terça-feira, 1 de setembro de 2026

Juros: o vilão preferido

Frequentemente, o noticiário tem nos brindado com matérias, para muitos surpreendentes, sobre novos pedidos de recuperação judicial no Brasil.
Em 2024 foram 2.273 pedidos, recorde da série histórica da Serasa Experian e crescimento de 61,8% em relação ao ano anterior. Em 2025, considerando a nova metodologia da instituição, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em processos de recuperação.
Em boa parte dos casos, sobretudo no varejo, um personagem aparece invariavelmente entre os responsáveis pela crise: a elevada taxa de juros.
Não há dúvida de que os juros têm peso relevante. Dinheiro caro aumenta as despesas financeiras, dificulta a rolagem das dívidas, encarece o capital de giro e ainda afeta o consumo, especialmente em categorias dependentes de crédito.
Mas será que explicam tudo?
Se a taxa de juros fosse a principal responsável pelas recuperações judiciais, seria razoável esperar que empresas submetidas às mesmas condições econômicas apresentassem desempenhos relativamente semelhantes. Não é o que acontece.
Em 2024, justamente quando o país registrou recorde de pedidos de recuperação judicial, as vendas do varejo brasileiro cresceram 4,7%. No ano seguinte, avançaram mais 1,6%, completando nove anos consecutivos de crescimento.
Até segmentos particularmente sensíveis ao crédito apresentaram expansão. Móveis e eletrodomésticos, por exemplo, registraram alta de 4,5% em 2025.
As diferenças aparecem também quando observamos as empresas individualmente. O Magazine Luiza, evidentemente impactado pela Selic, conseguiu atravessar o período recuperando rentabilidade e fortalecendo sua posição de caixa. A Renner encerrou 2025 com crescimento de 9,2% na receita líquida do varejo e melhora de margem. 
Enquanto isso, outras companhias chegaram à recuperação judicial.
Mesma Selic. Resultados opostos.
Empresas raramente chegam a essa situação de uma hora para outra. Em muitos casos existe uma combinação anterior de elevada alavancagem, expansão mal planejada, margens comprimidas, estoques inadequados, problemas de capital de giro, aquisições malsucedidas, governança deficiente ou estratégias que simplesmente deixaram de funcionar.
Quando o dinheiro está barato, essas fragilidades podem permanecer escondidas. Quando os juros sobem, tornam-se evidentes.
Uma empresa com dívida incompatível com sua geração de caixa ou com uma operação incapaz de sustentar o negócio vai se fragilizando ao longo do tempo. 
Nesse cenário, a elevação dos juros não necessariamente cria o problema, mas o agrava, reduzindo ainda mais a capacidade de refinanciamento.
Isso não diminui o impacto real de juros elevados sobre as empresas brasileiras. O equívoco está em transformá-los em explicação universal para situações que começaram bem antes do aperto monetário.
Juros altos não atingem todas as empresas da mesma forma porque elas não chegam ao período de juros altos nas mesmas condições. Algumas carregam balanços mais sólidos, operações eficientes e maior capacidade de adaptação. Outras entram no ciclo já fragilizadas.
No fim, os juros podem ser o gatilho que torna a crise visível. Mas, em muitos casos, a pólvora já estava armazenada dentro da empresa havia bastante tempo.