A queda nas vendas de algum produto é um pesadelo para qualquer gestor de marketing. O reflexo padrão é buscar respostas no "quintal de casa": monitorar a concorrência direta, analisar estoques e investigar eventuais problemas que possam ter impactado o resultado. Tais ações, no entanto, podem não ser suficientes, já que o marketing estratégico exige um olhar periférico. É preciso avaliar o desempenho da categoria sob a lente da economia, pois, muitas vezes, o problema não é a perda da preferência ou contratempos internos, mas a mutação da demanda.
Atualmente, diversos setores do varejo atribuem a queda de performance ao desvio de renda para novas categorias. As apostas esportivas e até os fármacos para emagrecimento, surgem como os grandes vilões deste discurso. Mas, antes de validar essa suposição, é preciso resgatar três fundamentos econômicos essenciais.
Restrição Orçamentária (Budget Constraint) - o orçamento do consumidor é finito. Quando um novo gasto relevante emerge, ele não cria dinheiro, ele disputa espaço. Se uma categoria cresce sem aumento real da renda, outra, obrigatoriamente, encolhe. É um jogo de soma zero.
Efeito Substituição - ocorre quando o consumidor troca um hábito por outro que lhe entrega maior "utilidade percebida" no momento. Isso explica por que o varejo nota uma redução no ticket médio. O cliente não parou de comprar, ele apenas rebaixou a prioridade de certas categorias.
Efeito Renda – o gasto recorrente com apostas atua como uma "inflação interna". Mesmo que o salário nominal não se altere, o poder de compra disponível para o consumo tradicional encolhe. O dinheiro voltado para o jogo reduz a renda real disponível para outros setores da economia.
Este fenômeno é o que o mercado global chama de "Competition for Discretionary Spending" (concorrência pelo gasto discricionário).
Pelo prisma de marketing, o mestre Theodore Levitt já alertava que a concorrência não vem apenas de quem faz o mesmo produto, mas de qualquer coisa que dispute o mesmo "Share of Wallet" e/ou o tempo do cliente. No cenário atual, as casas de apostas não competem apenas entre si, elas competem, por exemplo, com a indústria de alimentos.
Dois fatores agravam essa concorrência intersetorial:
• A Ilusão do Investimento: Nas classes D e E, a aposta é frequentemente percebida não como lazer, mas como uma tentativa (equivocada) de investimento ou "renda extra".
• Contabilidade Mental (Mental Accounting): Richard Thaler (Nobel de Economia) explica como o consumidor segmenta o dinheiro. Ao apostar valores pequenos com alta frequência, o indivíduo subestima o impacto acumulado. Ele sente que gastou "apenas 10 reais", ignorando que, ao final do mês, a soma desses pequenos impulsos comprometeu o pagamento de uma conta essencial.
Diante deste cenário, é tentador - e um tanto simplista - apontar as apostas como a causa única da queda no varejo. Embora elas tenham conquistado um espaço inédito no share of wallet, a análise profissional exige cautela. O mercado de apostas, apesar de barulhento e em franca expansão, ainda é estatisticamente inferior ao volume total do varejo e de bens de consumo de massa.
A queda nas vendas, portanto, não deve ser lida como um fenômeno isolado causado pelas "Bets", mas como um sintoma de um ecossistema pressionado por juros persistentes, inflação de alimentos e uma mudança profunda nas prioridades de gratificação do consumidor.
Em última análise, o desafio do marketing não é apenas vencer o concorrente ao lado na gôndola, mas provar sua relevância em um orçamento cada vez mais fragmentado por novos hábitos digitais e impulsos comportamentais.
Atualmente, diversos setores do varejo atribuem a queda de performance ao desvio de renda para novas categorias. As apostas esportivas e até os fármacos para emagrecimento, surgem como os grandes vilões deste discurso. Mas, antes de validar essa suposição, é preciso resgatar três fundamentos econômicos essenciais.
Restrição Orçamentária (Budget Constraint) - o orçamento do consumidor é finito. Quando um novo gasto relevante emerge, ele não cria dinheiro, ele disputa espaço. Se uma categoria cresce sem aumento real da renda, outra, obrigatoriamente, encolhe. É um jogo de soma zero.
Efeito Substituição - ocorre quando o consumidor troca um hábito por outro que lhe entrega maior "utilidade percebida" no momento. Isso explica por que o varejo nota uma redução no ticket médio. O cliente não parou de comprar, ele apenas rebaixou a prioridade de certas categorias.
Efeito Renda – o gasto recorrente com apostas atua como uma "inflação interna". Mesmo que o salário nominal não se altere, o poder de compra disponível para o consumo tradicional encolhe. O dinheiro voltado para o jogo reduz a renda real disponível para outros setores da economia.
Este fenômeno é o que o mercado global chama de "Competition for Discretionary Spending" (concorrência pelo gasto discricionário).
Pelo prisma de marketing, o mestre Theodore Levitt já alertava que a concorrência não vem apenas de quem faz o mesmo produto, mas de qualquer coisa que dispute o mesmo "Share of Wallet" e/ou o tempo do cliente. No cenário atual, as casas de apostas não competem apenas entre si, elas competem, por exemplo, com a indústria de alimentos.
Dois fatores agravam essa concorrência intersetorial:
• A Ilusão do Investimento: Nas classes D e E, a aposta é frequentemente percebida não como lazer, mas como uma tentativa (equivocada) de investimento ou "renda extra".
• Contabilidade Mental (Mental Accounting): Richard Thaler (Nobel de Economia) explica como o consumidor segmenta o dinheiro. Ao apostar valores pequenos com alta frequência, o indivíduo subestima o impacto acumulado. Ele sente que gastou "apenas 10 reais", ignorando que, ao final do mês, a soma desses pequenos impulsos comprometeu o pagamento de uma conta essencial.
Diante deste cenário, é tentador - e um tanto simplista - apontar as apostas como a causa única da queda no varejo. Embora elas tenham conquistado um espaço inédito no share of wallet, a análise profissional exige cautela. O mercado de apostas, apesar de barulhento e em franca expansão, ainda é estatisticamente inferior ao volume total do varejo e de bens de consumo de massa.
A queda nas vendas, portanto, não deve ser lida como um fenômeno isolado causado pelas "Bets", mas como um sintoma de um ecossistema pressionado por juros persistentes, inflação de alimentos e uma mudança profunda nas prioridades de gratificação do consumidor.
Em última análise, o desafio do marketing não é apenas vencer o concorrente ao lado na gôndola, mas provar sua relevância em um orçamento cada vez mais fragmentado por novos hábitos digitais e impulsos comportamentais.


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