terça-feira, 13 de outubro de 2020

Naming Rights nos EUA - 2020

A Jambo Sport Business publicou recentemente um estudo sobre os naming rights nas arenas dos Estados Unidos, o qual pode ser acessado através do link https://pt.slideshare.net/jambosb/arenas-e-naming-rights-eua-2020
A amostra para a análise contemplou todas as instalações usadas pelas 161 equipes que disputam as seis principais ligas de esportes coletivos nos EUA: MLB (Major League Baseball), MLS (Major League Soccer), NBA (National Basketball Association), NFL (National Football League), NHL (National Hockey League) e WNBA (Women National Basketball Association), o que totalizou 139 instalações. A divergência de números entre equipes e arenas se dá em função de muitas delas abrigarem mais de um time. O Staples Center, por exemplo, recebe os jogos de duas equipes da NBA: o Los Angeles Lakers e o Clippers, além do Sparks da WNBA e do Kings na NHL.
Desse total, 81,3% têm os direitos do nome negociados, um aumento de 7,4 pontos percentuais em relação ao estudo similar feito em 2012.
Já o número de marcas que são detentoras de naming rights ficou em 99 no recente estudo, visto que muita delas dão nome a mais de uma arena, o que é o caso da Rogers Communications com o Rogers Centre, Rogers Arena e Rogers Place.
O trabalho teve como principais focos: (i) identificar os objetivos mercadológicos dos detentores dos naming rights e (ii) os eventuais atributos que poderiam ter correlação com a definição dos valores pagos, tomando como base os contratos que têm seus números revelados ou, ao menos, especulados pela imprensa. Aqui deve ser ressalvado que algumas negociações não são divulgadas e, mesmas as que são, na maioria das vezes, não elencam todas as contrapartidas incluídas no compromisso.
Uma maior duração do tempo do contrato implicaria em cifras mais altas, visto assim se precaver contra uma eventual inflação? Teriam os contratos mais recentes valores mais altos do que os feitos no passado? Há algum tipo de correlação entre o número de assentos e os valores? Seria o número de equipes que usam a instalação um balizador? A atratividade da cidade para turismo e negócios tem algum tipo de influência?
Há ainda que se considerar que muitas dessas instalações também são utilizadas para espetáculos musicais e demais eventos culturais, os quais, muitas vezes, têm um apelo até maior para os patrocinadores. 
Após diversos cruzamentos não foi detectada nenhuma correlação significativa entre os valores dos contratos e os fatores quantitativos citados acima. Todavia, foi possível perceber que elementos qualitativos como status e credibilidade parecem estar norteando o interesse das marcas, ou seja, ainda que se consiga auferir algum tipo de receita com ativações nos locais, os aspectos intangíveis têm forte poder de atração.
O estudo mostra também que há uma forte concentração de empresas do setor financeiro como detentores de naming rights (39,4%), seguidas de longe pelas de bens de consumo com 10,1% de participação.
Outro dado bem interessante diz respeito à grande incidência de empresas que adquirem esses direitos nos estados (56,6%) e cidades (32,7%) onde estão localizadas suas sedes.
Essa característica reforça a conclusão de que as motivações qualitativas exercem forte influência na decisão quanto a esse tipo de investimento, que privilegia, entre outros, uma espécie de marcação de território e a imagem de ser “dono” de uma instalação onde são realizados eventos que movimentam a população da região, incluindo as partidas dos times da cidade.
Há inúmeras outras informações, as quais, por falta de espaço aqui não puderam ser mencionadas, daí sugerirmos a leitura do estudo que, certamente, ajudará a ter uma ideia melhor desse mercado, tão pouco explorado no Brasil.

