terça-feira, 20 de setembro de 2016

Estádio ganha jogo?

Muito se comenta sobre a baixa taxa de ocupação dos estádios brasileiros.
Nas reflexões sobre o tema, a responsabilidade costuma cair sobre o preço dos ingressos e a qualidade dos espetáculos. Faço coro aos argumentos, porém acho simplório não considerar também a conjuntura econômica, a segurança, o calendário e até o momento do time. Sintetizando, parece que o valor do ingresso está desproporcional ao que é oferecido.
Ainda na análise econômica e mercadológica do caso, é preciso considerar que o preço do ingresso precisa remunerar os custos envolvidos na cadeia produtiva da atividade.
Chegamos aqui ao modelo Belíndia que já explorei no artigo "O ingresso está caro e o valor?" http://halfen-mktsport.blogspot.com.br/2015/09/o-ingresso-esta-caro-e-o-valor.html

Mas será que mesmo diante desse cenário, o comparecimento dos torcedores não poderia ser maior?
Na construção da Bombonera, estádio do Boca Juniors, o arquiteto contratado se viu às voltas com um sério problema: como construir uma instalação para 50 mil pessoas num terreno de 200 x 130 metros, considerando que só as dimensões do campo de jogo equivalem a 105 x 68 metros.
O que foi feito em termos de projeto arquitetônico, apesar de interessante, não é assunto para um blog de marketing, porém o conceito do qual a Bombonera se apropria, é um exemplo para qualquer profissional de marketing: entender qual o perfil do público-alvo. Nesse caso, cidadãos cuja paixão pelo time é componente obrigatório e a possibilidade de contribuir para o desempenho esportivo através de sua torcida é mais importante do que o conforto.
É importante ressaltar que há um público que visa o conforto, e também deve ser contemplado, mas que pouco agrega no aspecto motivacional.
Outro case que corrobora para o argumento do artigo, é o da Juventus de Turim. 
Seu estádio, o Juventus Stadium com capacidade para 41 mil assentos, foi construído tendo como principal objetivo satisfazer o torcedor e levá-lo aos jogos, já que a instalação anterior, o Delle Alpi, construída para a Copa de 1990 e capacidade para 67 mil pessoas não atraía a torcida.
A existência de uma pista de atletismo, que deixava os torcedores mais distantes do campo, foi apontada como o motivo principal para a rejeição dos torcedores.
Diante do problema, a diretoria da Juve optou por demolir o estádio, que foi palco da eliminação do Brasil na Copa de 90, e em dois anos construiu o novo que, além de propiciar “maior proximidade” do torcedor com o time, exalta em painéis seus ídolos e sua história, contribuindo assim para reforçar o aspecto “paíxão”. 
A construção do Juventus Stadium também serve como benchmarking em termos de investimentos, pois custou apenas 122 milhões de euros, valor que quando parametrizado com as 12 arenas brasileiras construídas para a Copa de 2014, o coloca como mais caro apenas do que o de Curitiba.
Como era de se esperar, a iniciativa foi um sucesso, tanto em termos de desempenho esportivo - inaugurado em 2011, desde então o clube tem se sagrado campeão nacional – como de presença de público. 
Segundo o relatório Football Money League da Deloitte, na temporada 2010-11, ainda no estádio antigo, as receitas com matchday foram de 11.6 milhões de euros, valor que aumentou para 31,8 milhões já no 1º ano do novo estádio, e depois sucessivamente para €38, €41 e 51,4 milhões na temporada 2014-15. Outro índice que comprova o sucesso do empreendimento é o RevPEPAS (receita por evento sobre lugar disponível) elaborado pela empresa KPMG, que em 2013-14 foi de €37 euros para Juve, enquanto que Milan e Inter atingiram €11 e €12 respectivamente.
É evidente que cada cidade, cada clube e cada torcida possuem características diferentes umas das outras, o que faz com que estudos detalhados e customizados sejam mandatórios em qualquer projeto – não apenas nos de estádio -, porém, o cases apresentados aqui podem servir como bons referenciais para os clubes brasileiros, principalmente no que tange ao conhecimento do comportamento e perfil de seu público.


