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terça-feira, 23 de junho de 2026

Pausa para...Reflexão

Uma das novidades da Copa do Mundo de 2026 foi a introdução da pausa para hidratação, o chamado cooling break, justificada pela necessidade de amenizar os efeitos do calor sobre os atletas.
É verdade que nem todas as partidas são disputadas sob temperaturas extremas. Ainda assim, em nome da isonomia competitiva, parece razoável que a regra seja aplicada de forma uniforme.
Não há dúvida de que a preservação da saúde dos atletas deve prevalecer sobre qualquer outro argumento. A propósito, vale a reflexão sobre competições disputadas em condições de altitude severa, que colocam em risco a integridade física dos atletas das equipes visitantes e criam desequilíbrios técnicos.
A evolução do esporte, seja em termos de segurança, desempenho ou espetáculo, é parte fundamental do desenvolvimento da indústria esportiva. Mas ela não acontece isoladamente. Para financiar estruturas cada vez mais complexas e remunerações crescentes, o esporte precisa gerar receitas. E essas receitas dependem, em grande medida, de audiência, transmissão, patrocínios e marketing.
Ao longo da história, diversas modalidades promoveram mudanças relevantes sem alterar sua essência.
Até o fim dos anos 1990, por exemplo, uma partida de voleibol tinha duração altamente imprevisível. A adoção do sistema de pontuação por rally point tornou os jogos mais compreensíveis para o público e mais adequados à programação televisiva.
O tênis de mesa reduziu a quantidade de pontos por game em busca de maior dinamismo. O tênis incorporou o tie-break até mesmo nos Grand Slams. O judô simplificou sua estrutura de pontuação para facilitar o entendimento dos espectadores.
Todas essas mudanças tinham justificativas esportivas legítimas. Mas seria ingenuidade acreditar que os interesses comerciais não exerceram influência sobre elas.
E não se trata apenas de tornar o produto mais atraente. Trata-se também de criar oportunidades de exposição para patrocinadores e emissoras.
A NBA talvez seja o exemplo mais evidente. Além dos pedidos de tempo das equipes, a transmissão aproveita faltas, lances livres e outras interrupções naturais para inserir publicidade. O resultado é um produto altamente adaptado à televisão: uma partida com 48 minutos de tempo regulamentar frequentemente ultrapassa duas horas de duração.
A NFL segue lógica semelhante. Timeouts, revisões de vídeo e o two-minute warning, uma interrupção automática nos dois minutos finais do segundo e do quarto períodos, funcionam não apenas como elementos estratégicos, mas também como valiosas janelas comerciais. Um jogo com 60 minutos de tempo oficial costuma durar mais de três horas.
É nesse contexto que surge a discussão sobre a pausa para hidratação no futebol.
Os críticos argumentam que ela altera a dinâmica do jogo ao permitir que os treinadores transmitam instruções aos atletas. Particularmente, vejo esse aspecto como uma virtude e não como um problema. A pausa cria espaço para ajustes táticos e valoriza uma dimensão estratégica já presente em outras modalidades esportivas.
Além disso, é difícil ignorar a necessidade crescente de geração de receitas no futebol. Os custos aumentam, os salários atingem patamares cada vez mais elevados e a pressão por investimentos é permanente. Entretanto, diferentemente de outras modalidades, o futebol continua operando com um inventário comercial relativamente limitado.
Talvez por isso tantas discussões sobre mudanças de regras acabem surgindo. Nem sempre por razões exclusivamente esportivas, mas também pela busca de novas formas de monetização.
A questão central é que nenhuma modalidade permanece estática. O esporte evolui, adapta-se e responde às transformações da sociedade e do mercado.






terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Marcas esportivas nas seleções - 2023

No último artigo de 2023, apresentaremos uma análise sobre o fornecimento de uniformes para as 50 seleções melhores ranqueadas em três modalidades de esportes coletivos, tanto no feminino quanto no masculino. São elas: basquetebol, futebol e voleibol.
Dentre esses, o vôlei é o esporte com mais marcas, são 28 no total (vinte e quatro no masculino e vinte e uma no feminino), seguido pelo basquete com 24 (21 e 20) e futebol com 18 (17 e 11). Interessante notar a maior incidência de marcas no masculino nas três modalidades.
No vôlei, a italiana Erreà é a que veste mais equipes entre as TOP50, 28% dos times masculinos e 20% dos femininos. Em ambos os gêneros, a Mizuno é a segunda marca. Todavia, quando analisamos as TOP10, a Mizuno lidera entre as mulheres com 40%, seguido pela Adidas com 20%, enquanto que entre os homens, Erreà e Mizuno dividem a liderança com 20% cada.
Vale notar que a Asics, marca referência e mais tradicional nessa modalidade, veste apenas o time japonês masculino – o feminino é suprido pela Mizuno. Tal fato parece indicar que esteja havendo um foco maior da empresa na categoria de calçados, onde a qualidade costuma ser mais perceptível e, consequentemente, a concorrência é menor.
Já no basquete, a liderança pertence à Nike nos dois naipes. No masculino a marca norte-americana veste 26% dos TOP50, seguida pela chinesa Peak com 12%, enquanto no feminino as duas marcas citadas ocupam a mesma posição com 34% e 10% respectivamente.
Analisando a participação entre os TOP10, a Nike tem 40% dos times masculinos e 50% dos femininos.
A Peak é a segunda com 30% entre os homens, enquanto a Air Jordan, marca pertencente à Nike, ocupa a vice-liderança no feminino com 20%.
Tais números demonstram que as três marcas citadas na análise sobre o basquete, mesmo tendo uma forte presença entre as seleções menos vencedoras, procuram privilegiar os times mais competitivos.
Por fim, temos o futebol, única modalidade em que todos os times possuem fornecedor. No vôlei, uma equipe feminina não ostenta nenhuma marca, fato que se repete em sete times de basquete (cinco entre os homens).
Entre os TOP50 no futebol, a liderança é dividida entre Adidas e Nike – 30% cada no masculino e 36% no feminino. Já entre as TOP10, a Nike é a mais presente com 60%, seguida pela Adidas com 40%, situação que ocorre nos dois gêneros.
Apenas três marcas suprem equipes nas três modalidades analisadas: Adidas, Puma e Hummel.
Vale chamar a atenção para o aparecimento de marcas que, por não estarem presentes no futebol, esporte mais popular que os demais, são pouco conhecidas do público em geral, mas que já suprem pelo menos dois países, entre essas podemos citar:
- no basquete, a Spalding, marca mais conhecida por fabricar bolas para a modalidade, e a portuguesa Dhika;
- no vôlei, as italianas Nine e Zeus;
- no futebol não encontramos nenhuma marca, digamos inédita, com algum indício de crescimento de participação, todavia, a título de curiosidade, podemos apresentar a One, que veste o time masculino de Camarões, a Entes, que supre o feminino de Taipei em quanto a Warrix está com a Tailândia.
Ainda que não tenhamos acesso aos valores envolvidos nessas parcerias, muitas delas abrangem apenas o fornecimento do material, os números aqui apurados permitem, ao menos especular o movimento das marcas.