PS: Estarei falando sobre esse estudo no II Encontro Nacional de Marketing Esportivo no dia 27 de outubro às 10 h. As inscrições para o evento são gratuitas e devem ser feitas pelo site sportxp.com.br


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Assassinato de reputações

O massivo uso das redes sociais tem sido responsável pelo aparecimento de uma situação bastante complicada, cuja expressão que dá título ao artigo traduz bem o que se pretende explorar. Não se faz referência aqui apenas às “fake news”, mas sim ao caráter opinativo e multiplicador que elas exercem.
Qualquer pessoa que se torne um pouco popular em qualquer atividade, logo será questionada, não importando aqui sua real capacidade, tampouco à dos que a criticam.
O que no passado se restringia às rodas de conversas que, “embasadas” por notícias divulgadas na imprensa, geravam discussões, agora, aditivadas pelo alcance das redes sociais se reproduzem acrescidas de pontos de vistas pessoais, a maioria sem base, até se formar um contingente considerável de críticos do que ouviram falar.
Peguemos as avaliações sobre técnicos de futebol. Quem nunca teceu algum comentário sobre a incapacidade de um treinador, citando inclusive qual teria sido o erro cometido e decretando uma conclusão definitiva, coincidentemente: a sua opinião. Sabe-se lá por qual razão, esquecem que o técnico possui muito mais conhecimento do que está acontecendo no ambiente – como têm sido os treinos, os problemas médicos, os aspectos emocionais, etc. – do que seus críticos, isso sem falar da maior experiência e sucesso na função.
Embora não sejam posturas muito razoáveis, podemos até entendê-las ao evocar a paixão incutida no esporte, a qual muitas vezes não nos deixa ver o quão possivelmente injustos e presunçosos estamos sendo nessas situações. 
O problema fica ainda maior quando esse tipo de comportamento transcende para áreas onde a emoção não deveria se manifestar. Talvez o paralelo feito acima com o esporte explique com perfeição a causa desse, digamos, “fenômeno” do crescimento desordenado de especialistas.
Decisões do judiciário são julgadas como boas ou ruins, simplesmente pelo fato de coincidirem ou não com o que estamos torcendo. Isso mesmo, se queremos que alguém seja preso, não importa o que diz a lei, qualificaremos o decisor em função da coincidência ou não da nossa “torcida”
Ah, mas nem mesmo os profissionais da área são unânimes na sua interpretação, portanto, é possível sim, questionar a decisão. Verdade, mas atentem que nesta argumentação foi incluída a expressão “profissionais da área”, ou seja, pessoas que, em tese, estudam e têm experiência no tema. 
Os dois exemplos citados já seriam suficientes para sintetizar o problema, porém, infelizmente, a quantidade de áreas que são alvos de críticas por parte de quem não conhece é enorme: médicos passaram a ser avaliados em função da prescrição de certos remédios, economistas em função das reformas, profissionais de marketing por pessoas que nem sabem o que isso significa, e por aí vai.
Na verdade, basta ter um mínimo de projeção junto à opinião pública que o processo de desconstrução se inicia.
É óbvio que todos podem, e devem ter opiniões, mas o grau de certeza quanto às mesmas e a forma de se expressar precisam ser calibrados em função do que efetivamente se conhece sobre o tema.
Daí se origina a menção às redes sociais como cúmplices dos “assassinatos de reputações”, visto terem se tornado um terreno seguro para covardes que encontram semelhantes e ignorantes para aplaudirem e reverberarem suas tolices agressivas.




