terça-feira, 22 de maio de 2012

São tantas variáveis...


Nunca é demais esclarecer que, ao contrário do que vem se popularizando, marketing é uma disciplina estratégica em sua essência

Eventos, publicidade, promoção e comunicação são ferramentas que uma gestão de marketing pode adotar, ou não, dependendo das necessidades identificadas e dos objetivos que se deseja alcançar. 
Nem sempre a solução de marketing para um problema está na comunicação, muitas vezes pode ser uma questão de precificação, distribuição ou até da formatação do produto. 
Portanto, qualquer decisão que se tome antes de uma análise minuciosa do cenário e da definição do que se objetiva será desperdício de esforço e recursos. 

Entender o processo de experiência de consumo é fundamental em todos os ramos de atividade, afinal são tantas variáveis...

A título de ilustração vamos fazer o exercício de analisar o comportamento do consumidor ao abastecer seu veículo. 
O nível de prazer nessa ação é baixíssimo, pois se trata de um bem intangível que faz o motorista perder tempo e gastar dinheiro sem ver o produto que está comprando, além de não detectar nenhum benefício naquele momento, ao contrário do que acontece, por exemplo, no consumo de um sorvete.
Diante dessa realidade, as distribuidoras tentam encontrar maneiras para minimizar os aspectos negativos dessa experiência.
Oferta de serviços alternativos, incorporação de lojas de conveniência e filtros transparentes nas mangueiras para que o combustível fique visível são algumas das iniciativas adotadas.
Claro que ninguém deixará de consumir combustível por ser desagradável abastecer, mas certamente as distribuidoras mais atentas às características do consumo conseguirão conquistar alguns clientes com boas iniciativas. 

Esse tipo de análise deveria ser feita em todos os segmentos econômicos, assim aproveitamos para focar o futebol. 

Muitos analistas preconizam que para aumentar o público nos estádios é necessário ter um espetáculo com bons jogadores, segurança, conforto, preços adequados e divulgação de aspectos que tragam motivação, tais como rivalidade, tabus, recordes, etc. 
Estão certíssimos, essas variáveis são fundamentais.
No entanto, existe outra que se não for resolvida urgentemente, principalmente no Rio de Janeiro, pode fazer com que o público troque a emoção da ida ao estádio pela conveniência de assistir ao jogo pela televisão. 
Refiro-me ao acesso e tempo para se chegar ao estádio
Tem sido cada vez mais constante o número de reclamações de torcedores que gastam mais de duas horas para percorrer distâncias inferiores a 20 km para chegarem às arenas onde ocorrem as partidas de futebol. 

Nesse caso, clubes e administradores do estádio pouco têm a fazer, visto que transporte e trânsito são atribuições do poder público, que se não tomar medidas cabíveis para a solução desse problema, potencializará o risco de afastar torcedores dos estádios e, consequentemente, criará um desequilíbrio na composição de receitas dos clubes, visto que dessa forma o faturamento com o chamado “match day” terá um percentual muito inferior ao das demais receitas. 
Essa situação, além de deixar as finanças dos clubes mais vulneráveis e dependentes dos direitos de transmissão e patrocínios, ainda pode, em longo prazo, afastar o torcedor do esporte, pois é sabido que a experiência de ir ao estádio é vital não só para motivação dos jogadores como também para o crescimento do esporte. 

Esperar que o mercado se autorregule pode até ser uma solução para a Economia, mas considerar essa hipótese para resolver problemas de transporte é inadmissível, ainda mais com a proximidade dos megaeventos.


8 comentários:

  1. Pleno de razão e sabedoria. Os posts aqui são uma verdadeira aula de como fazer para que o MKT dê resultados efetivos, se o operador e o elaborador das estratégias estiverem atentos a todos os ângulos do negócio.

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    1. Jackson
      Obrigado pelo comentário e pelas palavras.
      Abraço

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  2. Mas o clube pode, sim, tomar algumas atitudes para facilitar o acesso ao estádio.