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Concluir não é tão simples

Analisar resultados, sejam esses esportivos ou corporativos, requer, acima de tudo, responsabilidade com as deduções, isso porque, dependendo do ângulo pela qual se observa os números, a conclusão pode ser errônea.
Como forma de demonstrar a necessidade de análises mais detalhadas, utilizaremos um estudo - http://pt.slideshare.net/jambosb/natao-do-brasil-desempenho-rio-2016 -, realizado pela Jambo Sport Business, sobre o desempenho da natação brasileira nos Jogos de 2016 em provas individuais, comparando-o com o de Londres 2012 e ainda com a performance do time norte-americano nesses dois períodos, a qual serve como uma espécie de benchmarking.
Nesse estudo, é possível perceber que, ao contrário do que tentou se estabelecer, o desempenho do Brasil não foi tão ruim.


A avaliação de “desempenho ruim” nesse caso, e em quase todas as análises sobre resultados esportivos, se origina da simplória correlação de performance com quantidade de medalhas conquistadas, não contemplando outros parâmetros que poderiam permitir conclusões mais responsáveis, diagnósticos mais precisos e, consequentemente, planos e projetos mais assertivos.
Sob o prisma de medalhas, de fato a performance do Brasil na natação deixou a desejar, pois nenhuma foi conquistada em 2016, contra uma de prata e uma de bronze ganhas na edição anterior.
No entanto, o time brasileiro conseguiu participar de mais provas, o que é meritório, já que a qualificação se dá em função de um índice estabelecido pela FINA - Federation Internationale de Natation -, o qual corresponde ao tempo do 16º colocado nos Jogos Olímpicos anteriores.
Outro aspecto positivo se nota ao compararmos o número de finais e semifinais alcançadas em 2016 versus 2012.

O estudo aponta ainda três pontos de preocupação: 
  • Os tempos obtidos nas provas dos Jogos foram piores do que os que levaram os atletas a se qualificarem para a competição.
  • A quantidade de atletas que não estiveram presentes em Londres é muito baixa quando comparado ao dos EUA, ou seja, o processo de renovação está um pouco lento.
  • A média de idade do time brasileiro tem sido mais alta do que a do time norte-americano, o que corrobora para a observação anterior.
Em suma, podemos concluir com o trabalho que há muito para melhorar, devendo ficar claro que alguns desses parâmetros são “variáveis pouco ou nada controláveis”, como é o caso do número de medalhas conquistadas e de finais/semifinais alcançadas. Afinal de contas, por mais que se prepare, é impossível evitar que outros países ministrem a mesma quantidade e qualidade de treinamento, o que faz com que o talento também seja um diferencial.
Já as "variáveis controláveis", que devem servir como metas, dependem basicamente de preparação e estrutura. Aqui contemplamos a renovação da equipe e a quantidade de atletas com índices.
Para que fique clara a distinção entre variáveis controláveis e incontroláveis, usaremos como exemplo o caso de um estudante. Podemos exigir que ele tire as notas necessárias para passar de ano, porém, fica muito complicado exigir que ele seja o melhor aluno da sala.

No mercado, mesmo sendo um pouco mais raro, são também comuns os erros de avaliação, pois parte dos analistas se prendem aos grandes números – quase sempre financeiros – e esquecem aspectos mercadológicos que, como dito acima, auxiliam em conclusões mais responsáveis, diagnósticos mais precisos e, consequentemente, planos e projetos mais assertivos.





terça-feira, 6 de setembro de 2016

Desistir é para sempre...

Um dos momentos mais marcantes e mais emblemáticos da história das Olimpíadas se deu na chegada da atleta suíça Gabrielle Anderson, que chegou na 37ª colocação entre as 44 que terminaram a maratona dos Jogos de Los Angeles em 1984.
Seu grande mérito foi terminar a prova, mesmo totalmente sem condições e cambaleando em função do grave quadro de hiponatremia (queda brutal de sódio no sangue) causado pela falta de reposição isotônica e pelo forte calor californiano. A título de curiosidade, seu tempo, ainda assim, foi de 2:48.
Mais do que um exemplo de determinação, o feito de Gabrielle deveria servir como modelo para todos aqueles que desistem na iminência de um fracasso. Por sinal, o caso da atleta suíça é ainda mais emblemático pelo fato de a maratona ser um esporte individual, ou seja, uma eventual desistência traz “transtorno” apenas para a própria pessoa.
As situações no esporte, de forma geral, são excelentes ilustrações, pois nos remetem a acontecimentos de nossas vidas, que requerem a superação de dores, incertezas, angústias, preocupações e fracassos. Além do que, as imagens proporcionadas pelo esporte impactam de forma dramatizada - e real - corações e mentes como num filme, onde muitas vezes o final não é feliz.
A vida corporativa, ainda que sem a plasticidade peculiar das competições esportivas, nem os holofotes dos Jogos - pode também nos subsidiar com belos casos de superação, coragem e determinação, entre os quais podemos citar: Steve Jobs, que após ser demitido por um CEO que ele mesmo tinha contratado para a Apple, montou sua segunda empresa, a NeXT. Essa empresa foi posteriormente adquirida pela Apple, sendo que dessa vez coube a Jobs o cargo de CEO. O resto da história de sucesso todos conhecem. 
Walt Disney, que após ser demitido de vários empregos montou um estúdio e paro por aqui por respeito ao espaço. 