terça-feira, 29 de setembro de 2020

A sorte de ter sorte


Quando alguém vai participar de algum evento, seja uma competição, uma entrevista de emprego, ou qualquer outra atividade na qual os resultados dependam de variáveis que fujam ao domínio do participante, é comum ouvir: “boa sorte”!
Por entender que existam inúmeros questionamentos quanto à efetiva necessidade de se ter sorte, aproveitaremos esse artigo para abordar o tema, ilustrando-o com um caso que consegue abordar tanto o lado do esporte como o de um “processo seletivo”: o início da carreira do técnico alemão Roger Schmidt, atual treinador do PSV Eindhoven da Holanda.
Em 2003, Schmidt jogava no futebol alemão pelo SC Padermon e foi por lazer assistir a um jogo do Delbrücker SC, clube vizinho que disputava a liga correspondente a uma espécie de 5ª divisão. No estádio, conversando com seus amigos, chamou a atenção do presidente e principal patrocinador da equipe - uma padaria – em função dos seus comentários inteligentes e simples. Foi o que bastou para que o presidente passasse a convidá-lo insistentemente para ser o técnico de sua equipe, até que um ano e meio depois Schmidt aceitou, ainda assim dividindo o tempo com sua profissão de engenheiro.
Sua atuação como treinador levou a equipe à conquista do campeonato e lá permaneceu por três anos, indo depois para equipes que disputavam ligas mais qualificadas, até que em 2012 passou a dirigir o Red Bull Salzburg, transferindo-se em 2014 para o Bayer Leverkusen, em 2017 para a China, até assumir o PSV Eindhoven em 2020.
Diante dessa evolução não há como negar sua capacidade, porém, se retrocedermos ao início, veremos que a sorte de estar no estádio perto do presidente/patrocinador de um time e conversando com seus amigos, foi fator fundamental para um novo direcionamento de carreira, a qual que ele sequer pretendia seguir. 
É fato que o sucesso é um somatório de talento, trabalho árduo e sorte, pouco adianta ser extremamente competente e preparado se não houver uma posição/vaga em dado momento para o profissional, assim como também de nada adiantará estar no local certo, na hora certa, se faltar a competência. Vale salientar que o conceito “competência” é bastante subjetivo e volátil, o fato de ser "melhor" não significa ser o melhor para aquele cargo ou para aquela competição naquele momento. 
Em ambientes altamente competitivos, então, a sorte tem uma importância ainda maior, corrobora para essa tese o conteúdo do livro Success and Luck, onde o economista Robert Frank se utiliza de estudos para mostrar que o melhor candidato em processos seletivos vence em um número reduzido de casos. Na mesma linha de raciocínio, dispõe que numa economia muito competitiva o "acaso" é determinante para o sucesso.
Conclusões que, no meu modo de ver, fazem total sentido, pois, na medida em que a preparação e o talento estejam praticamente equiparados, restará a sorte como um instrumento decisivo. Não se pode desprezar aqui a influência da autoconfiança como fator de atratividade para a sorte, ou seja, estar bem preparado costuma ajudar a ser mais confiante nos desafios e, dessa forma, aparentemente trazer a sorte como aliada.
Inúmeros eventos corroboram para as teses que reconhecem a influência da sorte, no entanto, há também os negacionistas, geralmente pessoas que obtiveram sucesso através de muito esforço e que preferem negligenciar a participação da sorte. Compreensível. Uma analogia oriunda do ciclismo e do atletismo nos mostra que é fácil perceber as situações em que o vento sopra contra, o mesmo não ocorre quando é a favor, assim a acontece com a sorte.
O tema é bastante rico, mas para sumarizá-lo finalizamos com uma frase do tricolor Nelson Rodrigues: “Sem sorte não se come nem um Chicabon. Você pode engasgar-se com o palito ou ser atropelado pela carrocinha.”


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Me engana que eu gosto!

Em organizações consideradas sérias, as demandas por pesquisas de mercado costumam ser direcionadas e/ou sugeridas pela área de marketing. No caso das demandas advindas dos clientes internos, o marketing busca entender as razões que levam ao pleito por esse tipo de ação para, a partir daí, iniciar – ou não – todo o processo de contratação de instituto e demais interações com o mesmo. 
O “ou não” no parágrafo acima pode parecer um pouco intrigante, mas acontece, ou pelo menos deveria acontecer com relativa frequência, tamanha costuma ser a quantidade de solicitações sem embasamento. 
A triste realidade é que grande parte dos demandantes desejam a pesquisa para simplesmente extrair números que sirvam para deixar suas apresentações "bonitas", ao invés de utilizá-los como fonte de informações para elaboração de planos e tomadas de decisões. 
É difícil afirmar se fazem isso por desconhecimento quanto à utilidade da ferramenta ou por razões voltadas a alguma espécie de defesa à manutenção do seu emprego. Na verdade, essas causas podem até se confundir, afinal um profissional que não consegue entender a necessidade de informações para executar sua tarefa, tem razões de sobra para pautar sua conduta profissional priorizando a defesa do seu emprego em detrimento à de sua empresa, esquecendo, provavelmente, que os bons resultados da corporação são fundamentais para sua estabilidade e desenvolvimento. 
Embora considere a situação relatada bastante nociva para a organização, lamento informar que há algo ainda pior no que se refere às pesquisas: a manipulação dos resultados, a qual pode ser feita através da divulgação dos números que interessam aos demandantes, ou, pasmem, na construção do questionários, de forma que as perguntas induzam a “respostas mais agradáveis”. 
Não faz muito tempo, me deparei com um gestor perguntando sobre a necessidade de se incluir certa pergunta acerca de um dado atributo para mensurar a satisfação dos clientes, visto que a avaliação ali seria negativa e abaixaria a média geral. 
Mas como assim? Como pode alguém demandar uma pesquisa para não saber a realidade? 
Desvio de caráter poderia ser a resposta, mas para não ser muito radical, vamos considerá-la como “uma das possíveis respostas”. 
A outra opção seria a ignorância, afinal investir recursos em pesquisas para não se ter as respostas que auxiliariam a condução e correção da gestão beira às raias da idiotice. 
Independente da causa, a indagação do gestor citado no texto teve como retorno a explicação de que a intenção da pesquisa não era obter notas boas para mostrar sabe-se lá para quem, mas sim saber como os serviços e produtos eram percebidos, o que permitiria, não apenas avaliações futuras melhores, mas, principalmente, a retenção e a conquista de clientes. 
Como não foi enganado, presumo que não tenha gostado da resposta...


