terça-feira, 4 de outubro de 2022

Vale tudo pelo conteúdo?

 
A busca por fazer das competições esportivas um gerador de conteúdo tem levado a alguns exageros definitivamente inaceitáveis.
Como forma de justificativa para atos que descaracterizam o esporte, abusam do termo “sports entertainment” – entretenimento esportivo -, sem nem procurarem entender o que isso efetivamente significa.
Para melhor explicar, vamos à origem do termo, que foi cunhado na década de 1980 pelo presidente da WWF (World Wrestling Federation) - agora WWE - com o intuito de descrever a modalidade sob o prisma de marketing e assim aumentar a atratividade junto aos potenciais patrocinadores.  
Podemos ainda enquadrar nessa categoria os Harlem Globetrotters que, de forma divertida, demonstra a habilidade dos jogadores de basquetebol em um ambiente de descontração.
No próprio ambiente mais competitivo, vemos algumas modalidades mudando regras para deixar as disputas mais atrativas. Isso sem falar nas inúmeras ações destinadas à melhoria da experiência de assistir os eventos nas arenas.
Tudo isso é válido, pois, através da busca por mais fãs, se consegue maiores receitas.
Reparem, no entanto, que nenhuma das ações voltadas a deixar a competição com mais cara de entretenimento, abdica da parte mais importante do evento: o esporte.
Esse movimento do "esporte-entretenimento” lembra um pouco, guardadas as devidas proporções, a popularização da expressão marketing esportivo, na qual pessoas que gostam e vivem no esporte, acrescentam o termo marketing, pouco entendendo o que ele significa.
Assim como o esporte é a parte fundamental do sports entertainment, o marketing o é no marketing esportivo.
Não deve haver espaço em hipótese alguma para que competições esportivas sejam vilipendiadas em nome da criação de conteúdo.
O esporte é o negócio fim da atividade, fazê-lo se tornar um entretenimento é o diferencial. Analogamente, podemos citar os supermercados que, com o intuito de ficarem mais atrativos, colocam restaurantes em suas áreas de vendas, porém, o negócio fim continua sendo a comercialização dos itens e não os pratos oferecidos.
Para a defesa do esporte, as federações, confederações e ligas têm papel fundamental. Aqui abrimos um parêntesis para elogiar a Conmebol que, em um jogo da Libertadores, notificou o Facebook por ter colocado “influenciadores digitais” no gramado, sendo que um deles acabou comemorando um gol junto aos jogadores.
Imaginem se os repórteres de campo, em busca de um conteúdo melhor para seus veículos, comecem a ter uma interatividade maior durante o jogo?
A linha que separa a atratividade da seriedade das competições, de fato, é tênue, por isso, antes de se adotar medidas para a busca de conteúdo, é necessário avaliar de forma criteriosa as possíveis consequências tendo sempre em mente que tal busca, jamais, pode chegar às raias de distorcer o esporte.






terça-feira, 27 de setembro de 2022

Federer - o melhor de todos os tempos

O anúncio da aposentadoria do tenista Roger Federer, apontado pela grande maioria como o melhor tenista de todos os tempos, causou certa apreensão no mundo do tênis em função do que ele representa  para a modalidade.
Ah, mas ele não é o tenista que mais conquistou títulos de Grand Slam, ah, mas ele no confronto direto tem mais derrotas do que fulano...
Esses e outros argumentos certamente serão utilizados pelos fãs de outros tenistas para contestar a afirmação de que o suíço é o melhor tenista de todos os tempos (GOAT - Greatest Of All Time), ok, mas lembramos que ser o melhor não significa ser invencível ou infalível.
Além do que, os pró-Federer poderão rebater com outras tantas estatísticas que só servirão para cada lado “achar que ganhou a discussão”.
Trazendo para o mercado corporativo, qual gestão corporativa é melhor? Aquela que aumenta receitas, a que ganha participação de mercado, a que aumenta a lucratividade, a que melhora o fluxo de caixa...a quantidade de métricas é vasta. 
Normal, a utilização de números a favor de suas convicções acontece em qualquer segmento da sociedade e na maior parte das vezes é inconclusiva.
Contudo, no caso do Federer, mesmo ciente da pouca eficácia da discussão, creio ser possível utilizar um conceito bastante utilizado no marketing, o da intangibilidade, e considerá-lo o melhor em função de uma particular convicção: a de que aquele que faz algo difícil, mas que aos olhos dos outros é percebido como fácil é alguém diferenciado e, quando essa mesma pessoa consegue resultados excelentes atuando dessa forma, apontá-lo como o melhor guarda grande dose de coerência.
Os movimentos e jogadas do Roger fazem com que qualquer espectador considere fácil jogar tênis, nenhum outro jogador executa movimentos tão elegantes e perfeitos. Elegância que se estende à postura pessoal dentro e fora da quadra, a qual referenda a tese de que para se fazer o julgamento acerca de quem é o melhor, é fundamental considerar o máximo de aspectos que formam um atleta.
A riqueza obtida pelo tenista, segundo alguns levantamentos, aponta para algo na faixa de 1 bilhão de dólares, apesar de relevante, o que chama mais atenção é que a maior parte desse valor advém de contratos e patrocínios, de forma que a premiação obtida pelos 103 títulos, 20 Grand Slams e 1251 vitórias equivalem a um percentual na faixa de 15% do total arrecadado através do tênis.
Marcas como Mercedes Benz, Lindt, Rolex, Net Jets, Moet Chandon, Rimowa, Barilla, Credit Suisse, Wilson e Uniqlo são algumas que entendem a importância de ter Federer como seu embaixador, pois reforça os valores que as posicionam. A propósito, muitos, se não a totalidade desses patrocínios continuarão vigentes mesmo após a aposentadoria, fato que agrega mais argumentos à nossa tese de ser ele o melhor tenista de todos os tempos.
Por fim, deve ser relatado o respeito e admiração dos principais rivais, tendo aqui como maior expoente Rafael Nadal que, apesar da rivalidade, sempre demonstrou prazer e reverência em jogar contra o suíço. Aqui peço licença poética para chamar o espanhol de o "outro melhor de todos os tempos", equiparação atingida pelos resultados e, principalmente, por suas lágrimas na despedida do amigo-rival.
Uma pena que esse dia tenha chegado, pois, embora seja um ciclo natural, a sensação de que não o veremos em quadra no próximo Grand Slam deixará, pelo menos por algum tempo, a sensação de que parte da graça acabou. 





terça-feira, 20 de setembro de 2022

Eu falo! Você entende?