terça-feira, 14 de março de 2023

Riachuelo no esporte

Ao anunciar a BodyWork, marca esportiva desenvolvida pela rede de varejo Riachuelo, como sua fornecedora de material esportivo, a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) faz um movimento inédito no mercado brasileiro. Tal ineditismo, evidentemente, suscita vários questionamentos acerca do sucesso da iniciativa para as partes.
Antes de iniciarmos as reflexões acerca da nova parceria, convém salientar que o mercado de fornecimento de material esportivo tem passado por significativas mudanças nos últimos tempos. Se no passado as marcas privilegiavam a exposição e a associação aos times, hoje o resultado operacional da iniciativa tem peso maior na decisão do investimento em patrocínio.
O futebol evidencia bem essa mudança. No passado, além de todo enxoval de peças para treinos e competições, as principais equipes recebiam verbas fixas e royalties sobre as vendas dos produtos licenciados e até premiações em função das performances esportivas. Hoje, poucas recebem valores fixos e muitas vezes os royalties citados só começam a ser pagos após terem saldado os custos com o enxoval fornecido.
Neste contexto, fica claro que a oferta de fornecedores diminuiu, o que levou grande parte dos clubes e confederações a terem dificuldades de suprimento e buscarem alternativas para, pelo menos, não terem despesas com uniformes.
Sobre a parceria Riachuelo/BodyWork & CBV, temos que pelo prisma de co-branding, a parceria parece muito mais vantajosa para a varejista que, ao entrar no segmento de marcas esportivas, o faz se associando à confederação que rege o segundo esporte mais popular do país e cujo desempenho esportivo é um dos melhores do mundo. Isso sem falar que o esporte e seus valores têm a capacidade de rejuvenescer marcas e contribuir para a construção de posicionamentos valiosos.
Algumas marcas internacionais voltadas ao segmento fashion já fizeram esse movimento principalmente junto a tenistas, enquanto outras entraram no esporte fornecendo material para serem utilizados em cerimônias como desfiles e premiações esportivas. De modo geral, a estética destes produtos costuma ser um ponto positivo, o que no caso da BodyWork pode atrair também consumidores que não sejam fãs de voleibol, todavia, a qualidade é um fator que requer bastante atenção.
Já em relação à distribuição, a CBV, em tese, tem muito a lucrar, pois passa a ter seus produtos têxteis licenciados disponíveis em mais de 300 pontos de vendas físicos, além de um e-commerce bem estruturado. O termo “em tese” se deve à incerteza quanto à presença em quantidades e modelos suficientes em todas as lojas.
Estimar vendas não é tarefa das mais fáceis, ainda mais quando se trata de produtos novos. Assim, as chances de ruptura ou de ter produtos que não girem em alguns pontos é grande, o que pode vir a comprometer a satisfação do cliente e, ainda que infimamente, os resultados da loja.
Não ficou claro no noticiário se os produtos BodyWork poderão ser comercializados em outros varejistas. Entretanto, por mais que a Riachuelo tenha uma boa capilaridade, o fato de não comercializar produtos correlatos à modalidade como bolas e calçados inibe eventuais compras por impulso.
Seria prematuro ser definitivo na avaliação sobre o patrocínio em questão, há prós e contras para as partes envolvidas, os quais podem ser trabalhados no decorrer do processo e, quem sabe, fazer da operação um modelo a ser replicado no mercado esportivo como um todo.






terça-feira, 2 de novembro de 2021

Os superpoderes dos patrocinadores

A demissão do jogador de vôlei Maurício, fato que teve como causa uma postagem sua sobre o filho do Superman, a qual foi acusada de homofóbica, vem rendendo inúmeros debates. O incidente, embora péssimo para o esporte, é bastante rico para reflexões sob o prisma de marketing e gestão.
O primeiro questionamento a ser feito diz respeito à ingerência dos patrocinadores, nesse a caso a Fiat e a Gerdau, afinal, até que ponto eles devem intervir em contratações e dispensas de jogadores? Creio que nunca, no que tange aos aspectos de performance esportiva, porém sempre quando se tratar de proteger a marca.
Alguns poderão alegar que uma expressiva quantidade de pessoas concorda com o jogador, e dessa forma, a marca desagradou tal contingente. Particularmente, não creio que a discussão deva descambar para o lado de agradar a maioria, mas sim para a questão de estar em conformidade com as melhores práticas ambientais, sociais e de governança. Todavia, a possível dúvida sobre qual decisão tomar nos conduz a um ponto que deveria ser olhado com mais atenção nos dias atuais: o comportamento nas redes sociais.
A exposição de um ponto de vista publicamente implica no risco de provocar debates inflamados, risco que aumenta exponencialmente quando o assunto é polêmico. Partindo dessa condição, penso que os atletas deveriam refletir bastante antes de se manifestarem nesses meios, pois as consequências acabam respingando nos patrocinadores, que são de fundamental importância para o esporte, ou seja, é preciso avaliar bem se a vontade de se expressar compensa o risco de afastar as empresas do esporte.
Voltando ao caso do voleibol, os patrocinadores ficaram numa situação bastante delicada, dado que se optassem pela permanência do atleta teriam a oposição dos que são contra, sendo a recíproca verdadeira. O que fazer?
Lembrando que a cobrança junto aos patrocinadores tem sido uma prática bastante comum quando surgem situações polêmicas envolvendo atletas.
Não duvido que passe pela cabeça dos gestores destas empresas rescindir os respectivos contratos ou não renová-los, pois dessa forma estarão livres de passarem por tais tipos de  constrangimento.
Talvez grande parte das pessoas não entenda que um dos objetivos do patrocínio esportivo é associar a marca aos nobres valores que o esporte proporciona, portanto, é mandatório que a atividade fique longe de polêmicas e escândalos. Além do que, a tarefa de “vender” internamente esse tipo de investimento em detrimento às ações tradicionais de marketing não é das mais fáceis, o que deixa o patrocínio esportivo ainda mais frágil.
Por fim vale comentar o expressivo incremento no número de seguidores do atleta,  o que certamente é fruto de sua maior popularidade e contribui para aumentar a cobertura de sua comunicação, no entanto, é preciso alertar que quantidade de seguidores não significa necessariamente número de admiradores, assim como não se traduz em número de clientes no caso de empresas ou de eleitores em eleições.
De forma proposital, o artigo não se posicionou sobre o suposto ato para não distorcer o objetivo do blog que é discutir gestão e marketing sem arroubos emocionais.




