O controle do Los Angeles Lakers acaba de mudar novamente de mãos. Pouco mais de um ano depois de ter sido negociado por uma avaliação próxima a US$ 10 bilhões, um novo acordo avalia a franquia em cerca US$ 12,5 bilhões.
O número provoca uma pergunta: por que investidores aceitam pagar múltiplos tão elevados por franquias esportivas americanas enquanto SAFs brasileiras são negociadas por valores proporcionalmente muito menores?
A resposta diz mais sobre como o mercado define valor do que sobre o tamanho do cheque.
Não é apenas receita
Imagine três organizações esportivas: uma franquia americana, um grande clube europeu e uma SAF brasileira com exatamente o mesmo faturamento. Ainda assim, seus valuations tendem a ser radicalmente diferentes.
Isso porque o mercado não precifica apenas a receita existente. Precifica também previsibilidade, escassez, risco e liquidez.
Quem compra uma franquia da NBA adquire participação em um sistema econômico bastante protegido. Não há rebaixamento, o faturamento com broadcasting têm maior previsibilidade, existem mecanismos de compartilhamento de receitas, controle de custos e o número de franquias disponíveis é extremamente limitado.
O investidor, portanto, não compra apenas um time. Compra uma vaga em um sistema econômico fechado e deliberadamente escasso,
Isso não significa ausência de risco operacional, visto que uma franquia pode ser mal administrada. A diferença é que uma temporada esportivamente ruim dificilmente ameaça a própria plataforma econômica do negócio.
Já no futebol europeu, a relação entre desempenho esportivo e resultado financeiro é mais conectada. Classificar ou não para a Champions League pode alterar significativamente as receitas advindas de matchday, broadcasting e patrocínios. Para clubes menores, então, um rebaixamento pode modificar completamente a estrutura econômica da operação.
No Brasil, esse risco se multiplica.
Além da enorme pressão pelo desempenho dentro de campo, o investidor de uma SAF convive com receitas menores, maior dependência da negociação de atletas, volatilidade cambial, endividamento histórico, deficiências de infraestrutura e modelos de governança ainda não muito maduros.
Por isso, muitas SAFs se parecem mais com investimentos de private equity focados em turnaround do que com ativos cuja valorização decorre principalmente da melhoria contínua da operação.
E aqui surge uma diferença fundamental: o comprador de uma franquia americana paga caro por uma previsibilidade que já existe. O comprador de uma SAF paga menos porque boa parte do valor futuro ainda precisa ser criada por ele próprio.
Há ainda outro fator raramente mencionado nessa comparação: a tributação.
Nos Estados Unidos, dependendo da estrutura da aquisição, uma parcela do valor pago por uma franquia esportiva pode ser atribuída a diferentes ativos, como direitos relacionados aos jogadores, marca e outros intangíveis. Essa alocação pode permitir amortizações para fins fiscais, em alguns casos ao longo de 15 anos.
O resultado é uma situação interessante: a franquia pode continuar se valorizando enquanto parte do investimento feito em sua aquisição gera deduções fiscais ao longo dos anos, reduzindo os impostos pagos pelo investidor.
Esse benefício não encontra equivalente na aquisição de um clube europeu ou de uma SAF brasileira.
Considerados todos esses fatores, chegamos a uma conclusão que pode parecer paradoxal: um ativo esportivo mais caro não é, necessariamente, um ativo mais arriscado.
Da mesma forma, o múltiplo menor de uma SAF não significa que ela esteja barata. Pode simplesmente refletir o desconto exigido pelo mercado diante dos riscos envolvidos.
Previsibilidade, no fim das contas, também tem preço.

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