terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Patrocínio se nega?

O anúncio do patrocínio da rede varejista Havan ao Vasco da Gama provocou nas redes sociais uma discussão que julgo bastante emblemática, principalmente a título de reflexão sobre as relações das empresas com o esporte.
A ala que se posiciona contra alega que o dono da empresa tem posições extremadas em defesa da direita, fato que guarda certa incoerência com as tradições populares do clube patrocinado.
Ora, inicialmente é preciso ficar claro que a pessoa jurídica não pode ser confundida com a pessoa física, ou seja, mesmo sendo a empresa de um dono a marca é outra, e como tal deve ter vida própria.
Claro que há o risco da contaminação, contudo essa avaliação requer análises menos rasas do que as que estão sendo feitas pelos ditos especialistas.
Um bom parâmetro que contribuiria nessa decisão pode vir do próprio resultado das lojas, isto é, se a participação de mercado da mesma está sofrendo com o jeito "extravagante" do seu dono, isso sem falar nas pesquisas de mercado para avaliação de eventual rejeição.
Já a discussão que coloca o clube como um bastião das tradições populares não me parece razoável pois o futebol é um esporte popular, não sendo o atributo popularidade um monopólio deste ou daquele clube, portanto, a eventual busca por se posicionar desta maneira contraria o princípio básico do posicionamento:  ser diferente na mente dos públicos-alvos.
Confrontando os opositores do patrocínio estão os que defendem a iniciativa com a alegação de que o clube precisa de dinheiro e, dessa forma, não pode recusar nenhum tipo de verba. Argumento que, no meu mode ver, reforça a imoral frase de que os fins justificam os meios e sobre a qual discordo veementemente.
Por mais que se necessite de dinheiro, é preciso pensar no longo prazo, ou seja, de nada adianta receber uma verba significativa hoje se houver um risco considerável de a base de torcedores não aumentar de forma sustentável.
Ressalto que falo em tese e não em relação ao caso da Havan.
Feitas as devidas argumentações, teria tudo para terminar o artigo sem uma posição definitiva sobre o tema, visto faltarem  pesquisas e informações sobre o patrocínio, inclusive em relação aos valores. Entretanto, a declaração do dono da empresa ao anunciar a parceria:  "Quero dizer para todos os vascaínos que em 2020 vai ter um patrocínio da Havan aqui. Está confirmado. É um presente de ano novo para todos os vascaínos. Obrigado", me faz tender a ser contra a iniciativa, na medida em que o empresário interpreta o patrocínio como um presente, ou seja, está fazendo um favor para os torcedores e não pensando no retorno que as partes poderão auferir, demonstrando claramente que não enxerga o esporte como uma ferramenta de marketing.





terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Então rescinde!

Um dia após fazer o lançamento dos novos uniformes, em tese para 2020, o Cruzeiro anunciou que irá rescindir o contrato com o fornecedor.
Apesar de estranho em função do espaço de tempo, trata-se de um direito que ambas as partes contemplam em contrato. Faltou acrescentar à informação acima que não apenas a coleção era nova, mas também o fornecedor, pois, seria a estreia da Adidas no clube mineiro em substituição à Umbro.
A inusitada situação lança luz sobre as mudanças que o mercado de fornecimento de material esportivo vem passando nesses últimos anos.
Após um aquecimento causado não apenas por uma avaliação um pouco distorcida sobre o retorno dos investimentos, mas também, no caso do Brasil, pela proximidade de megaeventos como Jogos Olímpicos e Copa do Mundo, as marcas passaram a ser mais criteriosas em suas ações e propor modelos de negócios diferentes.
Se no passado os principais clubes recebiam das marcas valores fixos mais variáveis baseados em performances esportivas e de  vendas, além de um número de peças de vestuário que permitia suprir com folga suas necessidades, agora a maioria ganha basicamente a parte variável e/ou as peças – mesmo assim numa quantidade inferior ao que era no passado.
É natural que toda mudança traga insegurança e insatisfação em um primeiro momento, o que se agrava em clubes de futebol, pois as alterações costumam ocorrer em mandatos presidenciais diferentes, o que deixa a gestão que sofre a mudança vulnerável quando comparada com a anterior. Em resumo, além do impacto que é causado no orçamento em função da redução de receitas, há que se justificar internamente pelo ocorrido, pois, certamente será colocado em dúvida o poder de negociação dos envolvidos.
O problema se agrava na medida em que não há mais muitos caminhos para buscar por se tratar de um movimento das marcas globais, o qual acaba se refletindo nas menores. Diante desse quadro, passa a surgir como opção as chamadas “marcas próprias”, aliás, bastante forte no Brasil.
Os clubes que aderiram a essa “modalidade” se dizem satisfeitos, devendo ser ressaltado que nenhum deles está entre os chamados doze grandes e tampouco têm parte significativa da torcida fora do próprio estado.
Dessa forma fica difícil afirmar se, caso o Cruzeiro venha a optar por ter uma marca própria, ele conseguirá tão bons resultados, até porque, uma marca global traz entre seus benefícios intangíveis o conceito de co-branding - a associação com marcas de relevância.
O mais curioso nessa história é que os clubes que optam pelas “marcas próprias” usam como uma das justificativas para a troca: "a distribuição ruim das grandes marcas", e o pior é que tanto a imprensa quanto a opinião pública embarcam nesse sofisma, certamente por desconhecerem que para haver distribuição é necessário que o varejo compre, isto é, para o produto chegar ele precisa ser pedido. Partindo desse corolário, um clube como o Cruzeiro deve refletir bastante se será capaz de ter uma equipe comercial que atenda boa parte dos pontos de vendas onde precisa estar presente para suprir seus torcedores e, aí sim, se terá condições de entregar.
Independentemente dos desafios que se enfrentará com esse tipo de fornecimento, a avaliação sobre sua efetividade passa antes de tudo por um comparativo entre as alternativas disponíveis – se é que existem -, tal avaliação deve vir despida de qualquer tipo de paixão ou parametrização com o que era no passado, e tendo como premissa básica a consciência de que o mercado mudou.





terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Um futuro sempre melhor

Se por um lado o fato de publicar um artigo no último dia do ano prejudica a audiência, por outro é uma ótima oportunidade para se passar uma mensagem com desejos de um futuro melhor, embora tanto o texto como o conceito sejam atemporais.
Melhorar não significa estar insatisfeito com a situação presente, mas sim estar em busca de uma evolução permanente, o que tem também como causa o dinamismo da sociedade.
Cumpre ainda registrar que tais melhorias não devem ser direcionadas somente às situações em que os “resultados não estejam a contento”, se assim fosse se geraria um comodismo que, talvez, nos deixasse com a percepção de que existe limite para o progresso.
Para ilustrar o racional desta mensagem utilizaremos uma notícia recentemente divulgada, a qual dá conta que a NBA estuda fazer algumas alterações no seu formato de competição.
Mas como assim? O que mais pode querer a liga que mais cresceu nos últimos anos? Uma liga que em 2009 faturava US$ 3,7 bilhões e dez anos depois soma US$ 8,01 bilhões de receitas.
Tal sucesso deve ser creditado à boa gestão, principalmente no tocante ao marketing, que, além de privilegiar o equilíbrio entre as equipes e dessa forma aumenta a atratividade da competição, transforma seus ativos em produtos altamente demandados e os distribui para toda parte do mundo - atualmente mais de 50 países recebem a transmissão dos seus jogos.
Pois bem, é justamente em função desta visão obsessiva pelo mercado que a NBA está sempre em busca do crescimento.
Entre as mudanças que estão sendo estudadas/cogitadas para a próxima temporada, quando a liga completará 75 anos de existência, estão:
- a criação de um torneio no meio da temporada, no caso em novembro e dezembro que, guardadas as proporções, poderia ser comparado às copas nacionais de futebol. Nessa competição haveria uma fase classificatória mais uma final com as oito melhores franquias que se enfrentariam em jogos únicos eliminatórios. 
O receio aqui é que as franquias resolvam poupar jogadores para preservá-los, o que diminuiria a atratividade do torneio. Para combater esse problema, a NBA pretende oferecer US$ 1 milhão por jogador da equipe campeã. 
- a elaboração de um desenho de campeonato que minimize os riscos de uma final sem a presença das melhores equipes, explico: hoje os playoffs acontecem dentro de cada uma das conferências, sendo a final disputada entre o campeão da leste contra o da oeste.
A mudança que se cogita faria com que a partir da semifinal, isto é, depois da 2a rodada dos playoffs,  os confrontos sejam definidos em função da classificação na temporada regular, ou seja, passa a ser possível ter uma final com times da mesma conferência.
Certamente a efetivação destas e das demais ideias se baseará em estudos e pesquisas, assim como deveria ser qualquer decisão em termos de gestão, mas a mensagem que fica é que o futuro sempre pode ser melhor independentemente de como esteja o presente.

Feliz 2020!






terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Por que parou?