terça-feira, 7 de setembro de 2021

Esportes coletivos e as marcas - Tokyo 2020

O último estudo publicado pela Jambo Sport Business analisou a participação das marcas esportivas das equipes que disputaram as competições de esportes coletivos nos Jogos Olímpicos de Tokyo: basquetebol, basquetebol 3x3, futebol, handebol, hockey, rugby e voleibol de quadra, todas estas nos dois gêneros, além de softbal no feminino e beisebol no masculino. Apenas o vôlei de praia ficou de fora pelo fato de uma mesma equipe abrigar atletas trajando marcas diferentes.
Antes de passarmos às informações que julgamos interessantes, vale destacar que a maior parte das equipes vestiu uniforme da marca que tem contrato com a respectiva federação, vide o caso das seleções brasileiras de futebol que jogaram com Nike, patrocinadora da Confederação Brasileira de Futebol. Todavia, também encontramos seleções que usaram as marcas dos comitês olímpicos locais, situação que pode ser ilustrada pelo time de futebol do México, que vestiu Li Ning, apesar de a Federação Mexicana de Futebol ter o patrocínio da Adidas.
Outra particularidade digna de relato, diz respeito aos países que disputaram a mesma modalidade nos dois gêneros, mas vestiram uniformes de fornecedores diferentes. Exemplifica essa situação o voleibol japonês, cujo time feminino vestiu Mizuno e o masculino trajou Asics.
O universo do estudo compreendeu: 176 equipes, 52 países, 16 competições e 38 marcas. 
A Asics foi a marca que esteve presente em mais modalidades, quatorze competições, só não tendo equipes com seus uniformes no basquete 3x3 em ambos os gêneros. Em segundo, sob essa ótica, está a Adidas com onze, seguida pela Nike com nove. Esses números ajudam a identificar a penetração das marcas nas modalidades esportivas, ou seja, diante dos números apurados, é possível supor que a Asics esteja focando um espectro maior do que as demais, as quais, podem estar mais seletivas nos seus investimentos. Ainda que tais hipóteses sejam factíveis, não pode ser descartada a possibilidade de as marcas, não aparecerem em dada modalidade em função das equipes por elas patrocinadas não terem se qualificado para os Jogos.
Quando voltamos nossa análise para a quantidade de equipes supridas, a liderança fica com a Nike ao vestir 31 times, seguida pela Adidas com 27 e Asics com 18. Aqui a explicação pode estar relacionada à “intensividade” da Nike, isto é, ainda que esteja presente em menos modalidades, os investimentos nessas são maiores.
O estudo analisa ainda as três últimas edições olímpicas, de forma a avaliar eventuais correlações com os resultados esportivos, No voleibol, a Asics sempre vestiu seleções apontadas como favoritas, no entanto, nenhuma delas ganhou medalha de ouro e só em Tokyo subiu ao pódio.
A parametrização com os cenários passados também permite entender a movimentação das marcas, assim como sua “continuidade” ou não nas respectivas modalidades. No handebol, por exemplo, a marca Kempa, que foi a mais presente nos Jogos do Rio, não vestiu nenhuma equipe em 2020. Fato similar aconteceu com a Adidas que em 2012, na mesma modalidade, supriu doze times e em 2016 apenas três.
O estudo mostra também como é a relação dos países com as marcas, no que tange à modalidade. Vemos a Austrália, presente em nove modalidades, mas em todas tendo um único fornecedor, por outro lado, encontramos a Coréia do Sul com equipes em seis competições e cinco marcas diferentes.
Enfim, trata-se de um estudo bastante rico em informações, o qual pode ser acessado através do link:https://www.linkedin.com/posts/halfen_marcas-esportivas-nos-esportes-coletivos-activity-6840743590809935872-ZE4B





