concorrência”, pois, ainda que não seja a melhor iniciativa, pelo menos pode ser justificada ao se citar as “companhias” que também a adotam.
Por outro lado, também não é possível afirmar que se trata de uma solução inquestionável, visto não parecer razoável equiparar em termos de importância indicadores como “seguidores” e “engajamento” com os de receitas, market share e lucratividade, isso sem falar no branding.
Por fim, deve ser salientado que iniciativas onde se privilegiou outros fatores além dos estritamente técnicos não são inéditas no futebol, ilustra essa condição o Parma da Itália, que em 2001 contratou o maior ídolo japonês na época - Hidetoshi Nakata – por 30 milhões de euros, e teve como retorno: a atenção da população japonesa sobre o time, a atração de patrocinadores internacionais com interesse no Japão e fez com que a cidade de Parma se tornasse o 2º destino italiano mais visitado pelos japoneses. Isso permite concluir que o vultoso investimento em um “influenciador” redundou em aumento de receitas oriundas de pessoas que não necessariamente eram fãs do esporte, porém, não podemos jamais esquecer que se tratava, antes de qualquer coisa, de um esportista.





terça-feira, 13 de julho de 2021

Great place to work

 
Embora o blog tenha como linha evitar o uso exagerado de palavras em inglês, optamos por não traduzir o título pelo fato de o mesmo ser o nome de um programa de certificação adotado em mais de 50 países para avaliar as empresas sob a ótica dos seus colaboradores.
Nessa avaliação os funcionários são solicitados a dar notas para cinco macro atributos : Credibilidade, Respeito, Imparcialidade, Orgulho e Camaradagem, além de avaliar as políticas relativas à autonomia dos colaboradores, benefícios, salários, abertura para inovação e oportunidade de crescimento. Uma avaliação superior a 70 pontos concede à empresa o selo Great Place to Work.
Ainda que o mercado esteja com uma oferta de candidatos maior do que a de vagas, é sempre importante ter conhecimento sobre a empresa que disponibiliza alguma posição, assim como é útil para as empresas entender como seus concorrentes se posicionam em relação ao clima organizacional, visto que atrair e reter talentos é de fundamental importância para se ter sucesso no mercado.
Podemos acrescentar que as empresas que valorizam as relações humanas e as inciativas voltadas à sustentabilidade, se destacam no que tange ao fortalecimento da marca, sendo a certificação em referência uma ótima ferramenta de respaldo.
De forma proposital não desceremos ao detalhamento do questionário de avaliação, pois, acreditamos que ele é bastante abrangente para o que se propõe, contudo, deve ser ressaltado que se trata de uma visão estritamente dos colaboradores, a qual pode já estar contaminada com a cultura da empresa, que nem sempre é das melhores.
O que pretendemos com esse último parágrafo é chamar a atenção de que a citada certificação foca apenas o aspecto interno, isto é, não contempla como a empresa trata os demais stakeholders, tais como fornecedores, clientes e candidatos às vagas oferecidas, entre outros.
Exemplificando: será que uma empresa cujos colaboradores não respondem e-mails e/ou não retornam ligações e mensagens são realmente ótimas para se trabalhar? Evidente que não, a menos que a empresa não considere a educação e o respeito como atributos importantes no momento da contratação de seus colaboradores. Agindo  dessa forma negligente em relação aos requisitos mais básicos de polidez, as corporações comprometem um fator tão ou mais importante do que o selo “great place to work”: o poder da recomendação, o qual assume cada vez mais relevância em função do crescimento das redes sociais, onde uma despretensiosa mensagem traz reflexos avassaladores.
Diante dessa realidade, é inadmissível que as empresas não atentem para um público composto de ex e não clientes, assim como de potencias fornecedores e colaboradores, pois, além destes serem peças importantes no processo de fortalecimento da imagem, valorizar as boas maneiras requer pouco investimento, afinal, não é caro focar suas contratações em pessoas educadas incondicionalmente, isto é, que tenham na sua essência o respeito a pessoas, prazos e palavras.