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Parabéns, US Open?


A edição corrente do Grand Slam dos Estados Unidos trouxe como um dos fatos mais comentados a desclassificação do tenista Novak Djokovic, atual primeiro colocado no ranking e que busca ser o maior vencedor de torneios dessa magnitude.
A desclassificação teve como causa o arremesso de uma bola na direção de um dos juízes, valendo salientar que, sem força e, provavelmente, sem a intenção de atingir.
Como a regra preconiza a eliminação, não obstante de intenção e/ou intensidade, não houve apelação, apesar da comoção causada.
As redes e as rodas de bate-papo, é claro, promoveram debates interessantíssimos, onde alguns criticaram a organização pelo suposto exagero, enquanto outros aplaudiram a decisão. 
Os que não entendem que o esporte é um efetivo agente de formação protestaram, argumentando que a saída da principal atração prejudicaria o torneio e, consequentemente, patrocinadores e telespectadores. 
Na realidade, os patrocinadores devem ter ficado até satisfeitos por constatarem que estão investindo em um evento que preserva o respeito ao que se é acordado acima de tudo.
A “não desqualificação” do sérvio abriria um precedente perigosíssimo, corroborando assim para a tese de que leis e regulamentos não se aplicam a todos, isso sem falar nos riscos para a credibilidade do torneio.
A propósito, é bem interessante observar as negociações que as pessoas conseguem realizar internamente para justificarem suas “predileções”, utilizando argumentos que jamais fariam uso se o beneficiado fosse um desafeto. 
Lembremos que no campeonato Brasileiro de futebol de 2013, a Portuguesa de Desportos escalou um jogador de forma irregular, o que redundou na perda de alguns pontos, os quais culminaram no seu rebaixamento. Nessa ocasião, e até hoje, vimos parte da imprensa, para não dizer a maioria, se posicionar contra o cumprimento do regulamento por esse, supostamente, beneficiar o Fluminense. Na verdade, o principal beneficiado seria outro clube que também tinha utilizado um jogador em desacordo com o regulamento, mas aparentemente foi mais cômodo - ou lucrativo - para alguns jornalistas e torcedores distorcer e ocultar a realidade.
Independentemente do ambiente, é vergonhoso ver defensores do descumprimento de leis, sendo que no caso do esporte, é ainda pior.
No episódio do Djokovic, chama também a atenção ver pessoas exaltando a decisão do torneio, isto é, enaltecendo o cumprimento do regulamento, o que não deveria ser algo tão espetacular assim, afinal isso não passa de uma obrigação.
O que ocorre é que diante de inúmeros casos de não cumprimentos de leis, ou de interpretações das mesmas que venham a beneficiar os “mais favorecidos”, a atitude da organização acabou ganhando elogios, ao invés de reconhecimento. 
Um sinal bastante claro de que princípios e valores correm sérios riscos nos dias atuais.