terça-feira, 15 de dezembro de 2020

As cores da quadra

A mais recente ampliação do contrato entre a Confederação Brasileira de Voleibol e o Banco do Brasil contemplou o direito à nominação (title sponsor) da Superliga, principal competição da modalidade no país.
Vinte e quatro novos pisos foram comprados, todos nas cores da marca – amarelo e azul – fato que deixará todas as competições nacionais de voleibol com esse “cenário”.
Já na estreia do novo piso, as opiniões nas redes sociais ficaram divididas. Alguns elogiaram a mudança, enquanto outros a criticaram alegando que a visibilidade ficou prejudicada. Há ainda os atletas que se queixaram do material do piso, tanto pela maior "aspereza" como pelo fato de não propiciar uma boa visibilidade dos trechos que estejam molhados, o que aumenta o risco de escorregões e quedas.
Creio que tenham ocorrido testes acerca desses fatores, de forma que as eventuais críticas sejam fruto do impacto inicial da mudança, ou melhor, da falta de costume. Trazendo para o ambiente de varejo, é muito comum se dizer que faltam produtos em um supermercado que está sendo visitado pela primeira vez, visto o desconhecimento daquele layout.
No que tange ao marketing, as discussões também aconteceram, tendo aqui como tema a preocupação com o aumento da associação da marca à modalidade, que tem o banco como patrocinador desde 1991.
Vale citar que o Banco do Brasil tem sido um ótimo exemplo de como utilizar o esporte como ferramenta de marketing, visto trabalhar não apenas a exposição, mas também a ativação e a associação da marca.
Voltando à preocupação emanada pelos que criticaram a ação, concordo que, conceitualmente, a associação deixa a confederação fragilizada para a busca de novos patrocinadores, pois, esses ao conviverem no mesmo espaço que o banco não serão tão percebidos. No caso de uma eventual rescisão na relação com o Banco do Brasil, haverá certamente uma demora maior para que um novo patrocinador venha a conquistar um recall expressivo.
No passado, receosos dessa “dependência”, houve até uma tentativa de se mudar as cores dos uniformes da seleção. O do masculino seria preto e o do feminino teria o rosa como cor principal, proposta que não foi adiante.
Todavia, no caso do piso, achei a iniciativa excelente, pois, se criou uma nova propriedade de alto impacto visual, que pode ser alterada para outras cores, cores até de outro patrocinador.
Se foi um movimento estratégico ou fruto de uma mera negociação comercial e suas contrapartidas é difícil precisar, mas há que se reconhecer que ambas as partes ganharão com a iniciativa. O patrocinador conseguirá fixar ainda mais a sua marca de forma elegante, sem poluição, ao passo que o patrocinado ganhará uma nova propriedade para seu portfólio, a qual tende a ser valorizada, tamanha sua visibilidade, além dos comentários que estão sendo gerados.



terça-feira, 27 de outubro de 2020

O protesto e a emboscada

Na premiação de uma das etapas do circuito Banco do Brasil de vôlei praia, a jogadora Carol Solberg, de posse do microfone para falar sobre assuntos referentes à competição, gritou: “fora Bolsonaro!”.
O ato, evidentemente, gerou os mais diversos tipos de reação. A CBV - Confederação Brasileira de Voleibol - se manifestou contra o ato, o “fla x Flu” político voltou a se aquecer e a atleta foi julgada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, que decidiu puni-la com uma advertência.
Os defensores da atitude da jogadora exaltam a liberdade de expressão para justificar o protesto, já os que a atacam alegam que o regulamento não permite tal tipo de atitude.
Alegaram ainda que a atleta era patrocinada pelo Banco do Brasil, o que não era verdade, apesar de que, indiretamente, a existência do banco como patrocinador da modalidade, permite que ela dispute competições e receba premiações. 
Antes de passar para uma análise calcada no marketing, objeto do blog, vale questionar se os defensores e ofensores do ato teriam a mesma postura se o grito fosse “fica Bolsonaro”.
Não temos a resposta, mas podemos inferir que muitos mudariam de opinião, vide o que aconteceu quando atletas dessa mesma modalidade fizeram gestos exaltando o atual presidente e os que são hoje contra a atitude da Carol permaneceram calados.
Acho que também não cabe discutir aqui o direito de o atleta se expressar politicamente, afinal, independente da posição que se ocupa, isso deveria ser facultado a todos, cabendo apenas a discussão em termos do local para isso. 
E aqui chamo a atenção para algo que não tem sido comentado: o fato de a Carol ter se utilizado do marketing de emboscada ou ambush marketing, pelo qual se obtém proveito publicitário sem se pagar pela aquisição direta daquele direito. Antes que tentem levar para o lado político, alerto que os jogadores que fizeram gestos exaltando o candidato à presidência na época cometeram o mesmo tipo de deslize.
Quanto ao direito de expressão, concordo que seria um ato de censura se a atleta não pudesse usar suas redes sociais ou mesmo responder a questões sobre política nos órgãos de imprensa.
Já as menções ao patrocínio do Banco do Brasil, uma empresa que muitos citam como estatal, mas que na verdade é de economia mista, podem vir a fazer algum sentido pelo lado de associar a marca à política, o que não seria interessante para qualquer empresa, independentemente da composição acionária.
Mas volto a dizer que o principal problema está ligado ao ambush marketing, pois nada garante que numa próxima vez algum atleta não possa pegar o microfone para gritar o nome de uma marca ou fazer algum gestual. A propósito, não nos esqueçamos das continências feitas pelos atletas militares nos pódios. 
Reforço que o presente texto não tem como intuito julgar a atleta, tampouco as preferências sobre a permanência ou não do presidente, a ideia do artigo é meramente chamar a atenção para o marketing de emboscada, que se constitui num perigoso ofensor à entrada das marcas no esporte.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Substituiu bem?

Nos esportes coletivos é comum ouvir de comentaristas e torcedores a expressão “substituiu bem”, geralmente ela é usada para elogiar os técnicos que executaram a mudança sem a influência de motivações relacionadas a contusões ou desgastes físicos, ou seja, optaram pela mudança por razões estritamente técnicas e/ou táticas.
Essa mesma substituição, tem pelo lado dos “detratores” uma justificativa diferente: a de que o técnico escalou mal e foi obrigado a corrigir o erro posteriormente.
Difícil cravar nesses casos qual é a relação de casualidade, ambas podem estar corretas, dependerá muito da visão conceitual que se tem sobre o assunto, mas posso assegurar que não é correto pender para algum dos lados influenciados por simpatia, torcida ou qualquer outro  interesse que venha contrariar os princípios morais, isso no caso de quem os possui, evidentemente.
Tivemos recentemente uma situação similar no governo federal, na qual o presidente da república demitiu seu ministro da saúde  e, como num passe de mágica, vimos os torcedores do presidente jogarem por terra todo o discurso que construíram acerca da formação do ministério, segundo eles, constituído por “craques”. Bastaram os conflitos entre o presidente e o ministro chegarem às raias do rompimento para que os discursos e os posts com mensagens desconstruindo a outrora tão exaltada capacidade do titular da saúde passassem a habitar as redes sociais.
Sobre a demissão, adianto que minha opinião é calcada na vivência no mercado corporativo, o qual parece ser diferente do que acontece na política. Dentro dessa ótica, penso que a demissão era inevitável e, sem entrar no mérito da qualidade/capacidade do ministro, acho que ela demorou a acontecer.
É absolutamente normal haver divergências de opiniões em qualquer ambiente, sendo salutar que todas as partes sejam ouvidas e ponderadas, contudo, caso não haja um consenso, deve ser adotada a decisão do líder, afinal, os eventuais fracassos serão atribuídos a ele, daí é melhor correr riscos com suas convicções do que com as de terceiros.
Isso não significa que o liderado precise mudar seu juízo, porém, precisa estar alinhado e seguir com as diretrizes que foram definidas pelo líder, caso contrário o pedido de demissão é a alternativa que resta. Fazer por sua conta contrariando o superior é um ato de insubordinação que não deve ser admitido.
Os que estão lendo esse texto devem ter chegado até aqui um pouco confusos sobre o lado que defendo. Em alguns parágrafos podem ter achado que eu era contra o presidente, depois podem ter tido a certeza de que eu era contra as medidas de isolamento.
Para que não restem dúvidas: sou contra o fanatismo imbecil dos que só conseguem ver méritos ou deméritos dependendo da pessoa. Sou a favor, sim, dos que conseguem ver méritos e deméritos em função de atos.
Sobre o isolamento, não tenho conhecimento técnico suficiente para emitir opinião. Prefiro usar o “não sei” a ser visto como um irresponsável que faz afirmações sem base para tal.
Dito isso, fica a dúvida: o presidente escalou mal seu ministério ou substituiu bem? 




