Em dezembro de 2025, a Mars concluiu a aquisição da Kellanova por cerca de US$ 36 bilhões, incorporando marcas como Pringles, Cheez-It e Pop-Tarts.
A operação aconteceu em meio a uma onda de consolidação na indústria de bens de consumo, impulsionada pela busca por crescimento, escala, novos mercados e portfólios mais fortes. Só no primeiro trimestre de 2026, foram anunciadas 60 transações de M&A no setor de alimentos e bebidas, 20% acima do mesmo período do ano anterior.
A operação aconteceu em meio a uma onda de consolidação na indústria de bens de consumo, impulsionada pela busca por crescimento, escala, novos mercados e portfólios mais fortes. Só no primeiro trimestre de 2026, foram anunciadas 60 transações de M&A no setor de alimentos e bebidas, 20% acima do mesmo período do ano anterior.
Muito se discute sobre os valores envolvidos. Pouco sobre o que acontece depois.
Uma empresa adquire outra porque enxerga nela algo que não possui: marcas com personalidade, clientes fiéis, cultura, tecnologia, ou simplesmente uma maneira diferente de fazer alguma coisa. O paradoxo é que, em muitos casos, o processo de integração começa justamente pelo desmonte daquilo que justificou a compra.
Processos são padronizados. Estruturas, eliminadas. Sistemas, substituídos. Decisões, centralizadas.
Tudo parece racional e é, dentro de uma lógica estritamente financeira. O problema surge quando, ao buscar eficiência e sinergias, perde-se a essência que diferenciava a empresa adquirida.
A compra da Snapple pela Quaker Oats por US$ 1,7 bilhão em 1994 ilustra bem essa situação. Ao tentar aplicar competências que haviam funcionado com Gatorade, a Quacker ignorou que a Snapple tinha distribuidores independentes, comunicação irreverente e personalidade quase anticorporativa, exatamente os elementos que a tornavam especial para seu público.
A tentativa de profissionalizá-la, na prática, a descaracterizou. Em 1997, três anos depois da compra, a Quaker vendeu a marca por US$ 300 milhões. A nova controladora recuperou os elementos originais de personalidade e, em 2000, vendeu a empresa por cerca de US$ 1 bilhão.
O ativo não havia mudado. O que havia mudado era quem e como o administrava.
Na outra mão, temos o caso da L'Oréal que leva a integração tão a sério que criou a função de Chief Integration Officer, dedicada exclusivamente a esse processo. Quando comprou a CeraVe, em 2017, preservou o posicionamento ligado à dermatologia e utilizou sua escala para ampliar distribuição e internacionalização. Em 2024, a CeraVe ultrapassou € 2 bilhões em vendas.
A lógica é relativamente simples: preservar o DNA e potencializar o que a escala pode oferecer. O difícil é resistir à tentação de uniformizar o que deveria permanecer diferente.
Existe ainda outra situação que merece atenção: o Private Equity.
Fundos de PE têm enorme mérito na profissionalização das empresas. Introduzem governança, disciplina de capital, indicadores, controles e rigor na alocação de recursos. O risco aparece quando a disciplina financeira deixa de ser instrumento e se transforma na lente predominante pela qual o negócio é enxergado, o que é compreensível: alguém precisa garantir geração de caixa, controle do endividamento, orçamento e retorno sobre o investimento.
Mas quem, com o mesmo poder, representa o cliente? Quem protege a marca? Quem questiona se a melhoria do EBITDA de hoje está sendo obtida às custas do crescimento de amanhã?
Fundos de PE têm enorme mérito na profissionalização das empresas. Introduzem governança, disciplina de capital, indicadores, controles e rigor na alocação de recursos. O risco aparece quando a disciplina financeira deixa de ser instrumento e se transforma na lente predominante pela qual o negócio é enxergado, o que é compreensível: alguém precisa garantir geração de caixa, controle do endividamento, orçamento e retorno sobre o investimento.
Mas quem, com o mesmo poder, representa o cliente? Quem protege a marca? Quem questiona se a melhoria do EBITDA de hoje está sendo obtida às custas do crescimento de amanhã?
A Toys “R” Us ajuda a dimensionar o problema. Adquirida por fundos em um leveraged buyout - aquisição alavancada - de US$ 6,6 bilhões, chegou à recuperação judicial com cerca de US$ 5,2 bilhões em dívida e aproximadamente US$ 400 milhões anuais destinados ao serviço dessa dívida. Ao mesmo tempo, precisava enfrentar Amazon, Walmart e a transformação digital.
Marketing e finanças não deveriam ocupar lados opostos da mesa. São, ou deveriam ser, perspectivas complementares sobre o mesmo negócio.
Uma empresa pode, de fato, melhorar margem, porém destruindo valor, reduzir despesas, mas perdendo clientes e aumentar EBITDA tornando-se menos relevante.
Daí a importância de se traçar objetivos claros nas aquisições, e que os mesmos não sejam elaborados por uma ótica estritamente financeira.

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