terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Um futuro sempre melhor

Se por um lado o fato de publicar um artigo no último dia do ano prejudica a audiência, por outro é uma ótima oportunidade para se passar uma mensagem com desejos de um futuro melhor, embora tanto o texto como o conceito sejam atemporais.
Melhorar não significa estar insatisfeito com a situação presente, mas sim estar em busca de uma evolução permanente, o que tem também como causa o dinamismo da sociedade.
Cumpre ainda registrar que tais melhorias não devem ser direcionadas somente às situações em que os “resultados não estejam a contento”, se assim fosse se geraria um comodismo que, talvez, nos deixasse com a percepção de que existe limite para o progresso.
Para ilustrar o racional desta mensagem utilizaremos uma notícia recentemente divulgada, a qual dá conta que a NBA estuda fazer algumas alterações no seu formato de competição.
Mas como assim? O que mais pode querer a liga que mais cresceu nos últimos anos? Uma liga que em 2009 faturava US$ 3,7 bilhões e dez anos depois soma US$ 8,01 bilhões de receitas.
Tal sucesso deve ser creditado à boa gestão, principalmente no tocante ao marketing, que, além de privilegiar o equilíbrio entre as equipes e dessa forma aumenta a atratividade da competição, transforma seus ativos em produtos altamente demandados e os distribui para toda parte do mundo - atualmente mais de 50 países recebem a transmissão dos seus jogos.
Pois bem, é justamente em função desta visão obsessiva pelo mercado que a NBA está sempre em busca do crescimento.
Entre as mudanças que estão sendo estudadas/cogitadas para a próxima temporada, quando a liga completará 75 anos de existência, estão:
- a criação de um torneio no meio da temporada, no caso em novembro e dezembro que, guardadas as proporções, poderia ser comparado às copas nacionais de futebol. Nessa competição haveria uma fase classificatória mais uma final com as oito melhores franquias que se enfrentariam em jogos únicos eliminatórios. 
O receio aqui é que as franquias resolvam poupar jogadores para preservá-los, o que diminuiria a atratividade do torneio. Para combater esse problema, a NBA pretende oferecer US$ 1 milhão por jogador da equipe campeã. 
- a elaboração de um desenho de campeonato que minimize os riscos de uma final sem a presença das melhores equipes, explico: hoje os playoffs acontecem dentro de cada uma das conferências, sendo a final disputada entre o campeão da leste contra o da oeste.
A mudança que se cogita faria com que a partir da semifinal, isto é, depois da 2a rodada dos playoffs,  os confrontos sejam definidos em função da classificação na temporada regular, ou seja, passa a ser possível ter uma final com times da mesma conferência.
Certamente a efetivação destas e das demais ideias se baseará em estudos e pesquisas, assim como deveria ser qualquer decisão em termos de gestão, mas a mensagem que fica é que o futuro sempre pode ser melhor independentemente de como esteja o presente.

Feliz 2020!






terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Por que parou?



O post dessa semana terá muito provavelmente um número baixo de leitores, fato que credito ao período de festas natalinas, o qual faz com que as rotinas e os ritmos se alterem.
Mesmo ciente dessa característica, optei em publicá-lo por duas razões: (i) manter o dia em que os artigos são publicados e, dessa forma, cumprir o acordo tácito com os leitores que se acostumaram com essa rotina; (ii) discutir sobre a "quebra de ritmo" que toma conta de vários setores da economia.
Não se questiona aqui o direito de as pessoas terem seus momentos de folga e relaxamento, tais ocasiões servem inclusive para renovar as energias e descansar. O ponto que se traz para a reflexão diz respeito ao período que isso envolve. Explico: mesmo os feriados sendo oficialmente nos dias 25 e 1o de janeiro, os demais dias que se avizinham já contemplam um clima de desaceleração que, no meu modo de ver, não deveria existir. Ok,dias 24 e 31 são "quase feriados", tudo bem, e os demais?
E a máxima que preconiza que no Brasil o ano começa na primeira 2a feira após o carnaval? Nem na 5af após a 4af de cinzas vale para dar início.
A alegação de que as férias escolares influenciam a marcação de férias dos pais faz algum sentido, pois essa linha de raciocínio indica que menos colaboradores estarão nas corporações. Entretanto, assim como se provisionam verbas para férias e demissões, deveria haver processos para que, mesmo com menos pessoas, o trabalho não fosse afetado em um espaço de tempo curto.
Ainda que muitas empresas tenham esse tipo de atuação com processos eficazes e culturas voltadas ao trabalho árduo, existem outras que não conseguem impingir o mesmo ritmo e, consequentemente, acabam contaminando a economia.
Ao contrário dos diversos estudos que avaliam o montante de impostos pagos pela população, ainda não tive acesso, e nem sei se existe, a algum que estime as perdas da economia em função da queda da intensidade aqui descrita. Seria interessante quantificar esses valores, pois, provavelmente, chegaríamos à conclusão de que uma postura diferente aceleraria a economia e proporcionaria mais qualidade aos períodos "oficiais" de férias e feriados curtidos, afinal de contas, um crescimento econômico viria acompanhado de redução do desemprego e até melhorias na remuneração.
Não saberia dizer as causas que levam a esse hábito, uma delas pode estar associada a uma preferência bem maior em não trabalhar do que trabalhar, não podendo ser descartada a cultura que acaba contaminando o ambiente, só que aqui entramos num looping pois vem a dúvida sobre as razões que levaram a essa cultura.
Creio que não caiba investir muito tempo especulando tais razões, sendo mais salutar pensar em como reverter esse quadro, ou até mesmo se vale essa tentativa de reversão.
Para concluir deve ser citado que há setores que não diminuem as atividades, valendo também lançarmos uma provocação acerca de eventuais oportunidades que podem ser desenvolvidas com as “folgas” da concorrência, ilustram essa condição algumas ligas que realizam partidas em datas como Natal e Ano Novo e assim conseguem excelente audiência.
No mais, desejo a todos bom descanso e um ótimo Natal!