terça-feira, 6 de julho de 2021

Rebranding no Triathlon

O Triathlon Brasil, nome pelo qual é conhecida a Confederação Brasileira de Triathlon, está de cara nova após conclusão do seu processo de rebranding.
Uma nova identidade visual está presente em todas as propriedades de comunicação da instituição, porém, antes de passarmos ao conceito que norteou esse processo, vale esclarecer a confusão que comumente se faz entre redesign e rebranding.
Ambos, na verdade, buscam mudar a percepção do público, no entanto, grosso modo falando, o redesign foca a renovação visual sem mirar o posicionamento da marca, enquanto que o rebranding envolve os dois pontos.
Outro questionamento que usualmente é feito diz respeito à motivação para se desenvolver tais tipos de projetos. Podemos aqui enumerar várias razões dentre as quais se destacam: a marca estar danificada por escândalos e/ou problemas, fusões e aquisições, necessidade de se adequar ao mercado e mudanças na missão e visão, entre outros.
No caso do Triathlon Brasil, o processo foi de rebranding.
No que tange à parte relativa ao redesign, os responsáveis pela instituição optaram por uma solução bastante interessante, pois se utilizaram de um viés fortemente estratégico ao entenderem que o Triathlon, por ser uma modalidade esportiva relativamente nova - quando comparada com a maioria que integra o programa dos Jogos Olímpicos -, carece de popularização, o que se obtém mais facilmente com a unidade de símbolos de organizações afins. Nesse contexto, o Triathlon Brasil adaptou sua marca à da World Triathlon, órgão máximo que rege o esporte.
A ideia foi buscar a sinergia entre as marcas, de forma que se remeta à modalidade sempre que as vejam, todavia trazendo elementos que permitam facilmente à diferenciação.
Na continuidade do processo, o ideal seria que as federações de cada estado seguissem a mesma linha.
Sobre a marca em si, não desceremos aos detalhes do processo de design, mesmo porque não somos especialistas nessa disciplina, contudo é importante relatar que o racional do seu desenvolvimento considerou os nove pontos de equilíbrio do triathlon: as modalidades que constituem o esporte (natação, ciclismo e corrida), o bem estar que se busca tanto na mente como no corpo e na alma e por fim a menção ao meio ambiente onde o esporte é praticado (terra, ar e água).
Cumpre ainda relatar que todo esse processo de renovação já vem ocorrendo há mais tempo, inclusive com a criação do “nome fantasia” Triathlon Brasil como forma de se mostrar uma instituição moderna sem o peso da palavra “confederação” que muitas vezes traz conotações não tão positivas.
É digno de atenção também o fato de que ações de rebranding e redesing têm sido cada vez mais frequentes em função do dinamismo do mercado, ambiente no qual o esporte está cada vez mais inserido.





terça-feira, 29 de junho de 2021

Anitta conselheira

O Nubank, quinto maior banco do Brasil, anunciou recentemente que  a cantora Anitta irá fazer parte do seu Conselho de Administração, fato que rendeu algumas críticas, porém as mesmas tiveram um cunho muito mais político em função das frequentes declarações da cantora contra o presidente da república do que por aspectos que avaliem sua capacidade e experiência em relação ao escopo do cargo.
Quanto à carreira de sucesso da artista não há o que discutir, nem mesmo seus detratores podem atacá-la sob esse flanco. Creditar seus resultados à equipe ou até à sorte, nada arranha o mérito, afinal de contas, formar equipe não é algo simples e ter sorte é sempre importante.
Também não creio que caibam críticas ao fato de o setor de entretenimento ser diferente do financeiro, pois bons profissionais têm forte capacidade de adaptação, propiciando inclusive a possibilidade de adequar experiências de um setor a outros.
Todos estes predicados, no entanto, não excluem a possibilidade de se questionar alguns pontos, entre os quais podemos enumerar:
(i) a falta de experiência da cantora como executiva em empresas de médio/grande porte, as quais certamente têm suas gestões baseadas em processos, ou seja, não basta ter ideias, é preciso entender como transformá-las em soluções cumprindo os trâmites de governança.
(ii) a conclusão de que Anitta possui conhecimento em estratégia de marketing denota desconhecimento sobre o que vem a ser estratégia, pois, ainda que o processo abrigue uma parcela de intuição, é imprescindível a utilização de dados, informações, métodos e detalhadas análises para ser bem elaborada. Fora isso, por mais que seja desejável a heterogeneidade no conselho, espera-se, sobretudo, que o integrante possua formação multidisciplinar, isto é, que tenha razoável conhecimento acerca de outras áreas da administração.
A estratégia do Nubank de atingir a população “desbancarizada” focando jovens e pessoas das classes D e E parece coerente para se destacar no mercado, nesse contexto, a ajuda da “nova conselheira” tem muito a agregar, embora essa contribuição pudesse vir através de uma consultoria, o que nos leva a inferir que o “convite” trata-se mais de uma ação de posicionamento do banco do que propriamente do aproveitamento dos “aconselhamentos” da Anitta que, como já foi dito, poderia vir sem a necessidade de assento no conselho, aliás, ela exerce - ou exerceu - o cargo de head de inovação para a Skol Beats da Ambev.
Além do que, para se atingir os objetivos que estamos depreendendo, haveria a necessidade de uma divulgação massiva de sua contratação, sendo que o público tido como alvo talvez nem tenha ciência das funções e responsabilidades de um conselho de administração.
Na verdade, há outro público que pode ser afetado com a contratação da Anitta, o de potenciais acionistas, já que o Nubank tem planos para fazer brevemente seu IPO (Initial public offering).
Pois bem, independentemente da capacidade e história de sucesso da artista, tendo a achar que a iniciativa vai contra o que se espera de um conselho, todavia, por ser algo relativamente inédito, o mais prudente é aguardar para, se possível for, avaliar se esse tipo de ação pode ser replicado em função dos resultados obtidos e não por modismos.