terça-feira, 5 de novembro de 2019

Os clubes de futebol no contexto olímpico


Os que acompanham as modalidades olímpicas já devem ter notado que os chamados clubes de camisa – clubes notoriamente reconhecidos pela atuação no futebol  estão voltando a ter equipes participando das principais competições nacionais.
Como já foi escrito no artigo Esportes Olímpicos como extensão de marca -  http://halfen-mktsport.blogspot.com/2013/10/esportes-olimpicos-como-extensao-da.html, tal tipo de iniciativa seria em teoria uma excelente oportunidade para atrair torcedores, pois os clubes se aproveitariam do conceito de extensão da marca para angariar novos simpatizantes.
A prática, no entanto, não tem correspondido às expectativas citadas no artigo, o que pode ter como causas: (i) as dificuldades de os clubes explorarem todo o potencial das modalidades; (ii) a forte influência do futebol e de seus torcedores apaixonados que acabam não dando espaço para um novo público; (iii) a própria carência de aculturamento da população em relação aos esportes olímpicos; (iv) a pequena divulgação das modalidades; (v) um misto destas opções.
Além disso, é preciso considerar que o futebol é o principal gerador de receitas da instituição, sendo natural que ele venha a demandar maiores investimentos, o que acarreta em menos verbas para as equipes de esportes olímpicos e, consequentemente, desempenhos, na maioria das vezes, mais modestos – fato que gera insatisfação e desinteresse nos potenciais fãs.
Por outro lado, não podemos esquecer que estes clubes têm forte parcela de participação na formação de atletas.
Todos estes pontos nos levam ao seguinte questionamento: qual deve ser a efetiva participação dos clubes de futebol nos esportes olímpicos coletivos?
De forma proposital todo o racional aqui desenvolvido não abrange os esportes individuais por entendermos que não há grande necessidade de investimentos vultosos para a formação de uma equipe, mesmo porque não existe geralmente nenhuma obrigatoriedade no que tange à quantidade mínima de atletas. 
A título de provocar uma reflexão sobre o problema seria interessante avaliar a possibilidade de estes clubes participarem exclusivamente das competições voltadas às divisões de base, pois o investimento é menor, além de se conseguir manter as tradicionais rivalidades -  vitais ao esporte - em um nível racional e ponderado.
Já as competições nacionais voltadas aos adultos teriam a cidade que sedia as equipes como representante. Exemplificando: o Rio de Janeiro se constituiria como uma entidade esportiva e passaria a ter equipes de algumas modalidades olímpicas, se capacitando assim para atrair patrocinadores – eventualmente a própria prefeitura e, consequentemente, melhores jogadores.
Algo, guardadas as devidas proporções, semelhante ao modelo das ligas americanas, onde as principais cidades costumam sediar franquias que as representam e atraem público para seus jogos.
Nesse desenho, as próprias instalações erguidas e/ou reformadas para os Jogos de 2016 poderiam ter uma utilização maior e melhor.
O argumento de que haveria uma diminuição no número de equipes disputando os campeonatos nacionais não parece coerente na medida em que essa limitação já existe, visto ser finita a quantidade de times, além do que, poderiam ser criadas ligas intermediárias para o aproveitamento dos atletas que não são demandados naquele momento pelas equipes que disputam as competições principais.
Se as ideias aqui contidas são viáveis só um estudo mais aprofundado poderá dizer, contudo, creio que valha desenvolver projetos que supram as carências de formação, que não deixem os clubes de futebol distantes dos seus objetivos e que permitam formatar as competições de modalidades olímpicas como um produto desejado e rentável.