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Distribuição ou desconhecimento?


A cada mudança de fornecedor de material esportivo ocorrida nos clubes de futebol costuma-se escutar os mesmos discursos exaltando o novo e "espetando" os antigos. 
Ainda que ignoremos os aspectos éticos que são desprezados quando as críticas públicas atingem alguma relação do passado, não podemos ficar cegos quanto à fragilidade de tais discursos no que tange ao embasamento sobre o assunto. 
Dentre as "frases prontas e sem nexo" que recheiam tais falas está a que promete uma distribuição de produtos melhor que a realizada outrora. 
Ao prometerem tal façanha certamente acreditam que o fornecimento de material esportivo é similar ao de bens de consumo com giro rápido e prazos de validade curtos, onde a logística é essencial para que o produto chegue aos canais de vendas através de melhores rotas, de veículos com as capacidades adequadas e pontos de armazenagem estrategicamente bem localizados e dimensionados. Devem crer ainda que o varejo só não tem o produto em sua área de vendas porque o fornecedor não entregou. 
Como já foi escrito outras vezes, as marcas esportivas baseiam sua produção nos pedidos que são feitos previamente pelos varejistas, além das estimativas dos gestores de suas lojas e e-commerce próprios, portanto, eventuais rupturas têm como causa principal o aspecto comercial e, se fôssemos elencar uma causa secundária poderíamos citar o lead time (período que compreende o tempo decorrido do pedido de um cliente até a efetiva chegada), o que nesse caso tem muito mais a ver com o tempo da produção. 
Para ficar mais claro usaremos o case do Fluminense, que acaba de anunciar a Umbro como sua nova fornecedora de material esportivo, acontecimento que criou uma enorme expectativa quanto a uma maior disponibilidade de produtos  em comparação ao que era no passado. Esse anseio pode até fazer algum sentido em função de a Umbro possuir operação fabril, ao contrário das marcas anteriores que terceirizavam essa etapa, o que, consequentemente, proporciona em tese capacidade superior para produzir mais rapidamente os pedidos extras - aqueles que "corrigirão" as estimativas de demanda pessimistas feitas na ocasião da pré-venda. 
Todavia, essa suposta vantagem não garante que as rupturas não acontecerão, até porque a expectativa do varejo é ainda a principal variável para se deixar o produto disponível ao consumidor, ou seja, se esse canal for muito conservador na gestão do seu capital de giro, as chances de ruptura continuarão a existir, e, por favor, não responsabilizem a Umbro por isso, mesmo porque a marca não possui lojas próprias. 
O ponto negativo que vejo na parceria diz respeito ao fato de a marca inglesa ter um portfólio restrito basicamente ao futebol, o que pode vir a ser um fator de fragilidade nas negociações com as key accounts. 
Por outro lado, é de se esperar que haja uma maior flexibilidade em relação ao desenho dos materiais. 
No cômputo geral achei a decisão excelente, principalmente diante da atual conjuntura desse mercado. 
Com esse parceiro, o único clube brasileiro detentor da Taça Olímpica continua a ter como fornecedor uma marca de relevado reconhecimento e importância, assim como são Adidas e Under Armour, o que fortalece o conceito de co-branding e dá visibilidade ao clube.





terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Especialista ou generalista?