O post dessa semana terá muito provavelmente um número baixo de leitores, fato que credito ao período de festas natalinas, o qual faz com que as rotinas e os ritmos se alterem.
Mesmo ciente dessa característica, optei em publicá-lo por duas razões: (i) manter o dia em que os artigos são publicados e, dessa forma, cumprir o acordo tácito com os leitores que se acostumaram com essa rotina; (ii) discutir sobre a "quebra de ritmo" que toma conta de vários setores da economia.
Não se questiona aqui o direito de as pessoas terem seus momentos de folga e relaxamento, tais ocasiões servem inclusive para renovar as energias e descansar. O ponto que se traz para a reflexão diz respeito ao período que isso envolve. Explico: mesmo os feriados sendo oficialmente nos dias 25 e 1o de janeiro, os demais dias que se avizinham já contemplam um clima de desaceleração que, no meu modo de ver, não deveria existir. Ok,dias 24 e 31 são "quase feriados", tudo bem, e os demais?
E a máxima que preconiza que no Brasil o ano começa na primeira 2a feira após o carnaval? Nem na 5af após a 4af de cinzas vale para dar início.
A alegação de que as férias escolares influenciam a marcação de férias dos pais faz algum sentido, pois essa linha de raciocínio indica que menos colaboradores estarão nas corporações. Entretanto, assim como se provisionam verbas para férias e demissões, deveria haver processos para que, mesmo com menos pessoas, o trabalho não fosse afetado em um espaço de tempo curto.
Ainda que muitas empresas tenham esse tipo de atuação com processos eficazes e culturas voltadas ao trabalho árduo, existem outras que não conseguem impingir o mesmo ritmo e, consequentemente, acabam contaminando a economia.
Ao contrário dos diversos estudos que avaliam o montante de impostos pagos pela população, ainda não tive acesso, e nem sei se existe, a algum que estime as perdas da economia em função da queda da intensidade aqui descrita. Seria interessante quantificar esses valores, pois, provavelmente, chegaríamos à conclusão de que uma postura diferente aceleraria a economia e proporcionaria mais qualidade aos períodos "oficiais" de férias e feriados curtidos, afinal de contas, um crescimento econômico viria acompanhado de redução do desemprego e até melhorias na remuneração.
Não saberia dizer as causas que levam a esse hábito, uma delas pode estar associada a uma preferência bem maior em não trabalhar do que trabalhar, não podendo ser descartada a cultura que acaba contaminando o ambiente, só que aqui entramos num looping pois vem a dúvida sobre as razões que levaram a essa cultura.
Creio que não caiba investir muito tempo especulando tais razões, sendo mais salutar pensar em como reverter esse quadro, ou até mesmo se vale essa tentativa de reversão.
Para concluir deve ser citado que há setores que não diminuem as atividades, valendo também lançarmos uma provocação acerca de eventuais oportunidades que podem ser desenvolvidas com as “folgas” da concorrência, ilustram essa condição algumas ligas que realizam partidas em datas como Natal e Ano Novo e assim conseguem excelente audiência.
No mais, desejo a todos bom descanso e um ótimo Natal!



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Distribuição ou desconhecimento?


A cada mudança de fornecedor de material esportivo ocorrida nos clubes de futebol costuma-se escutar os mesmos discursos exaltando o novo e "espetando" os antigos. 
Ainda que ignoremos os aspectos éticos que são desprezados quando as críticas públicas atingem alguma relação do passado, não podemos ficar cegos quanto à fragilidade de tais discursos no que tange ao embasamento sobre o assunto. 
Dentre as "frases prontas e sem nexo" que recheiam tais falas está a que promete uma distribuição de produtos melhor que a realizada outrora. 
Ao prometerem tal façanha certamente acreditam que o fornecimento de material esportivo é similar ao de bens de consumo com giro rápido e prazos de validade curtos, onde a logística é essencial para que o produto chegue aos canais de vendas através de melhores rotas, de veículos com as capacidades adequadas e pontos de armazenagem estrategicamente bem localizados e dimensionados. Devem crer ainda que o varejo só não tem o produto em sua área de vendas porque o fornecedor não entregou. 
Como já foi escrito outras vezes, as marcas esportivas baseiam sua produção nos pedidos que são feitos previamente pelos varejistas, além das estimativas dos gestores de suas lojas e e-commerce próprios, portanto, eventuais rupturas têm como causa principal o aspecto comercial e, se fôssemos elencar uma causa secundária poderíamos citar o lead time (período que compreende o tempo decorrido do pedido de um cliente até a efetiva chegada), o que nesse caso tem muito mais a ver com o tempo da produção. 
Para ficar mais claro usaremos o case do Fluminense, que acaba de anunciar a Umbro como sua nova fornecedora de material esportivo, acontecimento que criou uma enorme expectativa quanto a uma maior disponibilidade de produtos  em comparação ao que era no passado. Esse anseio pode até fazer algum sentido em função de a Umbro possuir operação fabril, ao contrário das marcas anteriores que terceirizavam essa etapa, o que, consequentemente, proporciona em tese capacidade superior para produzir mais rapidamente os pedidos extras - aqueles que "corrigirão" as estimativas de demanda pessimistas feitas na ocasião da pré-venda. 
Todavia, essa suposta vantagem não garante que as rupturas não acontecerão, até porque a expectativa do varejo é ainda a principal variável para se deixar o produto disponível ao consumidor, ou seja, se esse canal for muito conservador na gestão do seu capital de giro, as chances de ruptura continuarão a existir, e, por favor, não responsabilizem a Umbro por isso, mesmo porque a marca não possui lojas próprias. 
O ponto negativo que vejo na parceria diz respeito ao fato de a marca inglesa ter um portfólio restrito basicamente ao futebol, o que pode vir a ser um fator de fragilidade nas negociações com as key accounts. 
Por outro lado, é de se esperar que haja uma maior flexibilidade em relação ao desenho dos materiais. 
No cômputo geral achei a decisão excelente, principalmente diante da atual conjuntura desse mercado. 
Com esse parceiro, o único clube brasileiro detentor da Taça Olímpica continua a ter como fornecedor uma marca de relevado reconhecimento e importância, assim como são Adidas e Under Armour, o que fortalece o conceito de co-branding e dá visibilidade ao clube.