terça-feira, 25 de outubro de 2016

A imprensa que imprensa

O tema que será desenvolvido nesse artigo pode até, num primeiro momento, parecer fugir do objeto do blog, contudo, não podemos nunca perder de mente que um dos princípios de uma boa gestão está estritamente ligado ao cumprimento de normas e procedimentos estabelecidos, daí a razão desse texto. 
Como instrumento para desenvolvimento do tema, usarei o pleito do Fluminense, junto ao Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, para que o último jogo contra seu rival carioca fosse anulado, tendo como alegação a influência externa na decisão da arbitragem num lance em que um gol a seu favor foi invalidado.

Na discussão sobre o tema, parte da imprensa, aliás a mesma parte da imprensa que sempre persegue o clube, empunhou a tese de que o gol foi de fato ilegal. Entendo, porém, deveriam lembrar que o pleito do Fluminense não era relativo à legalidade ou não do gol, e sim ao cumprimento do regulamento que prevê anulação da partida no caso de interferência externa sobre a arbitragem. 


Não serão discutidos aqui os erros que validam gols ilegais e invalidam os legais pois, por mais que fiquemos indignados com tais equívocos, temos que compreender que decidir um lance em fração de segundos é algo extremamente difícil, daí surgir minha predileção para que os recursos tecnológicos sejam utilizados como auxílio da arbitragem.
Contribui ainda para defesa dessa “bandeira”, a dificuldade de se “blindar” os árbitros desses recursos, afinal, seria muita inocência da nossa parte achar que no intervalo das partidas, os lances polêmicos não são conversados tomando como base os vídeos produzidos pela TV. Mas isso é tema para outro artigo.
O que quero trazer à tona é a parcialidade das pessoas quando se trata de defender sua vontade, seu partido político ou seu clube, mesmo que isso vá contra o que determina a lei. Até entendo que se fique feliz ou infeliz com vereditos, prisões e punições que chegam ao nosso conhecimento, seria hipocrisia negar que há dentro de todos um lado passional, esse, porém, deve ser totalmente expurgado quando se trata de julgar, informar e exigir o cumprimento da lei.
Vale lembrar que o próprio rival, num passado não muito distante, pleiteou a anulação de um jogo por ter havido “influência externa” sobre a arbitragem, mas não obteve êxito. Assim como também não obteve o Fluminense, que ouviu por parte do STJD que a leitura labial não era uma prova conclusiva. Entendo - mais uma vez -, só gostaria de questionar sobre a razão da leitura labial ter servido como prova para a punição do Grêmio e de sua torcedora por ofensas ao goleiro do Santos.
Todavia, como não sou da área jurídica, prefiro não me estender sobre essa suposta incoerência. 
Volto assim à imprensa – parte dela, que se esclareça – que na ânsia de perseguir o Fluminense, expõe toda a sua fragilidade através de textos absurdamente incoerentes, deixando bastante  claro que são contra o ilegal até o momento em que a ilegalidade a beneficia.
Difícil entender a razão para esse tipo de postura. Seria fruto da ignorância? Algum interesse escuso não atendido? Quem sabe, algum recalque contra os que buscam o cumprimento de leis, regulamentos e estatutos, afinal de contas, tais pessoas já deram inúmeras provas de que não conseguem abrir mão de suas paixões mesmo que isso implique em ir contra o legal. Vão em busca das "suas justiças" com as próprias mãos, assim como fazem os “vingadores” e os corruptos que, não satisfeitos com suas remunerações, aceitam propinas para, dessa forma, terem um salário “justo”.

Perdoo os árbitros, errem esses a favor - não acho ganhar roubado mais gostoso - ou contra, mas não perdoo aqueles que, com tempo para pensarem, optam pela reverberação do ódio e fazem uso covardemente de suas armas.





terça-feira, 18 de outubro de 2016

Parente pode?

A escolha do técnico Tite para a seleção brasileira de futebol trouxe à tona um bom tema para reflexões sobre gestão: a contratação de parentes como funcionários. Nesse caso o problema surgiu em função do treinador desejar que seu filho faça parte da comissão técnica, sendo que o código de ética da CBF impõe essa restrição a qualquer indivíduo com relação de parentesco até segundo grau com outros gestores, executivos da CBF e seus conselhos e comissões.
Que fique claro que tal condição não é exclusividade da CBF, pois várias empresas privadas adotam diretrizes semelhantes.