Os que costumam ler esse blog certamente já perceberam sua forma insistente de ressaltar o conceito de marketing, fazendo sempre questão de esclarecer que não se trata de vendas, tampouco de comunicação.
Essa insistência pelo esclarecimento pode até fazer parecer que a comunicação, uma ferramenta a ser adotada  - ou não - pelo marketing, tenha uma importância menor, o que não é verdade.
Tomando o máximo de cuidado para não cometer injustiças, muito menos criar algum tipo de hierarquização entre áreas, exploraremos nesse artigo o quanto a comunicação é importante em todas as esferas da sociedade, inclusive para o marketing.
Por ser algo que habita o cotidiano de todos, tem sido usual encontrar "curiosos" que desprezam a técnica necessária para exercer funções inerentes à área atuando como especialistas no assunto e cometendo erros crassos. O cerne desses está ligado principalmente à negligência em relação ao entendimento dos hábitos e perfis de quem precisa ser impactado, o que é algo relativamente simples de resolver, basta estar atento à eficácia ao invés de simplesmente à estética.
Em peças publicitárias não é incomum encontrar letras pequenas em material destinado a públicos mais maduros, assim como não é raro nos depararmos com textos extensos em espaços onde o público que por ali passa o faz em velocidades que não permitem a leitura do todo.
Ah, ainda nesse contexto, não há como deixar criticar os materiais até plasticamente bonitos, mas onde os fundos não propiciam o devido contraste com as fontes dos textos.
Até em nosso cotidiano, por mais cuidado que tentemos ser, incorremos muitas vezes em erros de comunicação. Assuntos que dominamos são por nós interpretados como de conhecimento geral e, mesmo cientes dessa situação não conseguimos alinhar o conteúdo da fala para adequá-la à compreensão dos ouvintes, ou pelo menos da maioria deles.
Tão grave e difícil é o policiamento acerca dos termos a serem utilizados. Toda profissão incorpora jargões facilmente entendíveis entre os “iguais”, mas que deixam os pouco afeitos ao tema perdidos. Por mais que não sejam idiomas oficiais, não há como negar a existência do “economês”, do “juridiquês” e do “marketês”, entre outros. Aliás, há profissões que até nos levam a cogitar a existência de um próprio alfabeto, como bem ilustram as letras de médicos.
E não nos esqueçamos das siglas. Sim, por mais que sejam óbvias para os que com elas convivem, a realidade contrapõe essa obviedade.
As inúmeras situações descritas acima servem, de fato, como alerta para equívocos que se incorporam ao nosso dia a dia e pouco percebemos. Aliás, é bastante provável que vários artigos desse blog, incluindo esse, apresentem falhas que aqui mesmo apontamos. 
Dessa forma, reiteramos que, mais importante do que estética e sacadas criativas é a identificação do público a ser atingido e suas respectivas características em termos de hábito, interesse e perfil.




terça-feira, 13 de setembro de 2022

Marketing para fanáticos

 
A proximidade das eleições tem nos feito novamente refletir sobre um ponto que deveria nortear todo gestor de marketing: o comportamento do consumidor.
Em um primeiro momento, nosso exercício sobre o tema buscou equiparar os candidatos a um produto e os eleitores como os clientes responsáveis pela escolha. Nessa analogia evocamos os 4 P’s de marketing, entendendo que o P de ponto não proporciona nenhum diferencial, afinal as opções estão disponíveis a todos, e o P de preço idem, ainda que futuramente talvez fosse possível ter alguma noção do quanto pode ter custado a escolha. Assim haveria algum tipo de variação apenas no P de publicidade e no P de produto, embora seja muito difícil atestar a veracidade/viabilidade das propostas apresentadas - quando elas existem, é claro.
Após inúmeras observações sobre as motivações que levam a escolha de um candidato, entendemos que, infelizmente, o ato de votar tem sido para grande parte dos eleitores uma manifestação de paixão que chega muitas vezes às raias do fanatismo. Nesse contexto, não seria absurdo supor que o comportamento desses "eleitores" mais se assemelha ao de um torcedor do que o de um cidadão consciente das necessidades do local que habita.
Por mais triste que possa parecer essa comparação, as situações que levam a encampá-la aparecem a todo momento.
Qual torcedor nunca reclamou do árbitro? Qual torcedor nunca achou que a imprensa protege descaradamente o time adversário?
Trazendo para o universo da política, quem já não se deparou com eleitores se referindo a veículos de comunicação como lixo e/ou culpando os poderes judiciários por alguma conjuntura que o desagrade?
Em tempo, é mandatório esclarecer que não vai aqui nenhum tipo de juízo de valor acerca das instituições e entes citados, apenas sobre a similaridade das reações a respeito.
Corrobora para a mesma suposição, o comportamento nas redes sociais, onde as pessoas defendem seus candidatos sem nenhum embasamento mais elaborado, simplesmente repetindo ou encaminhando mensagens que deixem seus “heróis” como seres infalíveis que nunca erram e estão sempre com razão. 
Como parte desse processo, vemos o país se transformar de uma hora para outra em um celeiro de especialistas em cibersegurança, que sabem tudo sobre urnas eletrônicas, hackers e fraudes, nem que para isso precisem se utilizar de argumentos infelizes, os quais só servem para mostrar os limitados conhecimentos que possuem e para agrupá-los junto aos demais membros da torcida organizada contra ou a favor de algum candidato.
Não podemos nos esquecer dos “médicos” que, mesmo sem terem cursado medicina, são taxativos sobre remédios, tratamentos e vacinas.
Reiteramos que não vai aqui nenhum juízo de valor sobre as posições, apenas sobre o pouco valor que dão à própria credibilidade quando se trata de defender o político de estimação ou de coração.
Tais posturas remetem à brincadeira que costuma ser feita quando comparamos nosso time ao do rival, onde, sob nossa ótica, nossos jogadores são melhores do goleiro ao ponta esquerda. E o pior é que alguns até acreditam na própria avaliação passional.
As consequências desse tipo de comportamento são péssimas e entre elas estão: 
- o aumento da polarização, visto que a outra parte, ao perceber o radicalismo sem embasamento, passa a agir de forma idêntica, encampando posicionamentos tão absurdos quanto os dos "adversários".
- fazer com que que as perspectivas de desenvolvimento e melhoria tendam a zero, visto o contentamento advir de quem sugeriu/implantou a solução e não da solução em si.
Nesse cenário, criar estratégias de marketing para atrair quem tem o comportamento calcado no fanatismo só faz sentido se abdicarmos dos aspectos racionais e incentivarmos a adoração a símbolos, frases feitas e costumes, mesmo que na prática não sejam seguidos.
Um perigo!












