terça-feira, 22 de setembro de 2026

O esporte precisa das bets?


A possibilidade de novas restrições às bets e a reação dos clubes de futebol, preocupados com o impacto sobre suas receitas, nos fornecem um excelente tema para analisar o mercado sob duas óticas que caminham juntas: marketing e economia.
A discussão sobre os efeitos sociais das apostas é legítima e necessária. Mas há outro aspecto que merece atenção: o que acontece quando um setor entra com enorme capacidade de investimento em determinado mercado e, depois, reduz sua presença?
No marketing, isso está longe de ser novidade.
Os investimentos em comunicação não são estáticos. Empresas aumentam ou reduzem verbas, mudam canais e propriedades de acordo com seus objetivos, estágio de desenvolvimento, ambiente regulatório e retorno esperado.
A história do patrocínio esportivo está repleta desses ciclos. Já vimos marcas de eletroeletrônicos buscando awareness internacional, telecomunicações expandindo sua presença, criptomoedas procurando legitimidade e companhias aéreas asiáticas ampliando sua exposição global.
Agora são as bets.
No Brasil, sua entrada foi particularmente agressiva. Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A tinham empresas de apostas como patrocinadoras máster. Em pouco tempo, um setor com grande disponibilidade de recursos passou a disputar um número limitado de propriedades relevantes.
Aqui o marketing encontra a economia.
Mais dinheiro disputando ativos cuja oferta não cresce na mesma proporção provoca um choque de demanda e eleva os preços. Foi o que aconteceu com diversas propriedades de patrocínio.
Mas o efeito não parou por aí.
O dinheiro adicional aumentou a capacidade de investimento dos clubes. Como o número de jogadores capazes de fazer diferença é limitado, mais recursos disputando praticamente os mesmos talentos elevam salários e valores de transferências.
Financeiramente, seria defensável que o clube utilizasse as novas receitas para reduzir dívidas, melhorar sua infraestrutura ou investir na base.
O problema é que ele não compete sozinho. Se seus adversários utilizarem os recursos para contratar melhores jogadores, quem não os acompanhar corre o risco de perder competitividade, receitas e até ser rebaixado.
Por isso, é simplista afirmar que os clubes deveriam apenas ter poupado ou destinado de outra forma o dinheiro recebido das bets. Poderiam, no entanto, ter aproveitado esse ciclo para aumentar seu próprio valor, investindo em marca, estrutura e relacionamento com seus torcedores, tornando-se mais atraentes para os próximos patrocinadores.
Essa questão ganha relevância porque as receitas comerciais tendem a ocupar espaço crescente nas finanças dos clubes. Broadcasting encontra limites na quantidade de conteúdo e horários disponíveis; matchday, na capacidade dos estádios e no preço que o torcedor aceita pagar. Já o commercial oferece mais possibilidades de criação de novas propriedades e receitas.
O avanço das receitas comerciais é uma tendência nos dois mercados. 
Isso não significa, porém, que elas virão sempre dos mesmos setores. Vale observar que, mesmo antes da entrada mais agressiva das bets, a participação percentual das receitas comerciais no futebol brasileiro já se aproximava da observada na Premier League. As apostas aceleraram esse crescimento e elevaram os valores envolvidos, mas não criaram a relevância dessa fonte de receita.
O risco advindo de uma eventual proibição está na velocidade do ajuste: receitas podem diminuir rapidamente; contratos e salários, não.
Diante disso, não creio que a solução passe por uma proibição abrupta neste momento, tampouco por restrições igualmente abruptas. Ambas merecem ser estudadas e, caso implementadas, deveriam contemplar prazos razoáveis de transição.
O que não faz sentido é afirmar peremptoriamente que as bets são o “sustento do esporte”.
Elas não criaram sua audiência, sua paixão, seus ídolos ou sua capacidade de engajamento. Investiram porque encontraram no esporte uma poderosa plataforma para atingir seus objetivos de marketing.
Antes delas vieram outros setores. Depois delas, outros virão.



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