terça-feira, 24 de julho de 2018

Marketing não é vendas


Creio que o marketing seja a área da gestão que é menos entendida pela população em geral. Se não bastasse a costumeira confusão com “propaganda”, muitas organizações ainda acham que marketing e comercial sejam a mesma coisa. E o mais grave é que tal convicção não vem apenas de leigos, mas também da imprensa e, pasmem, até de gestores.
Tal situação é responsável pelo surgimento de diversas críticas voltadas às áreas de marketing no ambiente esportivo tendo como argumento a não obtenção de patrocínios ou aos valores "considerados" baixos. Críticas essas que têm até certa dose de coerência, afinal o marketing tem sua parcela de responsabilidade, entretanto, é preciso esclarecer que a função principal dessa área não é a comercialização. Em tempo, é importante que se registre que esse relato se aplica também nos casos de obtenção de bons patrocínios, onde a maior parte dos méritos deve ser creditada à área comercial.
O marketing é na verdade responsável pelo desenvolvimento dos produtos, pela estratégia de posicionamento, pela valorização da marca e pela criação de condições que facilitem as ações da área comercial. 
Fazendo uma analogia com o futebol, podemos “grosso modo” comparar a área de marketing com o meio de campo de uma equipe, visto ser o setor responsável pela idealização das jogadas para deixar os atacantes – a área comercial – em boas condições para marcar os gols. No voleibol, a posição de levantador é a que mais guarda semelhança com o marketing, cabendo à área comercial - os atacantes - a tarefa de fazer o ponto.
Sendo recomendável a separação dessas duas áreas, principalmente em organizações que tenham o consumidor final como cliente (B2C). Contudo, tão importante quanto o desenho da estrutura é ter na posição - ou posições - pessoas capacitadas e que entendam corretamente o escopo e objetivo de cada uma das funções.
Atualmente a maioria das empresas  faz questão de separar as duas estruturas ainda que a interação entre elas seja enorme. Aliás, é inconcebível que um gestor de marketing não acompanhe o gestor comercial em algumas reuniões ou visitas aos pontos de vendas, assim como é inadmissível que os executivos comerciais não municiem o marketing de informações e até participem de certos processos de criação e campanhas.
Alguns clubes, cuja governança se encontra em fases mais maduras, já se anteciparam e desenharam seus organogramas com lideranças executivas distintas para essas pastas, provavelmente se espelhando nas corporações que entenderam a diferença entre criar valor e realizar valor.
As eventuais alegações a respeito da necessidade de consolidação de áreas em função de politicas de redução de custos são aceitáveis e devem ser buscadas em momentos de crise, no entanto, há de se haver uma visão gerencial do todo, de modo que a junção das áreas contemple não apenas a sinergia entre elas, mas também os objetivos quanto aos resultados da corporação, os quais passam evidentemente pela separação do operacional do estratégico.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Pontos alternativos



O setor esportivo, com o intuito de estar presente para novos públicos e promover as modalidades, tem adotado como uma de suas iniciativas a realização de competições em locais que originalmente não são voltados para esses eventos.
Entre essas ações podemos elencar a instalação de uma piscina na praia de Copacabana, partidas de voleibol em estádios de futebol e partidas de hockey sobre o gelo em arenas a céu aberto nas quais costumam acontecer jogos de beisebol e futebol americano.
São ideias bastante originais, mas que devem ter causado dúvidas e rejeições quando sugeridas pela primeira vez.
Reações similares também ocorrem no mercado de bens de consumo, onde disponibilizar produtos para o maior número de pessoas é objetivo de todo gestor, evidentemente que de forma rentável, ou seja, dentro de condições em que os custos de marketing, logística e comercial sejam compensados pelo maior volume de vendas com margens de lucro satisfatórias.
Hoje é possível encontrar, por exemplo, refrigerantes sendo vendidos em bancas de jornal e farmácias, sandálias em padarias e até pães sendo feitos nas lojas de conveniência dos postos de gasolina. Situações que podem parecer normais nos dias atuais, mas que eram inconcebíveis num passado recente.
Nesse passado, os refrigerantes eram artigos exclusivos de bares e supermercados, as sandálias de sapatarias e os pães de padaria, relações que parecem óbvias, afinal de contas o cliente buscava esses estabelecimentos quando demandavam tais produtos.
Aliás, os próprios varejistas buscavam, ainda que empiricamente, se posicionar como especialistas naquilo que se propunham a comercializar e não admitiam usar suas áreas de vendas para produtos diferentes dos habituais. Certamente não pensavam no conceito de conveniência, tampouco nas compras por impulso.
Derrubar tal paradigma foi um enorme desafio para ambos os lados. 
Para a indústria, pois, por possuir uma estrutura totalmente direcionada ao convencional - onde se incluem embalagens de embarque, equipes de vendas, veículos de entrega, condições comerciais e merchandising, entre outros - precisou fazer investimentos para que os novos canais pudessem ser bem atendidos. Isso tudo sem a certeza da aceitação do consumidor e dos próprios varejistas desses novos canais. Devem ainda ser acrescentadas ao cenário: a provável desconfiança de parte do board e a pressão dos antigos clientes que passariam a ter novos concorrentes.
Pelo lado do “novo” varejo fez-se necessário: apostar na dedicação de um espaço para a inclusão de novos itens no mix - o que contempla layout de loja, planograma e área de estoque -, criar novos mecanismos de compras, vendas e controles, correr o risco de perder o posicionamento conquistado ao longo dos anos e passar a ter novos concorrentes, os quais, talvez, com melhores condições negociais em virtude de possuírem uma relação mais longa com a indústria .
O que podemos concluir com esse artigo é que ideias para aproximar ou oferecer produtos ao cliente devem sempre ser analisadas, ainda que aparentemente possam parecer descabidas e difíceis quando surgem. 
Sendo importante ter em mente que tais iniciativas têm a função primordial de complementar o sortimento de produtos e que eventuais substituições radicais no mix original podem incorrer em sérios riscos tanto para a operação quanto para a identidade e posicionamento das marcas envolvidas.




terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Debate sobre os atletas transgêneros