Já sobre os "desistentes", não vamos perder tempo com nomes, mesmo porque o anonimato e o desprezo são os produtos finais de suas condutas.
Entretanto, vale conceitualmente relatar que pessoas com esse perfil são os piores profissionais que uma organização pode vir a ter, visto que inseridos na covardia estão a deslealdade, a desonestidade, o egoísmo e a falta de hombridade, características que nada acrescentam a quem busca resultados sustentáveis.

Termino o artigo com duas frases bem adequadas ao tema. 
A primeira do ciclista americano Lance Armstrong que, apesar do enorme prejuízo que trouxe ao esporte, foi muito feliz na afirmação de que “A dor é temporária, desistir dura para sempre”.
E a segunda do ensaísta francês Joseph Joubert. “O medo depende da imaginação, a covardia do caráter”.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

A importância da recomendação

O episódio com o nadador Ryan Lochte foi uma das notícias que mais rendeu comentários na Rio 2016.
Conseguiu-se no fato misturar pitadas do noticiário policial, intrigas e mistério, e tudo isso em torno de um atleta olímpico famoso.
As especulações sobre quais seriam as consequências da atabalhoada atitude do nadador, acabaram se concretizando, apesar de alguns duvidarem de que a suspensão e a não renovação dos contratos de patrocínios não ocorreriam. Opiniões essas que, acredito, tiveram por base os casos passados com outros atletas pegos em situações constrangedoras. Talvez a própria impunidade que por muito tempo fez-se presente no Brasil também tenha corroborado para a formação dessas opiniões.
Na verdade, bastaria conhecer um pouco de marketing, aqui mais especificamente pesquisas de mercado e estudos sobre o comportamento e perfil do consumidor – principalmente americano – para imaginar o desenlace do imbróglio.
Para melhor entendimento do que pretendo desenvolver, dois pontos devem ser abordados:
O primeiro sobre os benefícios - e riscos - de se usar celebridades para endossar algum produto, serviço ou marca. Esse tipo de ação é feito com o intuito de capitalizar a imagem de alguém com sucesso em dado segmento, de forma que seu testemunhal seja uma espécie de “garantia” para a de cisão de compra daquele produto. Afinal de contas, se é bom para ele deve ser bom para todos.
Há, no entanto, uma condição, entre tantas outras, que julgo primordial para a escolha da personalidade que endossará a marca: sua credibilidade.
O segundo ponto que respalda a decisão dos patrocinadores é relacionado à pesquisa de mercado, mais precisamente a uma métrica conhecida por NPS – Net Promoter Score –, criada em Harvard, na qual através de uma única pergunta relacionada à recomendação daquela empresa e/ou de seus produtos, se avalia a satisfação dos clientes. Algo do tipo: “numa escala de 0 a 10, o quanto você recomendaria essa empresa para um amigo”. Baseado nessas respostas se chega ao percentual de clientes detratores, promotores e neutros, para a partir de aí calcular o NPS. 
Outras métricas também dão peso importante ao fator “recomendação”, algumas, no entanto, acrescentam perguntas ligadas à satisfação e fidelidade. 
Como podemos ver, a “recomendação” é um elemento extremamente relacionado à satisfação do cliente, principalmente nos EUA, o que deixa a situação do nadador ainda mais fragilizada. Como acreditar num sujeito que mente? 
Os argumentos de que outros atletas cometeram infrações tão ou mais graves e não perderam o patrocínio são coerentes, só pecam ao não considerarem que a percepção de credibilidade é fundamental para qualquer empresa, já que mais importante do que a fama e o sucesso de quem endossa, é sua confiabilidade.
Em tempo, na contramão dos principais patrocinadores de Lochte, a empresa produtora de balas Pine Bros resolveu após o episódio patrocinar o nadador. Uma iniciativa, sem dúvida, positiva no que tange à popularização da marca, entretanto ainda é cedo para avaliar se o patrocínio trará para a marca uma associação aos atributos relacionados à carreira vitoriosa do nadador ou se herdará a suposta imagem de faltar com a verdade em suas comunicações.
O tempo e as pesquisas relacionadas à imagem tratarão de esclarecer essas dúvidas, cabendo ao nadador aprender e mostrar ao público que o único ativo que possuímos e que só depende de nós mesmos manter é a nossa credibilidade.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Investimentos olímpicos

