Martelo batido! Arias é jogador do Palmeiras.
Poucas experiências são tão desagradáveis para um torcedor quanto ver um suposto ídolo deixar seu clube. A dor até diminui quando o destino é o exterior. Mas, quando o retorno acontece para vestir a camisa de um rival, a sensação consegue ser ainda pior do que a da despedida inicial.
Por mais racional que eu tente ser ao analisar relações profissionais, confesso que foi difícil impedir que a passionalidade interferisse na lógica. Em alguns momentos, cheguei a pensar em defender que relações profissionais não deveriam abrir espaço para sonhos individuais. Sim, quase deixei a paixão arranhar minhas próprias convicções - eu, que sempre sustentei que pessoas são o ativo mais valioso de qualquer organização e, justamente por isso, precisam estar motivadas para desempenhar bem suas funções.
A insatisfação se intensifica quando lembramos que, na última renovação contratual, o Fluminense, ciente dos objetivos do jogador, empenhou sua palavra de que o liberaria diante de uma proposta que atendesse aos seus interesses. Quando surgiu a oferta do Wolverhampton, clube inglês sem grande expressão no cenário europeu, o tricolor se viu moralmente comprometido a cumprir o prometido. Como última tentativa, ofereceu ao colombiano um salário superior ao da proposta inglesa - ainda assim, a decisão não foi revertida.
Entendo perfeitamente a escolha do jogador na época. Dinheiro não é tudo. Entendo também a postura do Fluminense ao honrar sua palavra. Além disso, manter um profissional insatisfeito nunca é saudável para organização alguma - ainda mais alguém que verbalizava uma presumida gratidão ao clube que o acolheu em momentos importantes de sua vida pessoal.
O que não consigo entender é a razão do Arias ter afirmado, em sua despedida, que se voltasse a jogar no Brasil, seria pelo Fluminense.
Não escrevo para lamentar sua ida a outro clube. Faz parte do futebol. Faz parte da vida. O jogo segue.
Mas não posso deixar passar a oportunidade de destacar algo que parece cada vez mais raro: o valor da palavra. Cumprir o que se promete é obrigação básica, até porque sempre existe a opção de não prometer.
Infelizmente, vivemos um tempo em que promessas são feitas com a leveza de quem não pretende cumpri-las, em que conveniências momentâneas valem mais do que reputações construídas ao longo de anos, em que a gratidão se tornou artigo escasso. Quem trata a própria palavra como descartável pode até colher ganhos imediatos, mas invariavelmente deixa um rastro crescente de desconfiança, desgaste e relações irremediavelmente rompidas.
Pessoas sem compromisso com a própria credibilidade estão em todos os ambientes - do corporativo ao esportivo, da política às instituições. Algumas ocupam funções modestas, outras, posições de grande responsabilidade. O tamanho do dano varia, mas a raiz é a mesma: ausência de caráter.
No fim, títulos, cifras e cargos impressionam apenas os desatentos, pois o que realmente sustenta trajetórias sólidas continua sendo algo simples, antigo e insubstituível: dizer e cumprir.



Pelo menos ele se recusou a ir para o CRF…
ResponderExcluirEm relação a cumprir palavra, pouca diferença faz.
ExcluirMuito bom texto. Palavra é tudo
ResponderExcluirObrigado! Realmente, palavra é tudo.
ExcluirIrretocável-parabéns!
ResponderExcluirMuito obrigado!
ExcluirMuito bem colocado! Acrescento um certo narcisismo a falta de compromisso com a própria fala. Falta de caráter vêm junto com a falta de empatia. Abs
ResponderExcluirSem dúvida! Há muita falta nesse processo: empatia, caráter, educação, formação.
ExcluirAbs
Meu amigo Idel, em que pese o excelente texto, como sempre o faz, acho que um dia poderás revisitá-lo e quem sabe, enxergar os fatos com outro olhar. Sou um botafoguense nada fanático, mas acompanho o futebol e gosto de assistir alguns jogos e confesso que o jogador Arias sempre me encantou por sua forma de atuar para o time. Creio que foi um dos que mais jogos disputou nas vitoriosas campanhas do tricolor. Que me consta seu comportamento em campo e fora dele sempre foi exemplar, raro nesse meio. Acredito que ele tenha sido sincero em seus sentimentos no momento em que se despedia, pois o Fluminense o acolhera e o projetara e ali estava sua "família" em nossas terras. Não sei o que aconteceu com ele na Inglaterra, mas não é fácil adaptar-se a uma nova equipe, estrangeira e em outro país. O fato de não ter aceitado a proposta de retorno ao Fluminense, apesar de ter se comprometido, de forma irrefletida em momento de muita emoção, pode indicar que o profissional Arias tenha avaliado que sua ida para o Palmeiras, um grande clube dirigido por um grande treinador, seja uma oportunidade de aprendizado ou mesmo de passar pela experiência de trabalhar com outros grandes jogadores como o fez em sua estada no tricolor. Creio ser difícil avaliar o quanto pode significar para um jogador a participação em uma equipe que vem se mantendo no topo por tanto tempo. Abraço.
ResponderExcluirMeu grande e querido amigo
ExcluirA intenção do artigo não foi criticar o jogador, na verdade, o caso dele acabou servindo de mote para extravasar toda a minha indignação contra aqueles que empenham a palavra e não a honram.
Contra aqueles que prejudicam os outros por prometerem e não cumprirem.
Abração