O questionamento que dá título ao artigo costuma estar presente na mente daqueles que iniciam uma carreira corporativa ou que estejam buscando um profissional para alguma posição no organograma.
Vale salientar que a discussão levantada considera como objeto de reflexão a experiência em algum ramo de atividade e não o conhecimento específico de alguma área. A razão para adotarmos essa linha de desenvolvimento do texto é por se entender que, por mais experiência que se tenha em alguma área da administração, é requisito fundamental conhecer outras disciplinas.
Enriquece o assunto a defesa que o jornalista científico David Epstein faz no livro Range — Why Generalists Triumph in a Specialized World (“Abrangência: por que os generalistas triunfam num mundo de especialistas”), onde discorre sobre o maior valor do generalista citando casos na música e no esporte. Segundo Epstein, a razão de Roger Federer, por exemplo, ter atingido o sucesso se deve ao fato de na infância ter praticado diversas modalidades além do tênis, o que lhe propiciou uma maior experiência em ambientes diferentes.
Esta tese também pode ser derivada para o ambiente corporativo, já que existem inúmeros casos de profissionais que levam suas vivências e práticas de um setor econômico para outros com características diferentes e, dessa forma, conseguem excelentes resultados, o que tem provavelmente como causas: os questionamentos a paradigmas enraizados pelos especialistas e à visão distinta acerca do mercado.
Exemplos que contestem os casos citados também existem, no tênis vemos a jogadora Serena Williams praticando seu esporte desde a infância, assim como vemos executivos triunfando sem que para isso tenham atuado em ramos de atividade diversos.
Apesar de ver alguma coerência na frase de Bernard Shaw: “o especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada”, penso que, como tudo que acontece relativo à gestão, não há uma verdade absoluta para responder ao questionamento.
No que tange à seleção do profissional a decisão envolve entre outras coisas: a especificidade do cargo, a composição atual do time da empresa, os objetivos e a cultura da mesma, além do plano de carreira que se vislumbra para o profissional, e mesmo assim devendo se estar atento ao dinamismo do mercado. Já em relação ao rumo que se deve dar à carreira, a resposta à questão dá título ao artigo é ainda mais difícil, pois o dinamismo citado se faz ainda mais presente em função da perspectiva de tempo maior, cabendo então escolher em função do que entende ser mais convergente com suas aptidões e características, contudo, nunca se esquecendo de que o maior ativo de um profissional é o seu caráter e esse independe do quão generalista ou especialista se é.





terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Quem paga? O outro



Para grande parcela da população o governo deveria sempre e tudo subsidiar para assim fazer com que os produtos e serviços cheguem baratos aos consumidores. De onde viriam os recursos para esse fim é uma questão que nem passa pela cabeça dos que pensam dessa forma e caso sejam pressionados a responder, provavelmente dirão que isso não é problema deles. 
Talvez achem que dinheiro dê em árvore, ainda assim se esquecendo que o ato de plantar e cultivar requer investimento. 
O mesmo processo ocorre no setor varejista, onde os clientes reclamam dos preços das mercadorias, certamente supondo que a indústria e o próprio estabelecimento deveriam praticar margens menores. Desconsideram aqui que essa margem não pode ser tão pequena em relação a outras opções de investimentos, pois dessa forma muitas indústrias e estabelecimentos varejistas iriam encerrar suas atividades, acarretando assim num cenário em que os  preços seriam até maiores em função da diminuição de oferta, isso sem falar no maior índice de desemprego. 
Com os preços dos ingressos no futebol acontece a mesma discussão, só que em níveis até mais constrangedores, pois envolve jornalistas defendendo os preços baixos através de um discurso populista de inserção social. É óbvio que a inserção social deve ser sempre defendida, mas sinceramente não acredito que o pilar para essa causa seja o “ingresso de uma partida de futebol”. 
Há ainda que se ter em mente que o mesmo torcedor que clama por ingresso barato é também o que reclama por não ter bons jogadores na equipe. Nesse contexto fica difícil fechar a conta. 
Será que os jogadores estariam dispostos a diminuir seus salários para subsidiar os ingressos? 
Será que os mesmos jornalistas, que defendem a política de preços baixos, estariam dispostos a encurtarem seus salários para assim diminuir os custos das emissoras que detém os direitos de transmissão, ação que poderia redundar numa cota maior para os clubes que, assim, ficariam menos dependentes das receitas advindas da bilheteria? 
É claro que os questionamentos acima devem ser respondidos de forma negativa, mesmo porque o preço baixo irá obrigatoriamente derivar para ações fortes de cambismo diante do cenário de uma demanda maior. 
O que se pretende mostrar com o texto é que a solução “abaixe o preço” é fácil em um primeiro momento, porém pode trazer consequências que deixarão o mercado ainda mais desequilibrado e injusto. 
Por fim, sempre é bom esclarecer que o intuito do texto não é preconizar, tampouco defender margens exageradas, as quais também têm a capacidade de causar desequilíbrios até maiores, mas sim defender que a precificação seja praticada com uma visão macro da sociedade e não apenas de interesses de uma parte.