A Superliga de vôlei feminino 2017/18 apresentou uma novidade que pode fazer com que a modalidade assuma uma posição de protagonismo na história do esporte brasileiro. Refiro-me à inclusão da atleta Tiffany Abreu, que nasceu sob o gênero masculino, mas que através de tratamentos se transformou numa mulher e como tal disputa a competição. Apesar de o seu caso ser o mais comentado, vale citar que no vôlei de praia no Brasil há outra jogadora nas mesmas condições, assim como em outras modalidades ao redor do mundo.
Como era de se esperar, os debates sobre o tema vão se tornando cada vez mais frequentes e interessantes, pois envolvem estudos científicos, opiniões de esportistas e, de nossa parte, reflexões que envolvam os aspectos mercadológicos e operacionais.
Pelo lado dos que defendem a permanência da atleta no esporte de alto de rendimento, temos o endosso da medicina através dos critérios aceitos pelas entidades que regem o esporte.
Deve ser descartada também qualquer tipo de suspeição em relação à intenção de a jogadora ter feito a transformação com o intuito de auferir vantagem no esporte, afinal não parece ser razoável supor que alguém esteja disposto a sofrer os mais diversos tipos de discriminação, exposição e riscos para tão pouco.
Quero também dizer que, apesar do bom nível técnico da atleta, não vejo uma situação de desequilíbrio inconteste por sua presença nas quadras.
Todavia, ainda diante dos argumentos discorridos a favor da jogadora, tendo a ser contra a sua participação, o que se deve a uma única razão: o fato de a atleta ter chegado à estrutura e à altura que tem por ter nascido e crescido sob a influência de hormônios masculinos. Claro que existem mulheres até mais altas e mais fortes, essas, porém, chegaram à estrutura que têm de forma, digamos, natural.
O problema nesse caso é a possibilidade de no futuro haver toda uma preparação para o surgimento de atletas trans com tamanha vantagem em relação às mulheres, que essas venham a desaparecer das competições.
Ressalve-se aqui que tal raciocínio se aplica ao voleibol e demais modalidades nas quais uma estrutura maior auxilia no desempenho.
Como solução para o imbróglio foi ventilada a hipótese da adoção de cotas nos times, só não entendi se nesse caso a proposta contempla a extinção das competições segmentadas por gêneros ou se trata da simples inclusão de um número definido de pessoas nessa condição em uma equipe. De antemão acho bem complicada a operacionalização desse regime, além do que, pode abrir espaço para pleitos de inclusão através de cotas para outros tipos de minorias além das relacionadas ao gênero.
A possibilidade de inclusão de mais categorias segmentadas por gênero - não nos esqueçamos das pessoas que nasceram sob o gênero feminino e se transformaram em homens – pode até ser avaliada, mas não acredito que haja espaço, tampouco um número significativo de atletas nessas condições, para que no curto prazo sejam organizadas competições capazes de despertar o interesse do público, dos patrocinadores e da mídia, até porque está cada vez mais difícil atrair um grau razoável de atenção do público, em função de o mercado vir disponibilizando cada vez mais conteúdos - não apenas de cunho esportivo - enquanto o dia permanece com 24 horas.
Sei que pode parecer duro proibir alguém de atuar em esportes de alto rendimento pelo simples fato de ter buscado uma forma de se sentir feliz. Contudo, a abertura do precedente nesse caso deixaria o esporte  vulnerável a novos tipos de artifícios para se auferir vantagens, o que aumentaria o risco de descaracterizar essa atividade já tão infestada por subterfúgios relacionados ao doping e à corrupção.
Por fim cabem dois esclarecimentos: (i) independentemente de a minha opinião divergir do regulamento atual, defendo o cumprimento do mesmo enquanto estiver em vigor; (ii) minhas desculpas por eventuais erros de nomenclatura sobre gêneros, eles são frutos de minha ignorância.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Interferência externa

No artigo “A imprensa que imprensa” comentei sobre o uso de recursos eletrônicos nas partidas de futebol e prometi aprofundar o tema no futuro, o que faço agora nesse texto.
Os que são contra o uso das ferramentas alegam que as partidas ficarão mais demoradas e que o “erro do árbitro” faz parte da disputa.
Quanto ao tempo, concordo, porém, devemos considerar que a maior quantidade de minutos viria acrescida de qualidade, tanto pelo aspecto da emoção e apreensão pelo resultado do lance a ser avaliado, como também pela inserção de mais assertividade às decisões.
Sobre o “erro do árbitro”, discordo veementemente, pois seria a mesma coisa de não se fazer exames clínicos já que a doença faz parte da vida, ora bolas.
Até entenderia a argumentação de que poderia haver problemas quanto à instalação das câmeras nos estádios, pois as estruturas dos mesmos podem variar. Isso de fato é um problema a ser analisado, visto que é de fundamental importância que haja isonomia, ou seja, os recursos não podem ser mais efetivos num estádio do que em outro.
Não podemos também ter a pretensão de achar que a adoção desses recursos seja definitiva, nem que os erros estarão extintos. Longe disso, acredito que será um processo contínuo de aperfeiçoamento no que diz respeito à operação – como, quando, quantas vezes e quem pedirá o “desafio” -, além do que, existirão lances que são meramente interpretativos, o que deixa as câmeras sem tanto poder para ajudar na decisão do árbitro.
Como forma de minimizar os problemas em relação à duração dos jogos, seria importante haver, como já acontece no voleibol e no tênis, um limite de desafios, o que faria com que as equipes fossem parcimoniosas na hora de solicitá-los e ainda possibilitaria uma diminuição na quantidade de reclamações, pois, ao invés de reclamar, seria facultado ao reclamante a opção de “desafiar”. 
A adoção desses recursos também acabaria com os processos dos clubes que alegam “interferência externa”, afinal, essa efetivamente seria permitida.
Na verdade, é muita ingenuidade supor que a interferência externa não existe nos dias atuais, pode até ser que ela não ocorra imediatamente, mas muito provavelmente os lances polêmicos são discutidos no intervalo, o que, no meu modo de ver, se caracteriza como infração.
Com a influência externa liberada e com um limite de “desafios” por tempo, caberá ao time escolher de forma criteriosa os lances a serem analisados, pois caso peça de forma indiscriminada, pode estar desperdiçando oportunidades importantes. Ressaltando que no voleibol e no tênis, caso a equipe esteja com a razão no pleito, a quantidade de desafios a ser solicitada permanece igual.
Assim, se consegue dos times uma espécie de cumplicidade nas decisões do árbitro, já que a "não solicitação" do desafio pode ser um indício de que nem a própria equipe tinha tanta certeza quanto ao lance.
Pelo prisma de marketing, a implantação do “desafio” servirá para o aumento da credibilidade da modalidade – não podemos nos esquecer que as empresas sérias buscam com o patrocínio a associação de seus valores aos dos patrocinados -, e que, se bem formatado, o evento de “checagem” pode se transformar numa propriedade com alto valor comercial. 



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Parente pode?

A escolha do técnico Tite para a seleção brasileira de futebol trouxe à tona um bom tema para reflexões sobre gestão: a contratação de parentes como funcionários. Nesse caso o problema surgiu em função do treinador desejar que seu filho faça parte da comissão técnica, sendo que o código de ética da CBF impõe essa restrição a qualquer indivíduo com relação de parentesco até segundo grau com outros gestores, executivos da CBF e seus conselhos e comissões.
Que fique claro que tal condição não é exclusividade da CBF, pois várias empresas privadas adotam diretrizes semelhantes.