terça-feira, 6 de setembro de 2022

Serena - a maternidade e a carreira

Na 3ª rodada do US Open 2022, a tenista Serena Williams fez seu último jogo como profissional. Ao longo da sua carreira conquistou quatro medalhas de ouro olímpicas, 23 torneios de duplas, 73 de simples, incluindo 23 Grand Slams, ficando aqui a uma conquista de igualar o recorde da australiana Margaret Court.
Esse título que faltou em nada arranha a trajetória vencedora de Serena, mas a busca por essa derradeira conquista serve como pano de fundo para o que pretendemos abordar e provocar as devidas reflexões.
Seu 23º Grand Slam foi o Australia Open de 2017, quando tinha 35 anos e, soube-se depois, estava grávida. A interrupção para a gestação fez com que o retorno aos Grand Slams acontecesse em 2018.
Desde então participou de 14 desses torneios e ficou de fora de cinco. Chegou a três finais e foi eliminada na 1ª rodada em outros três. O quadro ao lado mostra sua trajetória sob essa ótica.
Será que se a gravidez fosse adiada, ela não teria igualado ou até superado o recorde de conquistas? É muito provável que sim!
Será que se tivesse ficado grávida mais nova, o número de títulos seria maior? Talvez!
Dúvidas a respeito do momento e da intenção em engravidar costumam acontecer a todo o momento, pois, ao contrário dos homens que voltam rapidamente às suas rotinas, as mulheres têm um retorno mais lento. Se ficar longe do filho é difícil sob qualquer circunstância, imaginem para quem ficou com ele nove meses no ventre e alimentou outros tantos.
A tentativa de conciliar o “emprego” de mãe com as outras atividades não é tarefa fácil. Sensações de remorso, preocupação com o desempenho em cada uma das funções, dúvidas sobre a recuperação física e certamente inúmeras outras que fogem ao conhecimento da maioria dos homens habitam o pensamento das mulheres.
Isso sem falar das inseguranças quanto ao que virá acontecer. Será que a empresa não vai privilegiar um homem para exercer determinado cargo, já que ele não fica grávido? Dúvida absolutamente pertinente e que receberá, infelizmente, como resposta a palavra “depende”. 
Sim, é triste e revoltante admitir que dependerá da cultura da empresa e dos seus líderes. Os incompetentes, de fato, priorizarão o curto prazo e focarão a entrega imediata, negligenciando a importância da diversidade, o lado humano e, principalmente, as qualidades que agregam valor independentemente da presença física integral.
Voltando à Serena Williams, sua saga para voltar à supremacia incontestável que ostentava até interromper a carreira é um ótimo exemplo de conduta. Mesmo tendo que superar os obstáculos da preparação pós-parto – onde teve complicações seríssimas -, o peso da idade, o surgimento de novos concorrentes e da gestão de seu tempo, a jogadora norte-americana não desistiu, tentou e quase conseguiu o título. Por outro lado, mostrou que a gravidez, independente do momento, é tão gratificante que eventuais frustrações esportivas, ou mesmo corporativas, são muito pequenas diante da dádiva e da responsabilidade de dar a vida a alguém.
Em tempo, é preciso registrar que a opção pela “não maternidade” é legítima e entendível. A intenção do texto foi mostrar através do exemplo de uma supercampeã que sucesso e maternidade não são situações excludentes. 







terça-feira, 30 de agosto de 2022

Patrocinador pode tudo?

Se fôssemos tentar fazer um exercício de quantificar as propostas de patrocínio que são elaboradas, enviadas, recebidas, analisadas e implementadas diariamente, desistiríamos no primeiro momento tamanha a fartura.
Por outro lado, se tal exercício incluir aspectos qualitativos, ou seja, se forem considerados pontos relativos à viabilidade, compatibilidade e retorno verdadeiro, a quantidade diminui de forma exponencial.
Nesse argumento, incluímos os responsáveis pela ativação do patrocínio que, muitas das vezes, pensam apenas na melhor forma de a marca se destacar sem se importarem com eventuais impedimentos legais, cujas desobediências podem trazer prejuízos pecuniários e de imagem superiores aos investimentos na iniciativa.
Recentemente foi divulgado que a World Surf League entrou com ações legais contra o Café Santa Monica por esse se intitular como um dos patrocinadores da QS (Qualifying Series) da etapa de Ubatuba do Circuito Banco do Brasil de Surf, quando, na verdade, era apenas o apoiador de um dos stands presentes no evento.
Não cabe fazer juízo de valor sobre as causas que levaram ao equívoco, no entanto, vale listar algumas implicações sobre o ocorrido: (i) os reais patrocinadores foram nivelados em algum momento à marca que não comprou os direitos; (ii) os varejistas podem ter comprado o citado café na expectativa de uma demanda impulsionada pelo patrocínio; (iii) é factível considerar que esses mesmos varejistas deixaram de comprar alguma marca de café da concorrência para dar espaço ao Santa Mônica, prejudicando assim a marca preterida e o giro objetivado na categoria.
Tal tipo de “confusão”, que se registre, não é exclusividade do citado café. Várias marcas, por patrocinarem atletas ou confederações que estão ou estarão nos Jogos Olímpicos, se acham detentores dos direitos de usar os símbolos olímpicos.
Há também marcas que se apoderam da imagem de atletas sem o devido direito. Nos Jogos de Atenas, uma grande marca de bebidas patrocinou a seleção olímpica de ginástica do Brasil, porém, interpretou que essa propriedade se estendia à utilização das atletas individualmente. Baseada nessa crença, desenvolveu uma série de ações, desde peças publicitárias até promoções, nas quais tampinhas que contivessem a imagem de uma das atletas daria direito a prêmios. O problema se agravou quando a marca – uma empresa do setor de telecomunicações - detentora dos direitos individuais de algumas atletas exigiu que o contrato fosse respeitado, o que redundou num enorme prejuízo para a marca de bebidas.
Generalizar o julgamento sobre a motivação para os equívocos redundaria em outro. Há, de fato, os que agem por má fé, o que não é exclusividade do marketing, e sim da sociedade de forma geral. Contudo, existem casos em que os responsáveis pela área de marketing não têm a devida capacitação para avaliar as implicações que as ativações podem originar e vão em frente no ímpeto de extrair o máximo de retorno sobre o investimento.
A solução para acabar com esse tipo de problema não é complexa. Ela passa mandatoriamente pela qualificação dos profissionais envolvidos, os quais, antes de qualquer decisão, ainda que eventualmente prejudique a velocidade, buscará pareceres jurídicos para ao menos ter noção das possíveis implicações.









