Há alguns anos, um amigo médico, especialista em reprodução humana, contou-me uma história que nunca esqueci.
Durante um congresso internacional, conheceu os resultados de uma clínica que apresentava um índice de sucesso em fertilização muito superior ao observado pelo mercado.
A diferença era tão expressiva que ele voltou ao Brasil convencido de que precisava rever sua própria operação e buscou entender o que aquela clínica fazia de tão diferente.
Tempos depois, descobriu.
A tal clínica fazia parte de uma rede e recebia preferencialmente os casos com maior probabilidade de sucesso. Os mais complexos eram direcionados para outras unidades.
O índice era verdadeiro. A conclusão é que estava errada.
E, a meu ver, não havia nada de execrável na estratégia da rede. Houve habilidade na gestão dos indicadores. O problema estava em comparar números aparentemente iguais que mediam realidades distinitas.
Lembrei dessa história ao observar como alguns indicadores e expressões ganharam espaço no vocabulário, supostamente, corporativo.
Ticket médio é um deles.
No varejo, aumentar o ticket médio é um objetivo bastante conhecido. Um supermercado pode trabalhar seu merchandising para estimular a compra de produtos complementares. Uma loja de roupas pode incentivar quem entrou para comprar uma calça a levar também uma camisa ou um acessório.
Em ambos os casos, busca-se aumentar o valor da transação.
Isso é diferente, porém, de simplesmente aumentar o preço daquilo que já vinha sendo vendido.
A distinção parece óbvia, mas nem sempre as pessoas conseguem entender.
O mesmo acontece com índices de conversão, engajamento, produtividade, market share e tantas outras métricas que frequentam apresentações, reuniões e depoimentos à imprensa, a qual, por sua vez costuma comprar o discurso sem contestar, aliás, alguns até usam como títulos de matérias.
Dizer que um indicador aumentou impressiona. Entender por que aumentou é outra história.
Uma empresa pode elevar sua conversão porque ficou mais eficiente ou porque passou a abordar apenas clientes com maior propensão à compra. Pode aumentar a receita média por cliente porque conseguiu vender mais produtos ou porque eliminou da carteira os clientes menores. Pode elevar seu preço porque sua marca passou a valer mais ou simplesmente porque havia espaço para reajustá-lo.
O número pode ser exatamente o mesmo. O diagnóstico, não.
Talvez por isso me incomode um fenômeno cada vez mais comum no ambiente corporativo: a utilização errada de conceitos como acessórios de linguagem.
Expressões que soam sofisticadas são incorporadas ao discurso, repetidas em reuniões e entrevistas pouco importando o correto significado.
E o problema se agrava quando funções que exigem conhecimento específico são ocupadas sem que esse conhecimento esteja suficientemente consolidado. Nesse momento, o vocabulário pode até ajudar a produzir uma boa apresentação, porém, dificilmente ajudará a produzir uma boa decisão.
Marketing, finanças e gestão têm conceitos fundamentais. Conhecê-los não é preciosismo acadêmico. É o que permite interpretar corretamente aquilo que os números estão mostrando.



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