Nunca consegui formar uma opinião a respeito desse tipo de determinação, entendo que é uma forma para se evitar nepotismos e eventuais favorecimentos dentro da organização.
Mas quem garante que um parente está sendo escolhido para algum cargo por ser próximo ao gestor que definirá a contratação? Ok, quem garante o contrário?
Como contraponto a essa diretriz restritiva, vem a argumentação de que cargos de confiança deveriam ser preenchidos por pessoas, evidentemente, de confiança do responsável. O que é verdade, mas será que só parentes dispõem dessa prerrogativa?
Óbvio que não, apesar de também concordar que é mais fácil trazer para a equipe alguém que já conhecemos do que correr riscos com estranhos.
Além do que, acho questionável e injusto que alguém seja preterido pelo fato de ser aparentado. 
Não podemos nos esquecer também que, muitas das vezes, uma relação de amizade é bem mais forte do que a que existe entre parentes.
Já vi empresas onde o namoro entre funcionários era permitido, mas caso houvesse a oficialização da relação um dos dois seria desligado, o que pode até ser encarado como uma forma de incentivo às relações “oficiosas”.
Em outras corporações, poderia até haver a relação, desde que atuassem em departamentos diferentes.
Nunca tive certeza se essas empresas temiam consequências no clima organizacional ou tinham receio de que a maior cumplicidade viesse a gerar situações de vulnerabilidade aos controles.

Toda essa argumentação não significa que eu discorde das empresas que adotem essa política restritiva quanto à admissão de parentes, até porque todas as ideias apresentadas têm como embasamento minha experiência na iniciativa privada, o que, talvez, comprometa a análise sobre empresas públicas.
Ressalte-se ainda que, apesar de guardar bastante semelhanças, a vida corporativa apresenta algumas diferenças em relação á esportiva, vide o caso de sucesso da dupla Bernardinho e Bruno. Já imaginaram o prejuízo que a seleção de voleibol sofreria com uma eventual restrição ao parentesco entre técnico e jogador?

O que pretendo com esse artigo é apenas provocar o exercício da reflexão, com a ciência de que regulamentos e normas são - em tese - elaborados por quem conhece bem o funcionamento e as eventuais fragilidades da organização para qual trabalha.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Investimentos olímpicos

Ao fim de mais uma edição dos Jogos Olímpicos, aparecem as tradicionais críticas ao desempenho do Time Brasil. Dessa vez chegam “embasadas” pelo fato de termos disputado os Jogos em casa e pelo "elevado" investimento na parte técnica.
Ah, e não chegamos na meta...
Curiosamente, ainda no início das competições alguns já alardeavam o apocalipse dos esportes olímpicos brasileiros, esquecendo-se que as nossas maiores possibilidades de conquista de medalhas se concentravam na segunda metade dos Jogos. Aliás, não sei se se esqueceram, se não se instruíram a respeito ou se torceram contra mesmo.
E aqui não me refiro aos torcedores que, cegos pela paixão, querem mais é desabafar e encontrar um responsável pelo desempenho, segundo eles ruim. Afinal de contas, não são eles que estarão na pele do atleta e/ou do técnico a ser "massacrado" pela opinião pública.
Pior do que os "apaixonados" são os críticos, ditos especialistas em esportes olímpicos e/ou em gestão, que deixam transparecer em suas intervenções a fragilidade de seus conhecimentos.
Entre as pérolas proferidas, está a insistência na afirmação de que basta se preparar adequadamente para que as medalhas sejam conquistadas. Sobre essa declaração gostaria que me respondessem uma simples pergunta: qual seria o resultado se todos os países se preparassem adequadamente? Empate?
Ora, é óbvio que buscar o ponto ótimo da preparação é fundamental para a obtenção de medalhas, mas isso não é o suficiente num ambiente de concorrência.
Outro argumento falho, para não ser agressivo na adjetivação, é o que tenta correlacionar o número de medalhas com o investimento naquele ciclo olímpico. Será que não enxergam que precisam mandatoriamente contemplar nesse cálculo muito mais do que um ciclo olímpico? Será que não conseguem entender que o investimento no alto rendimento é apenas uma parte e que para se chegar a uma equação coerente, o esporte de iniciação, os investimentos em educação no país e o processo de transição da base para o adulto precisam também ser considerados.
Alguns chegam a comparar o investimento feito pelos EUA nesse ciclo olímpico com o do Brasil. E pelo fato desse montante ter sido aproximadamente duas vezes mais, concluem que deveria haver a mesma correlação no número de medalhas conquistadas, ignorando solenemente os investimentos ao longo dos anos e demais aspectos relacionados às estruturas socioeconômicas dos países. 
Na mesma linha, alguns "especialistas" em gestão acusam a falta de uma “boa gestão” para explicar o desempenho que os desagradou. Sabem eles quais são os recursos efetivamente disponíveis? Desconfiam de qual seja o grau de autonomia e ingerência que o comitê olímpico e as confederações possuem sobre toda cadeia esportiva? Têm alguma noção de que existem limitações ancestrais que influenciam os resultados?
A essa hora, os catedráticos em gestão ou algum “especialista” em esportes olímpicos devem estar loucos para perguntar se eu gostei do desempenho do Brasil?
Evidente que não! Sempre vou querer mais, muito mais. Também não defendo cegamente as gestões de todas as confederações, nem tampouco todos os atletas que não conquistaram medalhas.
Reconheço que existem ou existiram péssimas gestões em algumas confederações, federações e/ou clubes, assim como não nego que houve atletas que nos Jogos não renderam todo o seu potencial por não estarem preparados adequadamente.
Só não acho correto “atacarem” sem o devido conhecimento e/ou criticarem para ganhar espaço na mídia ou projeção em redes sociais.
A propósito, muitos desses após a derrota do vôlei masculino para a Itália na fase preliminar da disputa, chegaram a cogitar que o ciclo do Bernardinho como técnico já tinha terminado.
Foram calados pelos fatos, mas não serão intimados a "engolir" ninguém. Esporte não é gastronomia!

Que venham os próximos Jogos e que entendam que investir em esporte contempla também investir em segurança, saúde e educação e vice-versa.