terça-feira, 23 de agosto de 2022

Modismo como argumento

Estar na moda significa seguir um comportamento adotado pela maioria das pessoas, definição que é corroborada através da estatística, onde o termo “moda” faz referência ao valor mais frequente de uma dada amostra. 
Quando se trata de escolher uma forma de vestir é até mais seguro seguir a maioria, pois, mesmo que as peças utilizadas tenham uma estética discutível, elas fazem parte de um contexto onde o certo e o errado não passam de julgamentos subjetivos, muitos dos quais sem explicações lógicas.
Contudo, a opção de “seguir a maioria” nem sempre é a melhor opção quando se trata de investimentos. 
Quem não se lembra da febre das iogurterias quando se encontravam uma dessas lojas em cada esquina. Por mais que fosse um produto atrativo, acabou saturado pela enorme oferta. Muito provavelmente aqueles que investiram na iniciativa, fizeram acreditando se tratar de algo promissor, afinal muita gente estava aderindo.
No meio corporativo, a situação chega às raias do hilário quando se vê organogramas abrigando posições, em tese, da moda, mas cujas funções não guardam a menor relação com o significado da disciplina. 
Poucas empresas nos dias de hoje abdicam da posição de marketing em sua estrutura, contudo, da grande maioria que ostenta a “caixa de marketing”, poucas a utilizam na essência de sua definição. A propósito, vale citar o aparecimento de outra função, a de “growth”, ainda pouco incorporada, mas que em breve virará moda nos organogramas e, assim como o marketing, não será explorada na sua magnitude.
Exemplos que ilustram as consequências dos “modimos” não faltam, mas para não nos estendermos em outras vertentes, vamos falar agora de futebol, mais precisamente do movimento que os clubes brasileiros fizeram na busca por um técnico estrangeiro.
Sim, os resultados obtidos por um treinador português quando dirigia o atual vice-campeão carioca levou à conclusão de que os profissionais brasileiros se encontravam num patamar inferior, desencadeando assim uma busca desenfreada por técnicos estrangeiros. 
O processo seletivo, se é assim que podemos nos referir às contratações, passou a adotar como requisito a nacionalidade do profissional.
Claro que a experiência em mercados mais “maduros” no tocante a planejamento e estrutura se constitui num diferencial, porém resumir as escolhas simplesmente a isso é errado, pois negligencia as demais características tanto do treinador como das instituições e do próprio campeonato.
Como as expectativas ficaram distantes da realidade, a certeza absoluta do sucesso em função da nacionalidade vem se acabando, o que era de se esperar, todavia, há o risco de se incorporar uma nova certeza: a de que técnicos brasileiros é que resolvem. Outro erro, desculpem. 
Enquanto os clubes ficarem procurando “fórmulas mágicas e infalíveis” ao invés de desenvolverem um processo bem elaborado para análise de recursos humanos, o modismo acabará prevalecendo até como forma de “terceirização de erros”, visto bastar usar o exemplo de outro clube para justificar a contratação que não deu certo.
Em tempo, é preciso dizer que critérios de escolhas perfeitos não existem, mas quanto mais científicos, menor a chance de se cometer equívocos.





terça-feira, 16 de agosto de 2022

A importância da pontualidade

Faltando pouco mais de 100 dias para o início da Copa do Mundo no Qatar, a data da abertura foi antecipada em um dia.
Para alguns, tal alteração não tem muita importância, dentre esses estão aqueles que acham que 5 minutos de atraso não pode ser considerado atraso e que a cobrança pela pontualidade nada mais é do que um capricho dos que preconizam o respeito ao combinado.
Para ilustrar as consequências do "não cumprimento" do que se é combinado, analisaremos a seguir as implicações do citado adiantamento da abertura da Copa.
No que tange à comunicação, as campanhas referentes à contagem regressiva foram impactadas tanto no âmbito da produção dos materiais publicitários, pois poderia haver o risco de as peças não estarem prontas a tempo, como também no espaço onde elas seriam divulgadas - em outras palavras, o processo de compra de mídia foi fortemente impactado. 
Exemplificando, as veiculações alusivas aos 100 dias que faltavam para o início do evento precisaram estar nas grades dos meios de comunicação no dia X-100, não havendo a menor possibilidade de ser X-101, todavia, pelo pouco tempo para se adequar à alteração, é bem provável que não houvesse espaço disponível.
Esse problema não se restringe às ações do comitê organizador, atingindo também aos patrocinadores que, ao decidirem pelo investimento, idealizam um cronograma de ações, muitas das quais atreladas às estratégias comerciais as quais, por sua vez, envolvem negociações com fornecedores e revendedores.
Além das implicações referentes a ativações e publicidade, não podemos esquecer-nos dos problemas relacionados às reservas de hotéis, até porque a oferta de quartos tem sido motivo de preocupação no Qatar. 
Será que haverá disponibilidade de acomodações para quem quiser/precisar antecipar suas hospedagens? Essa dúvida pode ser derivada para os voos.  Não menos importante é a agenda dos que compraram os ingressos, pois pode ser que não consigam alterá-la.
São pontos que causam transtornos e que poderiam ser evitados, visto que a motivação da mudança não se deveu a problemas estruturais, tampouco de fenômenos naturais. A antecipação se deveu à decisão de preservar a tradição de ter a equipe do país-sede jogando a primeira partida da competição, ou seja, houve tempo de sobra para que o fato fosse considerado no planejamento.
Fazendo um paralelo com as pessoas que insistentemente não cumprem os prazos combinados, o processo costuma ser o mesmo. Não planejam seus afazeres e caminhos, desprezam a possibilidade de adicionar um intervalo para eventuais imprevistos e estendem-se em tarefas desnecessárias e/ou adiáveis.
Pior que isso, ignoram as demais partes do acordo, esquecendo que as mesmas abdicaram de algo para que o prometido fosse cumprido. Tais quais o comitê organizador, parecem pensar: “os outros que se virem”.
Para esses nunca é demais repetir um provérbio inglês que diz: "a pontualidade é a cortesia dos Reis e a obrigação dos educados." 








terça-feira, 9 de agosto de 2022

Omo, Hellmann's...