terça-feira, 22 de junho de 2021

Coca? Não, eu quero água!

Uma cena chamou a atenção na coletiva de imprensa do jogador Cristiano Ronaldo na Eurocopa: seu gesto afastando duas garrafas de Coca-Cola e trazendo uma de água, a qual também não ficou à sua frente na entrevista, embora o nome do líquido tenha sido proferido em português.
Diante do ocorrido, a imprensa e as redes sociais despejaram dezenas de notícias conclusivas e comentários sobre o ocorrido, deixando evidente o baixo conhecimento dos “autores” acerca de gestão, além da péssima escolha de fontes.
A notícia mais “lacradora” talvez tenha sido a que responsabilizou o ato pela queda no valor da empresa, conclusão tirada sem sequer consultar analistas de mercado para entender como vinha sendo o comportamento das ações da empresa. Informo que no dia da coletiva, a ação da Coca-Cola fechou no valor de US$ 55,41, porém, um mês antes o valor era US$ 54,64, tendo chegado a US$ 54,17 em 19 de maio. Será que o mercado nesse dia previu que o craque português teria tal atitude quase um mês depois? Evidente que não, até porque no dia 20 a ação subiu.
Dentro do festival de "conclusões imediatas", estiveram as que decretaram que o marketing sofreu um sério prejuízo com o incidente, certamente baseados na possibilidade de atos similares voltarem a acontecer, o que, sem dúvida, seria péssimo para a atração e retenção de patrocinadores. Contudo, deveriam ler os contratos de patrocínio na Eurocopa, para entender se a propriedade “objetos sobre a bancada da mesa de entrevistas” existe e como foi comercializada.
Não surpreenderia saber que a colocação das garrafas foi uma espécie de "ativação" do patrocínio, tal suposição tem como causa a infinidade de produtos que aparecem nesse tipo de evento – arroz, cimento, chuteira, etc. – em total dissonância com o que se espera do marketing, que é posicionar os produtos e serviços como algo atrativo. 
Poderia também ser discutido - o que não foi feito - se o ato não se constituiu em um ambush marketing (marketing de emboscada), na medida em que a garrafa de água ganhou destaque em detrimento ao refrigerante. A possível alegação de que não era possível identificar a marca da água perde força quando entendemos que, em termos de categoria de produtos, elas são concorrentes, mesmo a Coca-Cola tendo água em seu portfólio.
Pelo histórico do jogador, não parece razoável, tampouco coerente, a hipótese de “rebeldia” contra uma marca que não estaria lhe remunerando para aparecer próxima a ele, afinal isso acontece costumeiramente no esporte, vide os backdrops e placas ao redor do campo, por exemplo. 
O chamado “marketing de causa”, no caso uma manifestação de alerta sobre os eventuais malefícios dos refrigerantes, foi provavelmente a motivação do ocorrido, não cabendo aqui julgar a veracidade dessa convicção. No entanto, para que algo tenha o cunho de “marketing” é mandatório que se contemple um planejamento, no qual a ocasião, o local, a forma e o sequenciamento, entre outros, sejam contemplados, o que, definitivamente não aconteceu no caso relatado.