Nunca consegui formar uma opinião a respeito desse tipo de determinação, entendo que é uma forma para se evitar nepotismos e eventuais favorecimentos dentro da organização.
Mas quem garante que um parente está sendo escolhido para algum cargo por ser próximo ao gestor que definirá a contratação? Ok, quem garante o contrário?
Como contraponto a essa diretriz restritiva, vem a argumentação de que cargos de confiança deveriam ser preenchidos por pessoas, evidentemente, de confiança do responsável. O que é verdade, mas será que só parentes dispõem dessa prerrogativa?
Óbvio que não, apesar de também concordar que é mais fácil trazer para a equipe alguém que já conhecemos do que correr riscos com estranhos.
Além do que, acho questionável e injusto que alguém seja preterido pelo fato de ser aparentado. 
Não podemos nos esquecer também que, muitas das vezes, uma relação de amizade é bem mais forte do que a que existe entre parentes.
Já vi empresas onde o namoro entre funcionários era permitido, mas caso houvesse a oficialização da relação um dos dois seria desligado, o que pode até ser encarado como uma forma de incentivo às relações “oficiosas”.
Em outras corporações, poderia até haver a relação, desde que atuassem em departamentos diferentes.
Nunca tive certeza se essas empresas temiam consequências no clima organizacional ou tinham receio de que a maior cumplicidade viesse a gerar situações de vulnerabilidade aos controles.

Toda essa argumentação não significa que eu discorde das empresas que adotem essa política restritiva quanto à admissão de parentes, até porque todas as ideias apresentadas têm como embasamento minha experiência na iniciativa privada, o que, talvez, comprometa a análise sobre empresas públicas.
Ressalte-se ainda que, apesar de guardar bastante semelhanças, a vida corporativa apresenta algumas diferenças em relação á esportiva, vide o caso de sucesso da dupla Bernardinho e Bruno. Já imaginaram o prejuízo que a seleção de voleibol sofreria com uma eventual restrição ao parentesco entre técnico e jogador?

O que pretendo com esse artigo é apenas provocar o exercício da reflexão, com a ciência de que regulamentos e normas são - em tese - elaborados por quem conhece bem o funcionamento e as eventuais fragilidades da organização para qual trabalha.


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Marcas e suas estratégias - Atletismo 2016

Em 2012, a Jambo Sport Business realizou um estudo sobre as estratégias das marcas que vestiram as equipes de atletismo nos Jogos Olímpicos de Londres, fato que rendeu um artigo nesse blog - http://halfen-mktsport.blogspot.com.br/2012/08/estrategias-das-marcas-no-atletismo.html. O mesmo trabalho foi agora realizado em relação aos Jogos de 2016, e mais uma vez achamos interessante aproveitá-lo para um artigo.
Quem tiver interesse em ler o estudo, pode acessá-lo através do link: http://pt.slideshare.net/jambosb/marcas-e-suas-estratgias-no-atletismo-rio-2016
Comparando as duas edições, pudemos constatar que a quantidade de marcas que vestiram as equipes aumentou de 26 para 27, devendo ficar claro que esse resultado não se deve simplesmente à adição de mais uma marca, visto que onze novos fornecedores entraram, enquanto dez não estiveram mais presentes. Vale ainda ressaltar que a quantidade de países sem fornecedor caiu de 61 para 42.
Em relação aos Jogos de Londres, houve 114 alterações de marcas nos uniformes das equipes. Nessas incluem-se também as equipes que não tinham fornecedor e passaram a ter, e vice-versa, além das trocas propriamente ditas. 
Sem entrar no mérito do investimento financeiro, já que esses valores não costumam ser revelados, é possível identificar, com relativo grau de assertividade, as estratégias das principais marcas esportivas.
A Nike se manteve como a marca mais presente com 62 equipes, dezessete a mais do que em 2012. A empresa norte-americana parece focar os países com grande número de atletas, tais como EUA, Alemanha, Canadá, Ucrânia e China - o que aumenta sua exposição -, além de países com forte potencial de medalhas como o próprio EUA e Quênia, dessa forma consegue associar sua marca também à performance. Complementa sua estratégia, estar presente em equipes de todos os continentes, sendo que o time de refugiados também usou sua marca. 
Na vice-liderança no que tange ao número de equipes, empataram Puma e Asics com 15 cada.
A Puma se destaca principalente por patrocinar o maior velocista de todos os tempos, Usain Bolt, e a equipe da Jamaica, fortemente associada à velocidade.
Enquanto a Asics teve entre suas principais equipes: o Japão, país onde fica a matriz da empresa e a França, que em 2012 tinha a Adidas como fornecedora. Com um investimento provavelmente bem menor do que as gigantes do setor, a marca japonesa aumentou seu alcance em termos continentais, já que passou fornecer para equipes das Américas do Sul e Central. 
A 4ª marca foi a Mizuno com 12 equipes, essa empresa, também japonesa, tem se caracterizado por fornecer para equipes menores e sem grandes perspectivas de medalhas. 
Completou a lista das 5 principais marcas, a alemã Adidas - presente em 10 times de atletismo - que sofreu algumas perdas de equipes importantes entre 2012 e 2016. O que se depreende aqui é que a marca alemã não tem priorizado o patrocínio às equipes nacionais de atletismo, talvez preferindo a opção do patrocínio individual, que lhe proporciona visibilidade mais frequente, ou ainda, investindo nos próprios comitês olímpicos nacionais, como fez com a  Alemanha.
Essas 5 marcas supriram 56,6% dos países, um nível de concentração 2,1 pontos percentuais superior ao encontrado nos Jogos de Londres.
Das 27 marcas que apareceram nos uniformes das 200 equipes que disputaram o atletismo no Rio, 17 subiram alguma vez ao pódio, sendo que uma representante de uma equipe sem “patrocínio” também conquistou medalha.
Se fossemos fazer um quadro de medalhas conquistadas por marcas, esse teria nas três primeiras posições na modalidade em 2016: Nike com 77 (29 de ouro, 27 de prata e 21 de bronze), Adidas com 20 (5 - 4 – 11) e Puma com 15 (7 – 4 – 4).
Vale, por fim, destacar a entrada de duas marcas cujos focos, até então, não eram tão voltados ao esporte, nem tampouco à modalidade: a polonesa 4F, que ao patrocinar o time de atletismo da Polônia - 70 atletas e três medalhas -, inicia um processo de solidificação de sua marca no cenário esportivo do país, além de aumentar seu recall globalmente; e a  multinacional sueca H&M de varejo têxtil, que vestiu não apenas o time sueco de atletismo, mas também todos os atletas olímpicos do país.