Se propusermos um exercício ao leitor acerca das semelhanças que as marcas citadas no título guardam entre si, certamente não haverá muitas surpresas. São marcas facilmente encontradas no setor varejista, produzem itens de reconhecida qualidade e pertencem à Unilever. 
O que talvez possa passar despercebido é que ambas fizeram movimentos que incorporam serviços a elas, até então reconhecidas como estritamente de produtos.
A Omo, marca voltada à higiene e limpeza, tem investido em modelos de lavanderias através da compra de redes, da franquia de unidades e da instalação de máquinas de lavar em condomínios, seguindo, nesse caso, o conceito do compartilhamento cada vez mais presente nos dias atuais. 
Nesse processo de acompanhar tendências, a marca também oferece sistemas de assinaturas para incrementar as receitas recorrentes e utiliza equipamentos que privilegiam a sustentabilidade em termos de dispêndio de água e energia.
Com essas iniciativas a Omo fortalece a associação de seu produto à limpeza, aumenta a exposição da marca e ganha participação de mercado. Esse último ponto é, no meu modo de ver, o mais genial, pois, ao incentivar a lavagem de roupas fora de casa em suas "lojas", tira do cliente a opção de comprar produtos da concorrência, ou seja, a ação se dá mandatoriamente com os produtos Omo.
Já a Hellmann’s, marca mais conhecida em função de suas maioneses, lançou recentemente uma hamburgueria em versão digital, na qual incorpora ao cardápio idealizado por renomados chefs sua gama de molhos. Dessa forma, associa seus produtos às melhores receitas e constrói relacionamentos com clientes que, muitas das vezes, não frequentam os pontos de vendas onde os produtos Hellmann’s estão disponíveis. Acrescente-se a isso, o fato de poder ofertar todo seu portfólio -  o que muitas vezes não é possível no varejo em função da concorrência que briga por espaço e verba de compras -, e cria mais um ponto de contato que permite obter de forma rápida feedbacks sobre seus produtos.
Há espaço aqui para argumentar que, ao contrário da Omo, onde o cliente que usa a lavanderia estará obrigatoriamente consumindo o sabão em pó e o amaciante da marca, no caso do hambúrguer, por ser consumido em um ambiente não controlado pela Hellmann’s, existe a possibilidade de se agregar molhos de outras marcas, fato que, mesmo sendo factível, em nada atrapalha os objetivos definidos para a iniciativa.
Sem acesso aos valores de investimentos, custos e receitas com vendas, não temos como avaliar os retornos das operações citadas, mesmo porque, há aspectos a serem considerados que não constam nos demonstrativos de resultados como os relativos ao fortalecimento das marcas e interação com os clientes, entre outros, porém, não restam dúvidas que ambas as iniciativas se apresentam bem coerentes e com foco no mercado.
Para dar respaldo a essa opinião, vale mencionar que algumas marcas de luxo como Gucci e Louis Vitton também partiram para a linha de serviços abrindo restaurantes em localidades como Saint-Tropez e Beverly Hills.










terça-feira, 2 de agosto de 2022

Isso não tem nada de mais?

Isso não tem nada de mais! Mas qual o problema? Fulano é correto! Não há nenhuma má intenção.
As frases proferidas acima costumam ser utilizadas como justificativas para atos que, mesmo não estando de acordo com os padrões éticos estabelecidos, recebem cargas de benevolência, cujas causas podem estar relacionadas à simpatia pelo autor do ato ou pelo histórico/frequência com que ocorre.
Para ilustrar tais situações, usaremos dois casos do esporte. O primeiro envolve o jogador do Barcelona, Gerard Piqué, sócio também de uma agência de marketing esportivo, a Kosmos, que intermediou o contrato relativo ao novo formato da Supercopa da Espanha, negociando os valores que cada clube receberia, assim como sua comissão pela operação. 
Diante dos salários auferidos ao longo da carreira e do histórico, até então livre de acusações quanto à correção, é bem provável que o zagueiro catalão não necessitasse de estar envolvido nessa operação.
Ainda que seja óbvio o conflito de interesses, a imprensa de Barcelona defendeu seu craque, enquanto a de Madrid teceu críticas.
Aqui fica evidente a influência da paixão na avaliação sobre os atos.
O segundo incidente diz respeito à denuncia de que o Boca Juniors presenteou previamente os árbitros de sua partida contra o clube boliviano Always Ready na fase de grupos da Libertadores 2022, sendo que a mesma foi decidida por um pênalti duvidoso a favor do clube argentino.
Segundo se comenta nos bastidores do futebol, tal prática é usual, vários clubes a fazem. Não se discute a intenção, até porque, em muitos das vezes, os próprios árbitros solicitam camisas dos times como lembranças.
Evidentemente que, mesmo que não haja nenhum tipo de influência na condução da competição, a prática depõe contra os padrões éticos que deveriam nortear as relações de conduta.
Assim chegamos a um termo bastante em voga nas grandes organizações: o compliance, que significa “obedecer” uma regra.
E se não existe regra definida? Boa pergunta! Na verdade, o termo engloba também os padrões éticos.
Talvez aqui resida o ponto nevrálgico da discussão: as possíveis interpretações para o termo “ética”, visto que, por conveniência e/ou ignorância a avaliação nem sempre é a correta.
Como já foi escrito acima, muitos julgamentos acerca do que é certo ou errado sofrem a influência da afinidade com os envolvidos, da vida pregressa do mesmo ou do quão normal o ato se tornou em função da frequência com que ocorre.
Diante desse quadro, é de fundamental importância que leis, normas, regulamentos e afins sejam escritos, divulgados e incorporados ao meio que se referem.
Por mais que pareça desnecessário estabelecer normas de condutas em nome de um suposto bom senso individual, esse não é padrão. Quem já presenciou alguém admitir que tenha mau senso? ´
Isso fica bem evidente no ambiente corporativo, onde muitas empresas aplicam quiz aos seus colaboradores como forma de aculturá-los com os conceitos de compliance. Os resultados, mesmo numa plataforma sem pressão e demais interesses envolvidos, assustam, tamanho a quantidade de respostas em não conformidade com o que é preconizado.
Além disso tudo, a triste realidade é que existem pessoas que realmente acreditam que certos atos, claramente em desacordo com os princípios morais, não têm nada demais. Por mais que seja um problema de índole, tais pessoas certamente passarão esses conceitos para seus filhos que, provavelmente, repassarão aos descendentes e assim por diante.
Voltando ao início do tema, a expressão “isso não tem nada de mais” é um bom gancho para concluirmos que, na verdade, tem é de menos. Menos educação, menos códigos de conduta e menos cumprimento ao que se é estabelecido.