terça-feira, 15 de junho de 2021

Desculpe, prefiro não aparecer


Com a confirmação da Copa América no Brasil, um forte movimento se colocou contra o evento tendo como principais alegações: a pandemia e a insegurança em relação a novas ondas de contaminação.
Discutir se deveria haver o evento ou não, poderia derivar para discussões políticas, as quais certamente embasadas por fake news de ambos os lados, ou pior, por comparações rasas com outras competições que estão ocorrendo no país, ignorando variáveis como planejamento e valores envolvidos.
Assim, preferimos não fugir do objeto do blog, que é discutir marketing e gestão, e analisar a decisão de alguns patrocinadores que optaram por não terem suas marcas na competição, sem que isso interfira nos valores contratados.
Trata-se de uma decisão que deve ter deixado felizes todos os gestores de marketing, ou melhor, todos os gestores que efetivamente sabem o que é marketing e não compreendem o patrocínio como uma mera iniciativa de exposição de sua marca. Ao perceberem que esse tipo de operação visa também a associação entre as marcas, os responsáveis pela Mastercard, Ambev e Diageo, entenderam que não seria benéfico estar junto a um evento tão discutido, ainda mais em uma época em que o mercado encara os consumidores como seres humanos plenos, com mente, coração e espírito.
Antes que acusem os gestores das citadas empresas de “comunistas”, como virou praxe entre os que defendem incondicionalmente o presidente da república, convém elucidar que corporações deste porte baseiam suas decisões em pesquisas e estudos, ou seja, muito provavelmente avaliaram o cenário em termos de repercussão nas redes sociais e concluíram que o dano à imagem seria maior do que o prejuízo de pagar por algo que não irão usufruir, no caso, a aparição nas peças da competição.
É importante mais uma vez frisar que, por mais que um gestor tenha posicionamento ou preferência política, sua posição executiva não permite que as mesmas influenciem suas tomadas de decisões.
Pelo lado dos patrocinados, o prejuízo, como já foi dito, não se dá no âmbito financeiro de curto prazo, porém, há que se considerar que a ausência de marcas tão fortes pode gerar uma reação em cadeia dos outros patrocinadores, além de enfraquecer o conceito do co-branding, onde a marca agrega valor por estar associada à outra, isto sem falar de uma eventual não renovação de patrocínio.
O lamentável disso tudo é ver o esporte sofrer as consequências da política, o que faz com que a opinião quanto à realização ou não da competição fique restrita ao que o seu político preferido apoia, ao invés de se analisar a viabilidade de se executar algo sem o devido planejamento.
Outra opção dos "especialistas em tudo" seria não emitir opinião definitiva sobre algo que não dominam.




terça-feira, 8 de junho de 2021

Coletivas de imprensa

Às vésperas do torneio de Roland Garros, a tenista Naomi Osaka, até então #2 do ranking da WTA manifestou sua decisão de não comparecer às coletivas de imprensa que acontecem após os jogos. Para justificar o ato, discorreu sobre a pressão que sente em função das perguntas, muitas das quais, agressivas e repetitivas.
Não podemos deixar de admitir que muitos repórteres extrapolam em suas perguntas, o que não significa que deva haver algum tipo de censura, mas sim respeito entre as partes, pois, por mais que haja curiosidade, inclusive por parte do público, há certas perguntas que fogem do âmbito do esporte, assim como a forma que são feitas. 
A opção de falar ou deixar de falar com qualquer pessoa é, sem a menor sombra de dúvida, um direito de todo cidadão. Contudo, tal “liberdade” diminui quando há compromissos firmados com patrocinadores, equipes ou organizadores de competições. 
Olhando sob esse prisma, fica evidente que a tenista errou, pois frustrou patrocinadores e fãs e não cumpriu o regulamento do torneio, afinal, ao escolher a carreira de jogadora profissional, assumiu compromissos, muitos dos quais não muito agradáveis.
A falta à entrevista resultou em uma multa U$ 15 mil e colocou a tenista no centro de uma polêmica, talvez até mais nociva do que as coletivas que tanto mal lhe fazem, redundando na sua desistência antes mesmo de sua segunda partida no Grand Slam. 
Apesar de ser uma situação desagradável, ela tem um lado positivo: jogar luzes sobre a discussão acerca da necessidade de se mudar – ou não – certas práticas já incorporadas ao cotidiano das competições. Será que as entrevistas coletivas pós-jogos são tão interessantes assim para a atratividade das competições?  Será que tal evento, no formato atual, não pode ter um efeito maléfico à sua saúde mental dos atletas? 
As respostas para estes e demais questionamentos que se derivem não são simples e requererão pesquisas sobre o interesse dos fãs e o perfil emocional dos atletas, além da elaboração de conteúdos que “racionalizem”, podemos assim dizer, a relação entre jornalistas e jogadores.
A propósito, toda e qualquer instituição deve rotineiramente realizar exercícios para atualizar regimentos e práticas aos dias atuais, caracterizando-se um erro a postura do “sempre foi assim e assim será”. Todavia, erro ainda maior seria não punir quem infringe os regulamentos em vigor. Nesse ponto, a organização do torneio deu um belo exemplo, o qual, infelizmente, não é seguido por muitas instituições centenárias que apregoam que a hierarquia e a disciplina são valores fundamentais para a sociedade, mas que na prática optam por preservar seus “preferidos” ao invés de preservar a moral e a imagem.
E já que falamos de disciplina, registre-se que o presente artigo é o de #600 deste blog. 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Quem deve se vacinar?

