Mantendo a coerência de usar este espaço para temas que envolvam marketing, gestão e geração de valor, não entrarei na seara política para criticar ou louvar candidatos. Evidentemente, tenho minhas preferências. Quem quiser, tente descobri-las. Adianto que pouca serventia terá.
O que quero abordar aqui é a semelhança entre torcedores fanáticos e eleitores igualmente fanáticos.
Há, porém, uma diferença importante: a paixão pelo time do coração não precisa guardar coerência com nossas convicções. Ama-se porque se ama. Não escolhemos um clube depois de analisar balanços, gestão ou qualidade do elenco.
Na política, em tese, deveria ser diferente.
A preferência por candidatos ou correntes políticas deveria se apoiar em valores, indicadores, propostas e algum viés ideológico. É pedir muito?
Provavelmente.
É comum também ver eleitores de direita criticando pessoas de esquerda que possuam boa situação financeira, como se houvesse incoerência nisso. Ora, possuir patrimônio não impede ninguém de defender políticas que reduzam desigualdades.
Da mesma forma, vemos eleitores de esquerda tratando medidas voltadas ao crescimento econômico como antagônicas às políticas sociais. Ora, crescimento, responsabilidade fiscal e proteção social não precisam ser excludentes.
É aí que política, futebol e marketing se encontram.
O marketing sabe que decisões não são exclusivamente racionais: criamos vínculos emocionais, buscamos pertencimento e desenvolvemos lealdade. No esporte isso chega ao extremo a ponto de o clube passar a integrar a identidade do torcedor.
O problema surge quando transportamos essa lógica para terrenos em que a racionalidade deveria pesar mais e o eleitor passa a agir como torcedor.
Se uma pesquisa favorece seu candidato, é confiável; se favorece o adversário, é manipulada. Se a imprensa elogia seu lado, é isenta; se critica, está a serviço do outro.
No futebol é semelhante. Adoramos jornalistas que defendam nosso time. Basta, no entanto, reconhecerem a superioridade do rival para que sua isenção seja questionada. E, quando o resultado não agrada, eleições viram fraudulentas, assim como derrotas viram produto do roubo do juiz.
Claro que jornalistas têm preferências políticas, assim como têm times. Alguns certamente deixam essas predileções contaminarem seu trabalho. Mas atribuir interesses políticos a toda opinião que contrarie nossas convicções já é flertar perigosamente com a burrice.
Outra manifestação desse fanatismo aparece nos debates e sabatinas, nos quais, diferentemente do futebol, não há um placar objetivo. Mesmo assim, os fanáticos proclamam a boa performance de seus candidatos, pouco importando se responderam ao que lhes foi perguntado, tergiversaram ou simplesmente mentiram. Chega a ser divertido observar esse comportamento, especialmente entre aqueles que juram não ser fanáticos. Trata-se de um belo experimento para constatar como a paixão consegue se sobrepor à razão, se é que essa já existiu.
Esse comportamento pode ser explicado, em parte, por um fenômeno bastante conhecido no marketing: o viés de confirmação. Buscamos e valorizamos informações que reforçam aquilo em que já acreditamos.
As redes sociais potencializam o fenômeno. Quanto mais interagimos com determinada visão, mais conteúdos semelhantes recebemos. Podemos até acreditar que estamos nos informando quando, na verdade, estamos apenas sendo confirmados.
O contraditório dá trabalho. Pior: oferece o risco de descobrirmos que o outro lado tem razão em algum ponto.
No futebol, tudo bem. Posso achar meu time o melhor do mundo contra todas as evidências. Faz parte...
Na política, na gestão e no marketing, as consequências são bem mais sérias.
Nessa condução de raciocínio, chegamos a duas condições que nos aproximam perigosamente da idiotice: a generalização e o pavor ao contraditório.
Afinal, convicção não é sinônimo de razão. Embora muitos confundam.






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