terça-feira, 26 de julho de 2022

Discutindo pesquisas

O passar dos tempos faz com que sejamos mais seletivos, o que inclui até as escolhas dos debates. Por mais que tenhamos argumentos irrefutáveis sobre certos assuntos, muitas vezes, dependendo do interlocutor, é melhor se calar. 
Nessas horas, devemos ter como mantra a frase: “mais burro é o sujeito que tenta ensinar um cavalo a falar inglês do que o cavalo que não aprende”.
Dentre os assuntos que não vale a discussão estão as pesquisas no Brasil, aqui destacam-se as eleitorais e, mais recentemente, as sobre os tamanhos das torcidas dos times de futebol.
As eleitorais costumam ser taxadas de “fraudadas” se o resultado apontar o candidato adversário à frente e "corretas" quando o inverso ocorre. Ainda que as metodologias possam ser questionadas, condenar peremptoriamente resultados cristalizados em forma de tendências deixam evidente o quanto a paixão e/ou o fanatismo afetam a capacidade cognitiva das pessoas.
Já as contendas acerca do tamanho das torcidas são ainda piores, pois, ao contrário das eleições, onde quem tiver mais votos vencerá o pleito, o fato de se ter mais torcedores não implica em conquista de títulos, tampouco em garantia de vitórias frequentes.
Aqueles que torcem para os times ditos com maiores torcidas poderão argumentar que a quantidade de torcedores está correlacionada ao aumento de receitas advindas de bilheteria, de direitos de transmissão e de "marketing". 
De fato, uma maior quantidade de torcedores engajados – engajamento não costuma ser mensurado nas pesquisas – proporciona um potencial maior de receitas, todavia, isso dependerá do preço dos ingresso, do poder aquisitivo dos torcedores, da capacidade dos estádios onde ocorrerem suas partidas e da experiência que o espetáculo proporciona.
Quanto aos direitos de transmissão, temos que considerar que está havendo uma mudança nos critérios de divisão, de forma que o tamanho da torcida passa a ter menos peso na distribuição – o que talvez seja reflexo da maior consciência acerca da difícil mensuração.
Já no que tange ao "marketing", a argumentação parte da premissa de que os clubes de futebol não comercializam patrocínio e sim espaço publicitário, pois acenam como retorno o número de  aparições espontâneas do uniforme para “venderem” aquela propriedade. Agindo assim, ignoram que estão entrando em um mercado disputado por grandes players especializados na comercialização de mídia e que um clube de futebol tem em sua marca valores riquíssimos que, certamente, são atrativos e valiosos para as marcas que poderiam o patrocinar. 
As receitas obtidas através das vendas de produtos licenciados têm peso pequeno nas contas dos clubes, visto que, além de dependerem da oferta – qualidade, quantidade, sortimento, preço e distribuição –, proporcionam margem pequena.
Então quer dizer que o tamanho de torcida não importa? Resistindo à tentação de fazer analogia à anatomia, acho mais prudente responder que favorece, mas não é garantia de performance, pois, é fato de que não existe a tal correlação perfeita entre torcida e receitas.
Convém esclarecer que, embora essas últimas reflexões tenham como base as pesquisas publicadas sobre tamanho de torcida, isso  não significa admitir que as mesmas traduzam perfeitamente o universo de fãs, visto que, como já foi escrito anteriormente, seria necessário segmentar a amostra em critérios qualitativos de engajamento, afinal há uma diferença muito grande entre ser torcedor e ser simpatizante. 
Todavia, ainda que ocorram falhas de metodologia e, talvez, até de definição amostral, são números a serem considerados e analisados, desde que, é claro, sejam repetidos numa frequência na qual se consiga identificar tendências ou mesmo concluir que não oferecem nenhuma credibilidade. Sim, a frequência é fundamental para evitar situações em que se constata, pasmem, que certos times, grosso modo falando, perderam cerca de 600 mil torcedores em quatro anos, um verdadeiro genocídio.









terça-feira, 19 de julho de 2022

Adidas sem adidas


O ano de 2022 será considerado um marco para a história da adidas. Dessa vez o acontecimento não estará relacionado aos produtos por ela desenvolvidos, nem aos resultados dos atletas/equipes que a vestem,  mas sim à alteração em sua logo, pois, mesmo a marca tendo sido atualizada ao longo do tempo desde 1949, essa será a primeira vez em que o nome não aparecerá em sua representação. 
Embora as logos que trazem apenas símbolos transmitam uma conexão mais pessoal e uma identidade mais moderna, as marcas para chegarem nesse ponto precisam estar muito seguras quanto ao seu reconhecimento sem a escrita.
Ao compararmos a adidas com sua principal concorrente, a Nike, vemos que a empresa alemã levou 73 anos para abdicar do texto, enquanto a norte-americana abandonou o nome em 1995, lembrando que a empresa foi fundada em 1964, mas só em 1971 adotou o soosh – símbolo que a caracteriza.
Fora do segmento de produtos esportivos, há outros casos que ilustram o movimento destacado.
A Mastercard, fundada em 1966, só abdicou do nome na logo meio século depois, enquanto a Starbucks, cuja primeira loja foi inaugurada em 1971, tirou o nome apenas em 2011, nesse caso houve também a influência da incorporação de novos produtos diferentes do café ao cardápio. 
O Mc Donald’s, que passou a adotar o M como representação dos arcos dourados em 1960, aboliu o nome 35 anos depois.
Por ser uma decisão bastante complexa, o número de empresas que optam por essa, digamos, ousadia, ainda não é muito significativo.
Contudo, é preciso estar atento a dois fatos que vêm acelerando esse processo: (i) o mundo digital, onde até aplicativos requerem símbolos como meio de identificação; (ii) a  globalização, visto nem sempre a pronúncia de um nome ser igual em todos os países.
A propósito, empresas do setor de tecnologia, principalmente as mais novas, costumam ser mais ágeis nesse processo, vide o caso da Apple, por exemplo.
Além de uma suposta maior coragem, a maioria dessas marcas tem um grande orçamento, códigos gráficos e simbólicos bem solidificados e forte orientação ao marketing.
A observação acima serve, sobretudo, como alerta para as empresas que, ao invés de entenderem o processo de evolução de uma marca, usam alguns dos casos citados como benchmarking esquecendo, porém, que existem etapas a serem cumpridas. 
Quando se lida com marcas, a pressa tem importância pequena, sendo mais recomendável dedicar tempo a estudos e pesquisas junto a todos os elementos que fazem parte da jornada de consumo.
Outro ponto de atenção diz respeito ao segmento em que a empresa atua, pois, em alguns deles, como o de bens de consumo, a escolha do produto se dá na maioria das vezes no ponto de vendas e, nesse caso, o nome bem identificado da marca/produto é essencial, ainda que as cores da embalagem e a logo sejam sedutoras. Acrescente-se que o nome em destaque contribui para a sinergia entre os demais produtos da marca. Sob o prisma em questão, é recomendável  observar o que costumam fazer as empresas líderes para dimensionar, posicionar e escrever – sim, a fonte utilizada é fundamental – o nome de suas marcas, jamais esquecendo que uma embalagem simplesmente  bonita não é sinônimo de boas vendas.