    Em primeiro lugar, tecnológicas, algo que muitos times no Brasil já fazem, que é instalar catracas eletrônicas, cadastrar sócios-torcedores e dar-lhes cartões de acesso. Isso inibe fila em bilheteria.

    Mas veículos diversos e multidões continuarão a chegar no mesmo horário? Sim. E então o segundo passo é montar um "match day" mais completo. Se houver um show, um espetáculo ou algum tipo de atração, minimamente interessante, com interação com torcedores e brindes, dá para tentar trazer o torcedor para o estádio antes do horário do jogo.

    É mais difícil, envolve formar cultura, mas ajuda a racionalizar a chegada do público à arena.

    São algumas das ferramentas do clube, e não do poder público, para amenizar essa situação, de fato péssima para times que querem ter uma boa imagem.

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    1. Rodrigo
      Obrigado pelo comentário.
      Sem dúvida os clubes podem minimizar alguns dos problemas.
      Os associados do Fluminense, por exemplo, exercem seu direito de ir ao jogo via internet e usam sua carteira como ingresso.
      Concordo ainda que atrações antes do horário do jogo podem ajudar, mas não podemos nos esquecer que grande parte dos torcedores só podem sair do seu trabalho ou de seu curso pouco tempo antes do jogo.
      Abraço
      Idel

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  3. Idel,

    Nos últimos tempos estamos acompanhando uma diminuição do público nos estádios por todos os motivos que aqui já foram citados. Mas, gostaria de levantar alguns pontos que ajudam nessa evasão:

    - Aumento do preço dos ingressos;

    - Aumento significativo do nº de TVs nas classes inferiores a C. Nos anos 50, 60 e 70, quando esse numero era bem menor, a única forma de se assistir ao jogo era indo ao estádio. Não a toa, no Maracanã cabiam 200 mil pessoas;

    - Fácil avesso aos canais PPV (bares, restaurantes e gato-net nas comunidades). Isso ajudou a afastar ainda mais o torcedor geraldino e arquibaldo; entre outras coisa do mesmo tipo...

    A tendência, me parece, é ver o futebol nos estádios como um programa cada vez mais elitista, ficando a massa mais restrita a acompanhar pela TV.


    Antônio Júnior

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  4. Obrigado, Antonio

    Sem dúvida todos esses pontos podem ser ofensores da ida ao estádio.
    Mas não podemos esquecer que em outros países e em outras modalidades esportivas, mesmo diante de condições parecidas, é grande a presença em estádios e arenas.
    Abraço
    Idel

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  5. Pedro Mascarenhas29 de maio de 2012 12:26

    Boa tarde!

    Estive analisando o que disseram e o mesmo problema que se passa agora no Brasil já se passa em Portugal. É verdade que na Europa campeonatos com a Alemanha, Espanha ou Inglaterra têm taxas de ocupação superiores a 90%. Mas isto é também muito motivado pela componente da qualidade de jogo e cultura existente.

    Para além das soluções apresentadas, gostaria ainda de dizer que é importante trabalhar o setor juvenil. Estes são o futuro do clube e são eles que influenciam os pais. Em Portugal ve-se muitas crianças no futebol, mas podiam-se ver mais. É preciso criar experiências e momentos de contato com jogadores (por exemplo não convocados) para que as crianças queiram ir mais cedo e levem com elas os pais.
    E porque não algumas crianças torcedoras jogarem mini jogos no estádio antes do aquecimento?

    Por fim é preciso criar temas para os jogos. Se dia 12 é dia dos namorados então esse jogo pode ter este gancho comercial. E porque não as mulheres dos torcedores pagarem apenas 50% do bilhete?

    É preciso inovar e criar novas experiências para o fã.

    Esta é a parte interessante do marketing esportivo: como fazer com que um fã se torne cliente. É, como sabemos, o contrário de qualquer outra marca.

    A única marca porque provavelmente alguém chora é um clube de futebol. Já chorou por mais alguma? Ou se irritou com outra?

    Uma perspetiva europeia de Pedro Mascarenhas.

    Um abraço.

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  6. Boa abordagem, Pedro.
    Obrigado!
    Abraço

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