Para que não haja nenhuma expectativa frustrada com o título do artigo, alertamos que o blog, mesmo a favor da vacinação, não tem por intuito recomendá-la, muito menos desaconselhá-la por entender que apenas a classe médica está capacitada para prescrever tratamentos e medicamentos no que tange à saúde.
A ideia do artigo é discutir como algumas organizações esportivas estão lidando com a vacinação, devendo ser ressalvado que qualquer tipo de análise comparativa precisa considerar o cenário de oferta de vacinas.
Assistir pela televisão competições sem público trouxe certamente um forte impacto inicial, o qual certamente se refletiu nos atletas e até em resultados. Por mais que estejamos nos acostumando às condições e que medidas paliativas para minimizar os efeitos do deserto de espectadores venham ocorrendo, a busca sempre será pela volta à normalidade - sem adjetivações lacradoras, afinal normal é normal.
O caminho é lento e não há espaço para ansiedade, a retomada segura precisa contemplar a taxa de imunizados da população, a estrutura de fiscalização e as determinações das autoridades de saúde.
Querer simplesmente definir um percentual de público e esperar que algum isolamento seja cumprido é muito pouco para quem entende que a vida das pessoas está acima de interesses econômicos, mesmo reconhecendo que a economia tem influencia fundamental na vida. Contudo, por mais difícil que venha a ser uma recuperação econômica, ela só será possível se houver vidas, sendo a recíproca falsa.
Diante desse contexto, as marcas que patrocinam o esporte precisam se posicionar a favor desta, digamos, “responsabilidade social”, e encampar a defesa da vida não apenas através da doação de materiais úteis durante a pandemia, mas também através de ações que respaldem as determinações das autoridades sanitárias.
Agindo dessa forma, as empresas têm muito a ganhar em termos de construção de imagem, e para isso precisam ser bastante criteriosas nas escolhas do que e quem patrocinar. A propósito, seria importante para a imagem dos “patrocináveis” serem seletivos também em relação a quem aceitam como patrocinador.
Outro tema que traz subsídio para nossa discussão é a iniciativa do Comitê Olímpico Internacional em doar vacinas para os participantes dos Jogos de Tokyo. Uma medida, no meu modo de ver, importante para o esporte e consequentemente para a sociedade como um todo.
Os Jogos Olímpicos são, sem a menor sombra de dúvida, um forte incentivador da indústria do esporte e da própria prática esportiva, visto inspirar a população, aliás, tal inspiração se reflete nos demais valores associados ao olimpismo – amizade, solidariedade e fair-play, entre outros.
As críticas à medida se voltam à priorização concedida às pessoas saudáveis em detrimento a outras que, em tese, precisam mais. Não há como negar a coerência da crítica, só precisamos lembrar que a quantidade de “beneficiados” não é tão significativa, e que os respectivos países receberão o dobro das doses dedicadas ao contingente de atletas.
A conclusão que podemos tirar do que vem acontecendo com o esporte, é que ele tem tudo para se consolidar com uma atividade exemplar no que diz respeito ao zelo à vida das pessoas, inclusive formando melhores cidadãos, cabem às marcas se conscientizarem desse papel e se associarem a ele.