terça-feira, 15 de setembro de 2026

O outro US Open

Terminada mais uma edição do US Open, não faltam inspirações para a redação de artigos. Além das excelentes partidas, há uma série de imagens associadas ao torneio: as quadras azuis, o Arthur Ashe Stadium lotado, as grandes marcas e os principais tenistas do mundo.
Diante de tantas possibilidades, escolhi uma que permite explorar alguns conceitos interessantes de marketing: um copo com uma bebida rosada e três pequenas bolas verdes.
Trata-se do Honey Deuce, drink criado para a Grey Goose que se transformou em um dos símbolos do US Open.
A receita é relativamente simples: vodka Grey Goose, limonada, Chambord - um licor de framboesa - e três bolinhas de melão. O toque especial está justamente nelas. Cortadas com um boleador, lembram pequenas bolas de tênis.
Em 2007, primeiro ano do produto, foram vendidas cerca de 10 mil unidades. Em 2025, chegaram a 738 mil. Desde o lançamento, mais de 3,5 milhões de copos já foram comercializados. 
E o impacto ultrapassou os limites de Flushing Meadows: durante as duas semanas finais do US Open de 2025, as vendas de Grey Goose e Chambord em uma grande rede americana cresceram 243% em relação ao período imediatamente anterior.
Mais interessante do que os números é entender como um bem de consumo passou a fazer parte da experiência de um evento esportivo.
A Grey Goose poderia ter seguido o roteiro tradicional do patrocínio: exposição da marca, hospitalidade, publicidade e ações promocionais. Preferiu criar algo que o público deseja consumir, fotografar, compartilhar e até levar para casa, já que os copos também se tornaram itens colecionáveis.
Deixou, assim, de ser apenas uma marca presente no US Open para se tornar parte dele.
Nesse processo, as três bolinhas de melão têm papel fundamental. Elas criam uma conexão entre um produto sem relação natural com o tênis e a modalidade. E fazem isso sem precisar recorrer ao óbvio. A ligação é criativa, simples e imediatamente compreensível.
O caso também provoca uma reflexão sobre um conceito que ainda influencia muitas decisões de patrocínio: o de que uma marca deve investir prioritariamente em modalidades com as quais tenha associação natural.
Algumas conexões são evidentes. Material esportivo combina com esporte, isotônicos com atividade física e automóveis com automobilismo. 
Todavia, restringir o patrocínio a essas relações significa abrir mão de inúmeras oportunidades, especialmente para marcas de bens de consumo.
Afinal, bancos não jogam futebol. Empresas de tecnologia não disputam maratonas. Companhias aéreas não entram em campo. E bebidas alcoólicas não jogam tênis.
Mais importante do que perguntar qual esporte combina com determinada marca é descobrir como ela pode ganhar relevância em um universo frequentado por seu público-alvo.
É aí que o patrocínio deixa de ser apenas compra de exposição e passa a ser marketing de verdade: entender o público, criar experiências e construir associações que antes não existiam.
No marketing, boas conexões não precisam nascer prontas. Podem ser construídas.
Até mesmo com três bolinhas de melão.






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