terça-feira, 12 de julho de 2022

Fred Etern9


Despedidas são complicadas, emocionam, servem como um aviso formal de que um ciclo se encerrou e que não mais acontecerá. Escrever a respeito é mais difícil ainda, principalmente quando o personagem é o maior ídolo que vi no Fluminense.
Não há nessa escolha do melhor, que fique bem claro, nenhum menosprezo aos demais, até porque é uma mera opinião, baseada em valores identificados nas atitudes do craque. Em suma, um clube centenário como o Flu teve centenas de ídolos, todos enormes, mas nesse momento, para mim, o Don é o maior.
Passemos então às razões da escolha, ressaltando que outras, talvez, tenham sido esquecidas e/ou estejam apenas no subconsciente impossíveis de serem transcritas: 
- Nunca jogou por um rival regional do Fluminense, o que é extremamente valorizado, principalmente pelo fato de o futebol ser um ambiente onde o amor à camisa costuma perder para a necessidade de se fazer dinheiro numa carreira curta.
- Gratidão à instituição, sempre demonstrada ao reconhecer o apoio dado pelo clube após uma Copa do Mundo em que não jogou tão bem e foi tido como um dos vilões do fracasso. 
- Sua capacidade de recuperação, pois mesmo depois das injustiças sofridas conseguiu dar a volta por cima e nesse mesmo ano ser o artilheiro do campeonato brasileiro. Erguer-se depois da queda é tarefa que poucos conseguem.
- Ao sair do Fluminense em 2016, nunca escondeu que a transferência se dava contra a sua vontade. Aqui cabe um testemunho: uma vez o encontrei no aeroporto de Congonhas e começamos a conversar sobre sua saída, eu dizendo o quanto foi ruim e ele narrando o quanto sentia falta da “casa dele” com os olhos marejados.
- Sua generosidade com os mais necessitados e sem fazer publicidade dos inúmeros casos em que ajuda os que precisam.
- Sua opção por estar do lado do certo, independentemente se isso o deixaria contra os que têm o poder ou o dinheiro. Os exemplos aqui não serão narrados, pois haveria que citar nomes ou cargos, o que mancharia um artigo que tem como tônica o ídolo.
- As demonstrações de admiração dos seus colegas e torcida na sua despedida, denotando o quanto é querido e respeitado.
- Inúmeras expulsões e atitudes destemperadas em campo que, vistas pelo lado profissional, podem parecer ruins, mas que são facilmente entendíveis quando fazemos uma reflexão e nos questionamos acerca do que somos capazes de fazer para defender quem amamos.
Alto lá, essa última razão não vai contra o conceito de ídolo que sempre se preconizou?
De fato, no passado, a “descrição de cargo” de um ídolo tinha a “infalibilidade” como requisito, afinal de contas, o ídolo deve ser um exemplo. Todavia, a expectativa por não haver falhas leva à frustração quando essa acontece e arranha a imagem do ídolo, sendo mais razoável e contemporâneo entender que ídolos são seres humanos e não super-heróis, os quais não existem na vida real. 
Por fim, para que não se perca o objetivo de trazer conteúdo sobre marketing e gestão, podemos usar muitas das razões enumeradas acima como benchmarking de carreira, principalmente as manifestações positivas dos colegas e reconhecimento das pessoas ao fim dos ciclos. 








terça-feira, 5 de julho de 2022

Assédios imorais

A notícia sobre o afastamento do, até então presidente da Caixa, banco público brasileiro, por supostamente ter cometido assédios moral e sexual traz à tona um tema que deve suscitar o máximo de atenção de todas as organizações.
Como o próprio título esclarece ambos os assédios são imorais, covardes e denotam a incapacidade do assediador em conseguir seus objetivos através de argumentos convincentes.
Sobre o assédio moral, é preciso esclarecer que, por mais que um superior hierárquico seja focado em resultados, a forma de atingi-los não contempla em hipótese alguma a humilhação e demais demonstrações de desrespeito aos seus subordinados. Não se ignora aqui os eventuais momentos de explosão e conflitos inerentes a qualquer tipo de relação, o que não significa dizer que são certos, mas reconhecer que podem acontecer desde que não ocorram frequentemente e que haja pedidos de desculpas pelos excessos. Além do que, liderar através do medo e de agressões é a forma mais idiota para alcançar objetivos de forma sustentável. Ser enérgico não significa ser desrespeitoso.
Quanto ao assédio sexual, a coisa é ainda mais repugnante por beirar às raias de um estupro, visto estar se forçando uma situação de cunho sexual sem o consentimento da outra parte.
Antes que surja a discussão em torno do falso moralismo da sociedade, é necessário esclarecer que o teor condenatório do artigo não se estende aos eventuais envolvimentos que venham a ocorrer no ambiente de trabalho, caso esses sejam consentidos e não firam as normas de compliance das empresas. 
Contudo, tão condenável quanto os assédios é a tentativa de politizá-los, o que em nada contribui para a sua erradicação.
A pessoa que comete esse tipo de atitude não o faz em função de sua ideologia e/ou partido, ela faz por ser desprovida de caráter, de educação, de moral e de competência entre outras carências. 
Por outro lado, quem a defende seja por qual motivação for, mostra o quão semelhante é com o assediador, visto ser inaceitável, sequer, tolerar esse tipo de atitude.
Será que esses que minimizam o ocorrido o relevariam se o mesmo fosse cometido contra suas mães, filhas ou mulheres?
Difícil responder, talvez condenassem e quisessem até agredir o autor, se esse fosse de uma ideologia oposta. Não causaria espanto, no entanto, se minimizassem o ocorrido se o assediador comungasse dos mesmos discursos políticos. Isso se chama fanatismo, visto estarem tomando posição em função de pessoas e não de atitudes, abrindo mão do direito de estudar, pesquisar, refletir e formar suas opiniões sem preconceitos.
Por mais que fatos passados não sejam garantia para se estabelecer uma avaliação definitiva sobre alguém, afinal existe a possibilidade de evolução e regeneração, esses podem trazer indicadores valiosos para o processo de contratação e retenção de colaboradores, principalmente em cargos com maior representatividade, cujos ocupantes acabam sendo associados à “cara” da empresa, a qual, se for séria, optará por ter em seus quadros pessoas com princípios e valores inquestionáveis.






