terça-feira, 2 de agosto de 2022

Isso não tem nada de mais?

Isso não tem nada de mais! Mas qual o problema? Fulano é correto! Não há nenhuma má intenção.
As frases proferidas acima costumam ser utilizadas como justificativas para atos que, mesmo não estando de acordo com os padrões éticos estabelecidos, recebem cargas de benevolência, cujas causas podem estar relacionadas à simpatia pelo autor do ato ou pelo histórico/frequência com que ocorre.
Para ilustrar tais situações, usaremos dois casos do esporte. O primeiro envolve o jogador do Barcelona, Gerard Piqué, sócio também de uma agência de marketing esportivo, a Kosmos, que intermediou o contrato relativo ao novo formato da Supercopa da Espanha, negociando os valores que cada clube receberia, assim como sua comissão pela operação. 
Diante dos salários auferidos ao longo da carreira e do histórico, até então livre de acusações quanto à correção, é bem provável que o zagueiro catalão não necessitasse de estar envolvido nessa operação.
Ainda que seja óbvio o conflito de interesses, a imprensa de Barcelona defendeu seu craque, enquanto a de Madrid teceu críticas.
Aqui fica evidente a influência da paixão na avaliação sobre os atos.
O segundo incidente diz respeito à denuncia de que o Boca Juniors presenteou previamente os árbitros de sua partida contra o clube boliviano Always Ready na fase de grupos da Libertadores 2022, sendo que a mesma foi decidida por um pênalti duvidoso a favor do clube argentino.
Segundo se comenta nos bastidores do futebol, tal prática é usual, vários clubes a fazem. Não se discute a intenção, até porque, em muitos das vezes, os próprios árbitros solicitam camisas dos times como lembranças.
Evidentemente que, mesmo que não haja nenhum tipo de influência na condução da competição, a prática depõe contra os padrões éticos que deveriam nortear as relações de conduta.
Assim chegamos a um termo bastante em voga nas grandes organizações: o compliance, que significa “obedecer” uma regra.
E se não existe regra definida? Boa pergunta! Na verdade, o termo engloba também os padrões éticos.
Talvez aqui resida o ponto nevrálgico da discussão: as possíveis interpretações para o termo “ética”, visto que, por conveniência e/ou ignorância a avaliação nem sempre é a correta.
Como já foi escrito acima, muitos julgamentos acerca do que é certo ou errado sofrem a influência da afinidade com os envolvidos, da vida pregressa do mesmo ou do quão normal o ato se tornou em função da frequência com que ocorre.
Diante desse quadro, é de fundamental importância que leis, normas, regulamentos e afins sejam escritos, divulgados e incorporados ao meio que se referem.
Por mais que pareça desnecessário estabelecer normas de condutas em nome de um suposto bom senso individual, esse não é padrão. Quem já presenciou alguém admitir que tenha mau senso? ´
Isso fica bem evidente no ambiente corporativo, onde muitas empresas aplicam quiz aos seus colaboradores como forma de aculturá-los com os conceitos de compliance. Os resultados, mesmo numa plataforma sem pressão e demais interesses envolvidos, assustam, tamanho a quantidade de respostas em não conformidade com o que é preconizado.
Além disso tudo, a triste realidade é que existem pessoas que realmente acreditam que certos atos, claramente em desacordo com os princípios morais, não têm nada demais. Por mais que seja um problema de índole, tais pessoas certamente passarão esses conceitos para seus filhos que, provavelmente, repassarão aos descendentes e assim por diante.
Voltando ao início do tema, a expressão “isso não tem nada de mais” é um bom gancho para concluirmos que, na verdade, tem é de menos. Menos educação, menos códigos de conduta e menos cumprimento ao que se é estabelecido.











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