terça-feira, 4 de outubro de 2016

A liturgia do cargo

A maior exposição dos ocupantes de cargos de alto escalão requer cuidado redobrado em relação ao comportamento e às formas de se expressar. É o que costumam chamar de liturgia do cargo. Tarefa nada fácil, até porque, a maior exposição vem acompanhada de uma maior vulnerabilidade às críticas, independentemente de quão justas e coerentes essas venham a ser. 
Apesar do termo “liturgia do cargo” estar mais associado às funções públicas, ela se faz presente em todos os segmentos, o que varia é o grau de dificuldade para se mantê-la, o qual é influenciado, a meu ver, por seis grandes fatores:
  • Expressão do cargo – quanto mais alto o posto, maior será a exposição. Vide, por exemplo, a de um presidente da república comparada com a de seus ministros.
  • Influência da mídia – o espaço dedicado pela imprensa e pelas redes sociais costuma ser diretamente proporcional ao interesse público, o que faz com que os assuntos mais populares sejam muito mais noticiados e, consequentemente, provoque mais comentários/críticas. 
  • Fanatismo dos críticos – qualquer tema onde a racionalidade seja relegada a um plano inferior ao da paixão, apresenta argumentações tendenciosas, o que acaba deixando flancos abertos para reações exacerbadas e desproporcionais.
  • Popularidade do tema em questão – é importante esclarecer que popularidade não significa necessariamente conhecimento sobre o tema. Vemos, por exemplo, um enorme contingente de pessoas “discursando” sobre marketing, mas que nada sabem o que isso verdadeiramente significa.
  • Grau de democracia – aqui não me refiro apenas aos regimes políticos, mas também aos ambientes nos quais a hierarquia inibe eventuais manifestações mais “contundentes” de insatisfação. O ambiente corporativo exemplifica bem o que quero dizer, pois por mais que haja contrariedade em relação ao superior, essa fica na maior parte das vezes restrita aos cochichos dos corredores.
  • Paixão dos gestores – a referência aqui se dá aos gestores que, tal como os críticos, apresentam uma relação de paixão com a organização que prestam serviços. Tal característica os deixam mais suscetíveis a reações explosivas.
Diante dos fatores enumerados, creio que o melhor segmento para desenvolvermos o assunto, seja o de gestão esportiva, mais precisamente o futebol, pois satisfaz os seis pontos citados acima e ainda envolve o aspecto político como motivação para críticas, isso sem falar das divergências com os adversários.
Não há dúvida que o meio do futebol possui uma atmosfera de forte pressão, assim não nos surpreende que tantos dirigentes de clubes acabem se descontrolando em situações, onde a liturgia do cargo não deveria permitir. Claro que temos que considerar que são humanos, e como tais falíveis, porém essa reflexão quanto à imperfeição humana deveria ser feita antes de se candidatarem a cargos tão expostos. 
Ilustra o tema, duas notícias publicadas recentemente: numa delas narra-se que o presidente de um clube do Rio reagiu com xingamentos às atitudes hostis de torcedores adversários e na outra, uma confusão de um mandatário de um clube paulista com integrantes de uma torcida rival. São situações lamentáveis mas, como escrevi acima, de difícil controle, pois se tratam de reações.
O que considero de tal forma inadmissível, são ações premeditadas, aquelas em que se tem tempo para pensar nas consequências e na importância da liturgia do cargo. Nesse caso, as redes sociais são terrenos férteis para esse tipo de expressão.
Para finalizar reproduzo uma frase de um texto que escrevi quando deixei de ocupar a VP do Fluminense: “Uma das vantagens em não ser mais VP, é poder defender o Flu sem receio de que confundam uma opinião pessoal com a voz da instituição. ”