Ao fim de mais uma edição dos Jogos Olímpicos, aparecem as tradicionais críticas ao desempenho do Time Brasil. Dessa vez chegam “embasadas” pelo fato de termos disputado os Jogos em casa e pelo "elevado" investimento na parte técnica.
Ah, e não chegamos na meta...
Curiosamente, ainda no início das competições alguns já alardeavam o apocalipse dos esportes olímpicos brasileiros, esquecendo-se que as nossas maiores possibilidades de conquista de medalhas se concentravam na segunda metade dos Jogos. Aliás, não sei se se esqueceram, se não se instruíram a respeito ou se torceram contra mesmo.
E aqui não me refiro aos torcedores que, cegos pela paixão, querem mais é desabafar e encontrar um responsável pelo desempenho, segundo eles ruim. Afinal de contas, não são eles que estarão na pele do atleta e/ou do técnico a ser "massacrado" pela opinião pública.
Pior do que os "apaixonados" são os críticos, ditos especialistas em esportes olímpicos e/ou em gestão, que deixam transparecer em suas intervenções a fragilidade de seus conhecimentos.
Entre as pérolas proferidas, está a insistência na afirmação de que basta se preparar adequadamente para que as medalhas sejam conquistadas. Sobre essa declaração gostaria que me respondessem uma simples pergunta: qual seria o resultado se todos os países se preparassem adequadamente? Empate?
Ora, é óbvio que buscar o ponto ótimo da preparação é fundamental para a obtenção de medalhas, mas isso não é o suficiente num ambiente de concorrência.
Outro argumento falho, para não ser agressivo na adjetivação, é o que tenta correlacionar o número de medalhas com o investimento naquele ciclo olímpico. Será que não enxergam que precisam mandatoriamente contemplar nesse cálculo muito mais do que um ciclo olímpico? Será que não conseguem entender que o investimento no alto rendimento é apenas uma parte e que para se chegar a uma equação coerente, o esporte de iniciação, os investimentos em educação no país e o processo de transição da base para o adulto precisam também ser considerados.
Alguns chegam a comparar o investimento feito pelos EUA nesse ciclo olímpico com o do Brasil. E pelo fato desse montante ter sido aproximadamente duas vezes mais, concluem que deveria haver a mesma correlação no número de medalhas conquistadas, ignorando solenemente os investimentos ao longo dos anos e demais aspectos relacionados às estruturas socioeconômicas dos países. 
Na mesma linha, alguns "especialistas" em gestão acusam a falta de uma “boa gestão” para explicar o desempenho que os desagradou. Sabem eles quais são os recursos efetivamente disponíveis? Desconfiam de qual seja o grau de autonomia e ingerência que o comitê olímpico e as confederações possuem sobre toda cadeia esportiva? Têm alguma noção de que existem limitações ancestrais que influenciam os resultados?
A essa hora, os catedráticos em gestão ou algum “especialista” em esportes olímpicos devem estar loucos para perguntar se eu gostei do desempenho do Brasil?
Evidente que não! Sempre vou querer mais, muito mais. Também não defendo cegamente as gestões de todas as confederações, nem tampouco todos os atletas que não conquistaram medalhas.
Reconheço que existem ou existiram péssimas gestões em algumas confederações, federações e/ou clubes, assim como não nego que houve atletas que nos Jogos não renderam todo o seu potencial por não estarem preparados adequadamente.
Só não acho correto “atacarem” sem o devido conhecimento e/ou criticarem para ganhar espaço na mídia ou projeção em redes sociais.
A propósito, muitos desses após a derrota do vôlei masculino para a Itália na fase preliminar da disputa, chegaram a cogitar que o ciclo do Bernardinho como técnico já tinha terminado.
Foram calados pelos fatos, mas não serão intimados a "engolir" ninguém. Esporte não é gastronomia!

Que venham os próximos Jogos e que entendam que investir em esporte contempla também investir em segurança, saúde e educação e vice-versa.