terça-feira, 29 de setembro de 2026

Militância não é networking

No ano passado, escrevi sobre as transformações que vêm ocorrendo no perfil das postagens no LinkedIn, especialmente sobre a ascensão da autoexaltação e dos textos produzidos por inteligência artificial. Na ocasião, fiz inclusive uma analogia com o ciclo de vida dos produtos, conceito clássico e fundamental do marketing.
Dei o tema por encerrado. Contudo, a recorrência de situações concretas me levou a retomar a reflexão sobre a plataforma.
Volta e meia, sou procurado por conhecidos do meio profissional em busca de indicações de executivos ou fornecedores. Recentemente, alguém com quem desenvolvi uma relação profissional me pediu a recomendação de uma agência de comunicação. 
O negócio em questão era bastante específico e demandava modernização, o que exigia um perfil técnico bem definido. Recorri, então, ao LinkedIn para mapear possíveis nomes entre minhas conexões, elaborei uma short list e passei a analisar os perfis com mais atenção.
Foi nesse processo que me deparei com um caso emblemático. Um dos perfis apresentava uma quantidade expressiva de postagens de cunho político, em tom marcadamente ideológico. Inicialmente, pensei tratar-se de uma publicação isolada. Não era. O volume era tão grande que sequer consegui localizar conteúdos relevantes relacionados à atuação profissional daquela pessoa, o que inviabilizou qualquer tentativa de embasar uma recomendação.
Cheguei a cogitar uma abordagem privada, sugerindo a remoção das postagens, mas o grau de fanatismo expresso indicava que tal iniciativa seria improdutiva. Optei, portanto, pelo caminho mais racional: não realizar a indicação.
Independentemente da ideologia defendida, há um claro desvio de propósito nesse tipo de conteúdo. O LinkedIn se propõe a ser uma rede voltada a negócios, carreira e compartilhamento de conhecimento profissional. Causa estranheza que profissionais de marketing, em especial, negligenciem o fato de que potenciais clientes podem se sentir desconfortáveis em contratar empresas cujos fundadores ou executivos se posicionam politicamente de forma intensa e pública, gerando associações indesejadas entre a marca do prestador de serviços e a marca do cliente.
Cabe, então, uma reflexão: será que essas pessoas acreditam que serão mais bem avaliadas por clientes, recrutadores e demais stakeholders por declararem apoio a determinado ator político e repulsa a outro?
É evidente que todos têm o direito de expressar suas convicções pessoais. Mas é igualmente legítimo questionar se o LinkedIn é o ambiente mais adequado para isso.
Quem compartilha da mesma visão ideológica pode apreciar esse tipo de conteúdo e reforçar as manifestações do autor das postagens. Quem discorda, por outro lado, pode rejeitá-lo, confrontá-lo ou simplesmente descartá-lo como alternativa profissional.
Em um ambiente cujas principais moedas são reputação, credibilidade e relevância profissional, o uso do LinkedIn como palanque político parece, no mínimo, uma decisão estratégica questionável. Ao substituir conteúdo técnico por militância, o profissional não apenas restringe seu alcance e suas oportunidades, como também compromete a essência da rede: a construção de conexões baseadas em competência, valor gerado e visão de longo prazo. 
No fim, mais do que uma questão ideológica, trata-se de coerência entre canal, propósito e posicionamento.


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