terça-feira, 28 de junho de 2022

Specialized vai às compras

A Specialized, uma das melhores e mais conhecidas marcas de bicicleta do mundo, anunciou recentemente que passaria a vender diretamente aos consumidores, o que significa dizer que suas lojas, hoje operadas por terceiros, teriam ela como concorrente ou seriam por ela adquiridas.
Esse novo modelo de negócios tem suscitado boas discussões, cujas reflexões ajudam a entender melhor o varejo e o setor de bikes.
Operando através do comércio eletrônico, a marca se torna um forte concorrente das lojas físicas não apenas pela maior disponibilidade de produtos, mas principalmente pelos custos reduzidos com  aluguéis e mão de obra relacionada às vendas, além de reduzir os riscos relacionados ao giro dos produtos. Por outro lado, deixa de oferecer a experiência com o produto físico e os serviços de manutenção, fato que, além de provocar problemas no bom uso, propicia que o cliente procure outras lojas para o serviço e assim tenha maior contato com a concorrência.
Ciente dessa condição, a Specialized tem ido às compras de lojas operadas até então por terceiros. 
Aqui cabem questionamentos acerca da capacidade de uma empresa eminentemente industrial atuar como varejista, afinal o relacionamento com os clientes no ponto de vendas, a definição do mix e a gestão de estoques e de recursos humanos são fatores fundamentais para se obter bons resultados. Deve ainda ser lembrado que a bicicleta comporta componentes que a Specialized não fabrica, o que faz com que ela precise adquiri-los para manuntenção e reparos, deixando a operação ainda mais complexa.
Evidentemente há a possibilidade de a empresa manter como funcionário o proprietário da loja, mas será que a Specialized tem condições de arcar com uma remuneração que o satisfaça sem impactar custos e respectivas margens? Será que o empresário estará disposto a mudar uma condição de maior “liberdade” por outra em que tenha que responder com “obrigações” até então “administráveis”?
Outro ponto que vale ser ponderado é o que diz respeito à capacidade de investimento da marca na aquisição de lojas e o quanto isso impactará no seu caixa e no seu grau de endividamento, o que, certamente, resultará na adoção de um processo de priorização, que deixará de fora algumas lojas, enquanto outras poderão se mexer em busca de alternativas.
Há ainda que se considerar que as marcas concorrentes não adotaram o mesmo modelo, ou seja, se mostram como opções para os varejistas insatisfeitos. 
Por mais que a Specialized seja uma das melhores marcas de bicicletas, lembramos que o conceito “melhor” dá margem para a valorização dos mais diversos atributos, tais como conforto, custo, estética, performance e atendimento, os quais, ao contrário de outros setores, ainda não estão solidamente associados a nenhuma marca.
Mesmo com tantos indícios de se tratar de uma decisão arriscada, é prematuro afirmar que o modelo está fadado ao fracasso, afinal não temos acessos aos números envolvidos nem às devidas projeções. Todavia, baseado no que vemos em outras indústrias, soa como um equívoco ver a indústria se propor a assumir o papel de um canal do qual não tem expertise, se posicionando como concorrente – e não complemento – de um dos principais elos da cadeia de consumo.






terça-feira, 21 de junho de 2022

A SAF e os torcedores

A adoção do modelo da SAF (Sociedade Anônima no Futebol) por alguns times brasileiros têm provocado inúmeras discussões acerca da viabilidade da iniciativa. Ainda que o modelo pareça ser a salvação para os clubes endividados e sem perspectivas de reversão do quadro, há inúmeras falhas em sua redação, porém, não nos debruçaremos aqui sobre elas por envolver análises jurídicas e tributárias, o que não é a proposta do blog.
Cabe, no entanto, abordar o papel da torcida diante do modelo.
Inicialmente precisamos definir para efeito de nossa reflexão a diferença entre cliente e consumidor.
Enquanto o primeiro paga diretamente por algo, o segundo apenas faz uso do produto/serviço sem dispender recursos de forma direta. Guardadas as devidas peculiaridades, seria como diferenciar o torcedor que assiste aos jogos no estádio ou pagando o pay-per-view daquele que acompanha as partidas através da tv aberta.
E como deve ser o comportamento deles diante de uma insatisfação? Antes de respondermos essa pergunta, é necessário indagar o que será reclamado.
As queixas que uma empresa recebe costumam ser a respeito de alguma insatisfação em relação a expectativas sobre os produtos ou serviços consumidos.
Derivando esse racional, podemos afirmar que a expectativa do torcedor é que seu time ganhe todas as competições! Ok, mas é isso que a SAF promete entregar?
Imaginem um cliente – não me refiro a acionista - da Coca-Cola, revoltado pelo fato de o refrigerante ter perdido participação de mercado no canal de auto serviços com até nove check-outs na Grande São Paulo? Ou mesmo que o preço das ações tenha caído?
Ao contrário de uma empresa que atua no mercado, cujo objetivo é lucratividade e onde uma gestão eficaz é capaz de permitir que corporações mesmo sem grande capacidade de investimentos alcancem seus objetivos, no esporte a boa gestão operacional não é garantia de satisfação das expectativas, afinal os concorrentes podem também ser bem geridos, mas apenas um será campeão.
Ajustadas essas perspectivas, voltamos para as reclamações dos torcedores, chamando a atenção que muitos dos insatisfeitos pouco ou nada contribuem para as receitas dos clubes.
Superada essa reflexão, valem alguns questionamentos: com quem o torcedor irá reclamar? Assim como acontece nas empresas haverá um “fale conosco” ou algum tipo de canal para esse tipo de interação? Essa forma de contato será suficiente para amenizar suas insatisfações ou pleitearão um contato físico tal qual é feito atualmente junto a treinadores e jogadores? E se isso acontecer, como reagirão os acionistas dos clubes diante de atos violentos e desproporcionais?
Aí reside o problema, pode ser que parte dos torcedores não entenda o funcionamento de gestões profissionalizadas -  aliás já não entendem como é no clube -, fato que pode vir a afastar aqueles que estejam dispostos a investir no futebol.